O presente de Lina Meruane


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1 Comecemos com uma obviedade: autores contemporâneos não necessariamente tratam da contemporaneidade.

E passemos para algo nada óbvio: o que define a contemporaneidade?

Um conjunto de ideias, ideologias, imagens e práticas, reunido de forma mais ou menos arbitrária, (e aqui podemos ir da episteme segundo Foucault até os n estruturalismos) quando atinge algum consenso, define uma época. Esse consenso raramente atravessa classes, regiões e formações diferentes. O distanciamento histórico, algo que obviamente não temos quando falamos em contemporaneidade, tende a facilitar a operação.

Se pensarmos na área das humanidades, um dos conceitos que pode definir a contemporaneidade é o presentismo. Uma espécie de “reino do eterno presente”.

O passado não nos serve, trata-se de mera construção da linguagem. Tudo é discurso sobre discurso. Segundo Fredric Jameson, em um de seus primeiros ensaios sobre a pós-modernidade, dentro da lógica do presentismo, o passado só poderia ser acessado através da cultura pop. (Suspeito que essas ideias todas que tendem a declarar a impossibilidade de se lidar com o passado, fortemente em voga na Europa a partir da década de 1970, sejam em parte fruto de um grande recalque em relação às barbaridades cometidas por ali durante a Segunda Guerra. Mas isso já é outro assunto.)

O futuro também nunca chega. Distopia, imanência e falência de qualquer forma de teleologia, cobrem o que vem pela frente com um espelho que nos devolve todos os dias o próprio dia. Não há mais pote de ouro no fim do arco-íris (na verdade, não há sequer fim do arco-íris).

Nesse eterno presente os homens se batem em busca de sentidos e significados. Aos encontrões, como cegos, procuram um caminho. 2 Neste texto será proposto que a ideia de presentismo pode ser entendida como um dos principais elementos organizadores do romance Sangue no olho, de Lina Meruane.

A personagem principal, Lucina, atravessa todo o livro prestes a perder definitivamente a já precária visão. A carreira de escritora, o trabalho na universidade, o relacionamento com Ignacio, nada tem futuro.

A protagonista encontra um substituto para a leitura nos áudio-livros. Dessa maneira passa a integrar o elenco histórico de últimos leitores (Che Guevara, Borges, Walsh), servindo-se das soluções (sempre) incompletas oferecidas pela tecnologia.

A doença que lhe cobre a vista com sangue vai lentamente lhe apagando a memória. Como nas palavras cruzadas jogadas por seu namorado, significantes dançam esvaziados de significado em sua mente. 3 Chilena radicada em Nova York (futuro), não encontra conforto em Santiago (passado). O amor dos familiares e as velhas amizades sufocam tanto quanto o ar seco e poluído de sua cidade natal. Em Nova York, cidade símbolo das utopias racionalizantes da segunda metade do século xx, o futuro tampouco anima. A perda total da visão é uma fatalidade anunciada pela frieza científica do renomado médico que cuida de seu caso. 4 A crítica rapidamente (e ao meu ver, sem a devida reflexão) relacionou a questão da cegueira em Sangue no olho com a secular tradição de escritores cegos que adquiriram certo dom oracular. No entanto, Lucina vive plenamente as dores de um mundo desencantado. Confirmando a ideia de presentismo como elemento estrutural do livro, não é possível encontrar qualquer traço de profecia na falta de visão da protagonista. Na contemporaneidade, a cegueira é, tão somente e apenas, um mal. 5 A visão é dos sentidos mais valorizados da experiência humana. Apostamos todas as fichas nela. É a visão o grande juiz da verdade. O que vemos é real.

Não foram poucos os artistas que questionaram esse "império da verdade". No cinema, três clássicos: Janela indiscreta, Blow-up e Rashomon. Nas artes plásticas, Anish Kapoor. No teatro, as polêmicas montagens de Roberto Alvim na cena paulistana atual. E agora, integrando o seleto grupo, sem ficar devendo nada a ninguém, Lina Meruane.

Em uma das passagens mais tocantes do livro, Lina desloca suas fichas da visão para a memória. Um ato político e contra-ideológico radical! Ignacio não é capaz de se orientar na cidade de Santiago. Lucina, contando mais com a memória do que com a visão, conduz o motorista pelas ruas chilenas. Não enxerga o caminho, lembra o percurso. 6 O título do livro em espanhol (Sangre en el ojo) evoca a ideia de vingança. Uma data une e separa Chile e Nova York: 11 de setembro de 1973 e de 2001. Duas tragédias. Dois atos terroristas. Duas feridas que nunca se curam. A história como mal estar coletivo. Lucina está condenada geograficamente aos traumas históricos. Presa à cegueira do presente, não consegue se vingar. O título desliza assim do sentido metafórico para o literal: o sangue no olho deixa de ser vingança para ser apenas o que tira aos poucos a visão de Lucina. Mais uma vez aqui, a tentativa de criação de significados falha. 7 Se é na forma que estão os segredos de uma obra, a forma nervosa da escrita de Lina Meruane gera atrito constante com o enredo esvaziado de ações. Capítulos curtos parecem adiar eternamente o que interessa: Lucina perderá definitivamente a visão?

A forma do romance não permite piedade pela protagonista. O turbilhão de palavras arrasta o leitor pelo livro de forma quase insensível pelo drama de Lucina. Ora, há algo que mais irrite a protagonista do que a piedade alheia? Como ela odeia o choro da própria mãe!

Em Sangue no olho, a forma massacra o conteúdo. 8 Via de regra romances que tratam de doenças têm finais piegas. Basta ver o impressionante Uma questão pessoal, do nobel Kenzaburo Oe. Lina resolve a fatura e escapa da pieguice num rompante de gênio: lança mão do humor negro e encerra o livro sem encerrá-lo. Mantendo-o assim no eterno presente.

***

SANGUE NO OLHO

Autor: Lina Meruane 


Tradução: Josely Vianna Baptista

Editora: Cosacnaify

Link para o livro:

http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/2390/Sangue-no-olho.aspx

(crédito da imagem: divulgação)

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