400 anos

A cada ano, quando a Academia Sueca anuncia o novo agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, as polêmicas, brigas e confusões nascem da seguinte pergunta: merecia?

Este ano apareceu uma nova questão: podia?

Ou seja, saíamos do campo dos juízos de gosto para o do pertencimento. Afinal, Bob Dylan faz literatura para poder receber esse prêmio? Mesmo quem respondia que não, que Dylan não podia ganhar o Nobel de Literatura, via de regra reconhecia seu enorme talento.

Em um momento em que as fronteiras voltam a se fechar e os muros são pensados como a solução de um mundo cada vez mais desigual, a cultura não deixa de refletir essas questões. Reconheçamos portanto o papel da Academia em ajudar a derrubar alguns muros culturais.

Dylan não compareceu à cerimônia de entrega do prêmio mas mandou um texto para ser lido durante a premiação. Compreendendo perfeitamente o deslocamento promovido no debate por conta da sua entrada no salão mais sagrado da literatura, espertamente abordou a questão chamando para o seu lado ninguém menos do que Shakespeare. 

Eis o trecho final do discurso:

Mas tem uma coisa que eu preciso dizer. Como artista eu já toquei para 50.000 pessoas e já toquei para 50 pessoas e posso dizer a vocês que é mais difícil tocar para 50. Cinquenta mil pessoas têm uma só persona, o que não acontece com 50. Cada pessoa tem uma identidade separada, individual, um mundo todo seu. Elas podem perceber tudo com mais clareza. Sua honestidade e como ela se relaciona com a extensão do seu talento entram em julgamento. O fato de que o comitê do Nobel é tão pequeno não é algo que tenha passado despercebido para mim.

Mas, como Shakespeare, eu normalmente estou ocupado demais lidando com meus projetos criativos e tratando de todos os aspectos das questões prosaicas da vida. “Quem são os melhores músicos para essas canções?” “Será que estou gravando no estúdio certo?” “Será que essa música está no tom certo?” Certas coisas não mudam nunca, nem em 400 anos.

Nem uma única vez eu tive tempo de me perguntar, “Será que as minhas canções são literatura?”.

Então, agradeço realmente à Academia Sueca, tanto por ter parado para considerar precisamente essa questão quanto por oferecer, afinal, uma resposta tão maravilhosa.

Tudo de bom a cada um de vocês,

 

Bob Dylan*

 

Nós da Peixe-elétrico não temos nenhuma dúvida a respeito da escolha de Dylan para o Nobel. Merece e pode! 

 

Os editores

Março de 2017

 * Leia aqui a tradução completa do discurso por Caetano Galindo

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