Cinco minutos

Estivemos na última edição da Feira Internacional do Livro de Frankfurt. É o maior evento de compra e venda de direitos autorais do mundo, sempre acompanhado por mesas de discussões, polêmicas e desfiles de escritores, personalidades em geral e adolescentes fantasiados. Frankfurt é a cidade ideal para esse tipo de reunião de negócios: um dos maiores centros financeiros do mundo, tem em frente ao prédio da ópera uma estátua enorme com o símbolo do Euro. A especulação imobiliária é tal que vários edifícios estão sendo erguidos sobre os últimos espaços livres, justamente em cima das antigas ruínas romanas. Logo, para ver um teatro milenar os visitantes terão que pegar um crachá, fazer uma foto na portaria e responder que não, o destino não é o trigésimo segundo andar, mas sim o subsolo.

 

A feira tem um ritmo frenético. Funcionando em um centro de convenções ligado a uma estação de metrô, uma hora antes da abertura os trens estão apinhados de gente do mundo inteiro. Alguns carregam caixas, as malas de livros são um pouco mais numerosas, mas a maior parte dos volumes negociados está nos iPads. As conversas são descomplicadas: marcadas com alguns meses de antecedência, duram meia hora sempre. Cada encontro rende a apresentação de mais ou menos seis livros. O editor interessado em vender mostra a capa da edição original, comenta em cinco ou seis frases o conteúdo e acrescenta uma história pitoresca, talvez um prêmio para os de mais sorte e, claro, as vendas. Se o comprador se interessar, recebe na hora um e-mail com um sample do livro. Talvez ele tenha 24 horas para responder. Nesse caso, sua noite está comprometida pela leitura (ele deve ter mais quatro casos assim até o fim do dia) e o stress da decisão. No dia seguinte, correndo até a próxima reunião, talvez ele cruze com o representante de vendas do dia anterior e, com um aceno, agradeça a negociação. Se o outro se lembrar, responderá com um sorriso. Todos em Frankfurt são afáveis, educados e sobretudo muito apressados. Como a adrenalina é fundamental para o mundo dos negócios, o wi-fi funciona muito mal e os setores de alimentação são péssimos. Curiosa, uma editora brasileira ligou um contador de passos no início de um dia de feira e descobriu que, oito horas depois, tinha caminhado 14 quilômetros.

 

Escritores, evidentemente, estão em todos os corredores. Os muito famosos vão participar de debates concorridos e algumas mesas de entrevistas. Há um tal de sofá azul em uma das entradas que permite autógrafos. Na edição deste ano, Salman Rushdie falou na abertura, o que fez com que o Irã abandonasse a feira, deixando um estande vazio, algumas declarações inflamadas e mais nada. Os países têm os autores rebeldes, aqueles que não estão a fim de fazer concessões, os escritores de fantasia, infanto-juvenis que vendem centenas de milhares de exemplares, sociólogos, astrólogos, talentos emergentes e muitos escritores hábeis em contar uma história que será resumida, se ele tiver um bom espaço no coração de seus editores, em cinco minutos.

 

Todos, dos não concessivos aos onipresentes contadores de uma boa história, querem ter seus direitos negociados para uma tradução. Caso venham de um país subdesenvolvido (desculpe a terminologia, leitor...), podem contar com ONGs de apoio, que reservam um orçamento para traduzir alguns talentos dessas culturas mais sofridas. Mesmo assim é preciso ser escolhido por um comitê de seleção. Quem passar na Feira de Frankfurt para ouvir escritores vindos dos países não centrais (tomando como centro a definição risível do continente anfitrião) ouvirá histórias exóticas e bizarras de violência, autores cuja literatura os salvou da miséria, genealogias familiares que sempre têm espaço para um acontecimento trágico. Um conselheiro da ONG pode estar na plateia e é preciso comovê-lo.

 

A estrutura da negociação internacional de direitos é muito fechada e o único ato político que permite em seu interior é esse tipo de trânsito. O resto – a arte – fica em outro circuito.

 

No sábado, os agentes já foram embora e a feira, embora sem grandes estandes de venda, é aberta ao público. Neste ano, como aparentemente sempre, hordas de adolescentes fantasiados de vikings, princesas, ogros, bruxas, magos, guerreiros, seres mitológicos e gnomos foram maioria, dividindo espaço com os refugiados, em bem menor número, que já tinham um documento válido e para quem a feira decidiu organizar alguns eventos. A propósito, nas rodas de conversa eles eram o assunto: a Alemanha vai mudar de rosto se Angela Merkel, depois de ter sufocado a Grécia, de fato levar adiante sua admirável política de aceitação. Nesses círculos mais esclarecidos, todos apoiam a chegada dos refugiados, embora dividam apreensões quanto ao futuro incerto. Visitamos um abrigo e de fato constatamos que, ao menos ali, sírios, iraquianos, afegãos, argelinos, paquistaneses e ainda muitos outros estão sendo tratados com dignidade, apesar da apreensão que o confinamento à espera de documentos causa.

 

Voltando à feira, talvez seja possível defini-la com uma expressão bastante corriqueira: cinco minutinhos. Em outro ritmo, a partir do início de 2016, a revista Peixe-elétrico amplia seu horizonte e abre um selo para publicar uma série de livros voltados para a reflexão de fôlego sobre arte e outros campos das ciências humanas. São ensaios escritos por especialistas e que encontram dificuldade para se estabelecer no mercado veloz e facilmente resumível dos livros de cinco minutos.

 

Queremos mais tempo.

 
 
Os editores
novembro de 2015

 

 

  • w-facebook
  • White Instagram Icon
  • Twitter Clean