No outro lado

Quando publicamos o último número da Peixe-elétrico, a Câmara dos Deputados ainda não havia votado a aceitação do processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Uma parte grande dos nossos representantes legislativos citou Deus enquanto diziam, como em procissão, “sim, senhor presidente!”. Depois de Deus, a família foi a entidade mais lembrada. No dia seguinte, as garotas de programa que trabalham nas dependências do Congresso Nacional disseram que de jeito nenhum se sentiam enciumadas: “Ficamos com o melhor deles”. No caso, só pode ser o dinheiro...

Aliás, a advogada e professora da USP (sic)  Janaína Paschoal ainda não tinha protagonizado sua impressionante dancinha em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. A coreografia bizarra foi imortalizada em vídeos milhares de vezes acessados. Aos berros, exige o impeachment e se contorce daqui para lá, em um ritual que lembra os exorcismos transmitidos pelos canais evangélicos. No caso, a professora doutora é a endemoninhada.

Michel Temer, o presidente interino, formou um ministério inteiramente entregue à assim chamada bancada BBB: boi, bala (de revólver) e Bíblia. O Poder Legislativo mais conservador da história do Brasil republicano conseguiu estender seus tentáculos para o Poder Executivo. Algumas pérolas são dignas de nota: a nova “Secretaria da Mulher” é comandada por uma pessoa que se diz contra o direito de aborto mesmo em caso de estupro; o ministro do Desenvolvimento Social, Osmar Terra, declarou ainda ontem que o uso de drogas deve ser reprimido pela polícia, retrocedendo algumas décadas na política de saúde pública que hoje é praticamente consensual no mundo todo quando o assunto é o vício, seja de que natureza for.

Vale lembrar que além de resumir os interesses defendidos por boa parte dos nossos deputados, as iniciais BBB também representam o reality show de maior audiência do país, o Big Brother Brasil. As coisas estão interligadas: a votação pela abertura do processo de impeachment foi um espetáculo vulgar e patético, dirigido a um público igualmente vulgar e patético..

Aqui, porém, há um problema: o Brasil seria então em sua maioria um país de gente grosseira, voltada ao cinismo e ao espetáculo? Evidentemente, não. O fato é que a política aliou-se ao espetáculo, adotando um discurso de moral religiosa – como bem sabemos, falsa – para garantir a manutenção dos velhos privilégios da classe economicamente dominante. Não estamos falando de gente simples, abandonada pelo Estado, que vai atrás das igrejas evangélicas porque não tem acesso a nenhum outro tipo de conforto ou amparo de qualquer natureza. É preciso estar muito abandonado para confiar naqueles pastores-deputados.

Não é o caso, porém, de professores da Universidade de São Paulo... O espanto da Peixe-elétrico está no fato de Janaína Paschoal fazer parte do corpo docente da principal universidade do país. Se não temos como julgar sua produção acadêmica, é possível afirmar que a união que ela propõe entre religião e política não é apenas bizarra: parece-nos próxima à barbárie. Sem falar na incrível deselegância daqueles gestos tresloucados.

Estamos do outro lado.

Os editores

Julho de 2016

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