Meninos mimados

Entre o último número da Peixe-elétrico e este novo, um atentado terrorista em Paris matou quase 200 pessoas (enquanto inúmeros outros em países menos midiáticos elevaram ainda mais o número de vítimas do Estado Islâmico); prefeituras e governos estaduais Brasil afora aumentaram o preço do transporte coletivo, deflagrando novas manifestações e, como sempre, violência policial e a costumeira supressão, através da força, do direito de manifestação; e o dono da editora Cosac Naify, parceira da revista desde a primeira hora, anunciou o fechamento da empresa.

 

Os atentados são um dos principais assuntos desta edição. Quanto à violência policial brasileira, estamos buscando um meio de discuti-la com mais profundidade, mas já registramos aqui o nosso protesto e, ao mesmo tempo, total apoio ao Movimento Passe Livre. O assunto deste editorial é o fechamento da Cosac Naify. É um chavão, mas vamos lá: trata-se de uma experiência que não será repetida. Tomara mesmo que ninguém reproduza os passos que seus idealizadores deram para inviabilizar o próprio negócio, fechá-lo de maneira abrupta e deselegante, oferecendo por fim um retrato de grande parte do meio intelectual brasileiro.

 

Os leitores da Peixe-elétrico certamente conhecem o perfil editorial da Cosac Naify. Não cabe repeti-lo, mas vale lembrar algumas de suas marcas distintivas. Encampando o profissionalismo recente das editoras brasileiras, suas traduções eram cuidadosas, os livros tinham projeto gráfico especial, aparato crítico relevante e o processo todo, da concepção do texto à divulgação, recebia acompanhamento profissional irretocável.

 

A editora publicou diversas coleções especializadas, da antropologia ao teatro de vanguarda, passando por um catálogo infantil primoroso. Os livros de arte seguramente estavam entre os melhores do mundo. Tudo isso obviamente exigia um alto custo de produção, o que intrigava um pouco o pequeno número de leitores de livros de qualidade no Brasil. Como a editora consegue praticar preços competitivos? Os livros da Cosac Naify eram caros, mas não muito além da tabela brasileira. Aqui e ali um de seus proprietários, Charles Cosac, aparecia na mídia para garantir que a empresa ia bem. De vez em quando mudava de ideia, ou uma demissão rumorosa e rocambolesca alimentava os boatos, mas nada que indicasse risco de morte. O outro dono, o tal Naify, sempre foi mais misterioso.

 

A forma como a Cosac Naify fechou é exemplar do funcionamento de boa parte da vida intelectual no Brasil. Em uma entrevista para o site de um jornal, publicada em uma noite de segunda-feira, o dono informou que a editora estava por fim fechando. Seus profissionais, que, repetimos, estavam entre os melhores do país, foram informados através da imprensa. Depois, ainda houve uma entrevista performática para a televisão, em que um Cosac choroso dizia que seu legado deveria ser o amor ao Brasil. Ou algo parecido...

 

O argumento que justifica o fim da Cosac Naify é o da inviabilidade financeira. Mas ficou mesmo a impressão de algo como “se eu pude abrir, posso fechar”. Durante a construção da imagem de heroísmo dos donos da editora, outro argumento incrível foi o de que os direitos trabalhistas de seus funcionários, mesmo os que trabalhavam sob o regime de pessoa jurídica, estavam garantidos. Aqui, nada mais adequado para exemplificar a “ideologia do favor” que desde sempre foi a marca da classe alta brasileira.

 

Uma parte do catálogo da editora migrou, felizmente, para outras casas, que certamente tentarão viabilizá-lo com um pouco mais de realismo e o mesmo cuidado profissional. Os livros infantis e boa parte do catálogo de arte, que depende de projeto gráfico específico, provavelmente vão se perder. Alguns autores continuam à deriva.

 

Durante o processo de fechamento, ainda, Charles Cosac disse algo como o seguinte: se não dá para viabilizar comercialmente os livros do jeito que eu os vislumbro, prefiro não fazê-los. Esse discurso sintetiza tudo. Em primeiro lugar, ou os leitores leem do jeito que o ricaço quer, ou não lerão com o investimento dele. A editora, portanto, foi apenas a realização do desejo de um ou dois milionários com disposição para investir na forma que eles acham que os outros devem ler. Se não der certo, pagam direitos trabalhistas, fazem o favor de transferir alguns títulos para outras editoras, comovem-se na televisão e se mandam.

                 

Entre os meios de produção cultural no Brasil, não é apenas a Cosac Naify que está nas mãos de um milionário benfeitor ou de um grupo empresarial atrás de melhorar a imagem de sua marca. Por aqui, são muitos os espaços que dependem dos caprichos da elite, que funciona como se fosse a dona da bola. A construção de espaços alternativos, voltados sobretudo para a formação de um público autônomo e independente, é fundamental para que não fiquemos mais na dependência desses meninos mimados.        

 

Os editores

Fevereiro de 2016

 

 

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