Resistência

O primeiro número da Peixe-elétrico foi lido até agora em pelo menos 13 países. Não tínhamos nenhuma expectativa do que pudesse acontecer quando conversamos pela primeira vez, a não ser nossa intenção de continuar sempre fazendo uma revista em que o rigor do texto e a procura pelo conflito fossem o eixo. Queríamos um periódico de resistência.
 
O segundo número traz quase o dobro de textos que tínhamos a princípio planejado. Além disso, colocamos no ar um blog com intervenções que, de alguma forma, se relacionam ao conteúdo da revista. Trouxemos na nossa primeira capa o nome de Ricardo Piglia: um pouco depois do lançamento do site, publicamos on-line a apresentação que Arcadio Diaz-Quiñones fez para a atividade docente do grande escritor argentino. E queremos agora, sem adiantar nada, apenas dizer que o autor de Respiração artificial continuará em nossas páginas por muito tempo.
 
Aprendemos que tudo na Peixe-elétrico acaba gerando outra coisa junto. O melhor exemplo disso é a capa do segundo número: o intelectual norte-americano Fredric Jameson. De início, o que tínhamos era a convicção de que “A estética da singularidade” é um ensaio central. Quando começamos a traduzi-lo, fizemos contato com Maria Elisa Cevasco, principal especialista na obra de Jameson no Brasil, e descobrimos uma entrevista inédita em língua portuguesa. Cevasco ainda ofereceu uma apresentação límpida e esclarecedora do pensamento de Jameson para o leitor que for conhecê-lo. Mas não é só isso. Seguindo nossa determinação de formar uma rede de ideias e conhecimento, na número 3 vamos publicar o ensaio “Jameson e a forma”, de Terry Eagleton, continuando a discussão que começamos aqui. 
 
Peixe-elétrico não fará nenhum acordo: nadaremos contra a corrente que afirma que nosso país é pobre inclusive intelectualmente. A propósito, provar que não é talvez seja uma possibilidade de combater as outras tantas pobrezas brasileiras. 
 
Peixe-elétrico não se define como uma “revista de cultura” ou um “periódico de artes”. Somos uma manifestação contraideológica. Nosso objetivo é reagir às ideias petrificadas. No Brasil, a questão palestina ainda é um assunto de alguns membros da comunidade árabe, da militância pelos direitos humanos e desse ou daquele grupo intelectual. Na revista, o problema palestino é a imagem que pretendemos oferecer ao leitor, motivados pela bela série de crônicas da escritora chilestina (chilena de família palestina) Lina Meruane. Peixe-elétrico nunca vai ser um palanque, mas sempre tomará partido, e as imagens do fotógrafo Rafael Benguelman são eloquentes nesse sentido.
 
Na área da crítica literária, Ricardo Barberena escreve sobre a dificuldade de se lidar com o texto literário contemporâneo, assumindo que muitas vezes é preciso falar dele sem conseguir necessariamente explicá-lo de forma satisfatória. De novo, é o mesmo desafio da Peixe-elétrico: não sabemos o que o mundo contemporâneo significa (e nem se tem de fato algum significado), mas vamos de qualquer forma nos arriscar a tratar dele o tempo inteiro. Leyla Perrone-Moisés publica conosco uma longa resenha do trabalho do escritor norueguês Karl Ove Knausgård, tentando desvendar o mistério de uma literatura simples e envolvente. São poucos os textos que até agora conseguiram entender por que a série de livros Minha luta tem chamado tanta atenção.  
 
Muito se falou das manifestações de junho de 2013. No entanto, a maioria dessas vozes jamais esteve no dia a dia dos acontecimentos. Peixe-elétrico ousa dizer que esse é, inclusive, um artifício para neutralizar as reivindicações. Sem neutralidade, publicamos um texto refletindo sobre as influências que o mercado editorial pode estar imprimindo à reflexão literária. O autor, Bruno Rodrigues, é um militante que conhece as manifestações no próprio corpo, por assim dizer.
 
Aos militantes, Peixe-elétrico agradece muito.
 
Se a questão é oferecer referências para o debate, não há forma nem autor mais adequados do que um dicionário sobre Jorge Luis Borges. Adiantamos aqui dois verbetes da obra sobre o maior escritor argentino que Jorge Schwartz organizou e que a editora Companhia das Letras irá publicar em 2016. São textos densos e que lidam com questões até agora pouco discutidas.
 
Seguindo nossa aposta no valor da resenha, temos nesta edição o historiador Elias Thomé Saliba escrevendo sobre um polêmico livro recém-lançado, de Marcos Costa. Mais do que apresentar um livro ou julgá-lo, Peixe-elétrico acredita que a boa resenha deve amplificar o debate a partir de um objeto estético. Saliba ilustra essa ideia com perfeição.
 
Também de um historiador, Peixe-elétrico presenteia o leitor com um texto inédito e precioso. Trata-se do rascunho inicial de uma futura autobiografia do pensador paulista Carlos Guilherme Mota. A mistura de reflexão epistemológica com causos familiares ganha força ao ser banhada com a sinceridade de quem quer de fato fazer um balanço franco de sua própria trajetória (pessoal e profissional). Memória é também resistência.
 
A energia que o lançamento da revista Peixe-elétrico gerou evidenciou que, de fato, havia no Brasil espaço para uma publicação que promovesse o debate franco e aberto. A número três, a propósito, terá o mesmo nível que as anteriores. Vamos publicar, por exemplo, um texto sobre a encíclica que... Melhor não nos adiantarmos. Podemos dizer agora, com toda clareza, que a revista não apenas manterá seu fôlego. Não é só isso: essa força contraideológica irá impulsionar todas as nossas páginas. O conflito é bom.
 
 
Os editores
setembro de 2015

 

 

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