Uma febre


Comecei a assistir a Vá e veja às 21 horas e 45 minutos da quarta-feira, 15 de junho de 2015. Meia hora depois, tenho certeza de que estou surdo. Com um pouco mais de tempo, parei o filme atordoado. Estão modelando uma caveira, não aguento mais. Peguei essa folha de papel almaço para me sentir mais seguro. Vou reler o que escrevi para ver se faz sentido.

Faz. Acho que inclusive o fato de ter registrado a hora logo no começo me trouxe confiança. Com isso, vou voltar a assistir a Vá e veja.

O protagonista chama-se Fliora. Estão carregando uma caveira e ele vai atrás. Não consigo achar o meu relógio. Achei. São 23 horas. Estão carregando a caveira. Sinto vergonha por bem no comecinho ter pensado no exército de Brancaleone. Continuo me sentindo mal. Estou testemunhando um acontecimento estético. São 23 horas e 12 minutos.

Comecei a sentir saudades da minha viagem à Polônia. Vou fazer aqui uma lista: com ela, me sinto mais tranqüilo. “Os alemães chegaram há dois dias”. Essa frase me deixou mais forte, pois estou com ódio de Angela Merkel. Agora, assistirei ao filme segurando o lápis. Fliora não tem ninguém, antes ou depois de ficar surdo.

Estou assistindo a um filme realmente importante. É mais do que isso. Sinto medo e vontade de desligar de novo. Estou com medo de esquecer desse filme algum dia. Então, vou dizer agora em voz alta os filmes de Carl Dreyer que já assisti. Não. Não vai funcionar. Mas o medo passou, estou mais sossegado. 23 horas e 36 minutos.

É tudo isso mesmo, Vá e veja. É tudo isso medo. Lembrei-me de O pântano, mas não quero mais comparar Vá e veja com nada. Aos 34 minutos do final, a parte mais difícil. Diante da loucura.

Saudades do leste europeu. Sopa quente. Viagem de trem na chuva. Raiva da Alemanha de novo. Medo. Drone. Nunca assisti algo tão violento. Continuo segurando essa folha para conseguir.

Dizem que temos que saber como foi para não deixar acontecer de novo. Sabemos como foi e sempre acontece de novo. É uma desculpa para o fato de eu estar perdendo a coragem. Colocaram todos os moradores de um povoado dentro de um celeiro. Trancaram o celeiro e colocaram fogo no celeiro trancado. Salvaram-se quatro. Um deles é o menino surdo, eu acho. Agora ele está ajoelhado, com um revólver na cabeça, para uma foto.

Se algum dia eu fosse escrever sobre esse filme, falaria das fotos que os soldados vão fazendo. Uma hora da manhã, eu estou exausto e com medo de não conseguir dormir. Quando estive em Viena, em maio, comprei no mercado de pulgas um passaporte nazista. A história é um fardo bem mais terrível que a febre da ficção. Sou aquele menino de trás para frente. Vou levantar armado.

Os dez minutos finais, não posso escrever: é aquilo, não é outra coisa.

***

Vá e veja

Trailer: http://bit.ly/1fM62AQ

Filme de 1985

União Soviética

Direção: Elem Klimov

Duração: 2h 26m

Música: Oleg Yanchenko

Edição: Valeriya Belova

(crédito da imagem: divulgação)

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