O republicano


Não se pode conversar sobre American Sniper sem que o clima esquente. Meu círculo de amizades é formado por pessoas que, ao menos em relação às invasões do Iraque e Afeganistão, concorda: as guerras promovidas pelos americanos são injustificáveis. O que naturalmente os leva a odiar o filme do Eastwood, que seria um panfleto pró-guerra etc. A justificativa unânime é extra-filme: o diretor é republicano. Contra esse fato comprovado, não adianta lutar. Acreditem em mim!

Ataquemos então pelas beiradas, já que eu, também contrário às invasões do Iraque e Afeganistão (para ficar nas recentes), assisti ao filme como o avesso da propaganda oficial.

Poderia afirmar que há na filmografia do diretor uma estrutura comum: a violência na América. É o inevitável na história daquele país. Trata-se do tema de Eastwood.

A grande contradição é que os setores mais progressistas (meus amigos incluídos) babaram pelos filmes anteriores do diretor: Os imperdoáveis, Menina de ouro, Sobre meninos e lobos, A troca, Gran Torino, e as duas versões da Segunda Guerra. Ora, até aqui pouco importava que o diretor fosse republicano. Os filmes são críticos. Revelam uma América doente. Bem, mas e a série com o policial justiceiro Harry Callahan? Ah, esqueça, aquilo era outra fase, ele era imaturo etc; eram filmes de entretenimento.

Sendo assim, American Sniper teria sido uma traição. Eastwood era de fato um republicano canalha. Ele havia nos enganado durante todos esses anos.

Um parêntese: antes de qualquer coisa, ser republicano não é um crime e não quer dizer que automaticamente você esteja alinhado com os setores mais reacionários e belicosos do governo americano. O próprio Eastwood se justificou sobre sua opção política com algo que toca fundo aos americanos, mas que não passa pela nossa mentalidade por estar ausente da “ideia de Brasil”. Ele contou que os pais dele passaram pelo crash de 1929 sem nenhum tipo de ajuda do Estado, apenas com o próprio esforço. Que lutaram por conta própria e reconstruíram suas vidas. E que era essa a História da América. Na verdade esse é o mito da América. E como todo mito, não pode ser ignorado totalmente.

Mas vamos ao filme:

A sutileza de American Sniper é desafiar as pessoas a terem empatia por um herói americano, independente do governo daquele país. O que Eastwood nos mostra é o óbvio: você pode odiar um país por conta da sua política e ideologia, mas você não pode odiar um por um (e todos) os cidadãos daquele país (ao menos não deveria). Seja esse cidadão um republicano ou até mesmo um mariner.

O herói do filme é vítima da estrutura violenta daquele país: desde os discursos do pai até o treinamento no exército, passando pela cultura cowboy, tudo muito bem embalado por certa religiosidade explosiva. Ele é criado nesse caldo que é o que dá sentido à sua vida. Mas não há glória em ser um herói. O filme é trágico. A vida do sniper está acabada. Ele não consegue voltar à normalidade quando retorna da guerra; a mulher e os filhos não o reconhecem mais. Ajudar veteranos é o seu único consolo. Enfim, estar entre os seus. Mas nem mesmo aí a violência da América deixa de cobrar o seu preço: ele é morto pelas mãos justamente de um outro veterano. O cortejo final em homenagem ao herói, com a chuva caindo e o céu cinza, é melancólico. Não há exaltação de nenhum tipo. O diretor não exalta seus feitos e nem o protagonista! Eles se constrangem com esse aparato patriótico...

Mas se a ideia era seguir criticando a violência na América, ou produzida pela América, por que um homem sofisticado como Eastwood fez os iraquianos inimigos tão caricatos? Bem, porque é assim que o herói americano os vê. Esse é o discurso que lhes é vendido para que arrisquem a própria vida para defender o seu país. Não é possível ter empatia simultaneamente pelos soldados iraquianos e americanos. É fácil ter empatia pelo lado mais fraco, mas e pelo lado mais forte? E ainda: o soldado americano (não o exército ou o armamento, mas o indivíduo) que arrisca a própria vida é sempre o lado mais forte? Pensar fora do lugar comum nunca é fácil. E Eastwood nos desafia a isso.

Faz diferença o filme ser baseado em fatos reais? Teoricamente objetos estéticos devem se sustentar independente desse tipo de lastro. Mas pensar que o maior atirador da história do exército americano é morto por um veterano, em solo americano, faz a gente pensar que a história era boa demais para que um pesquisador do tema a deixasse passar.

Se mesmo assim você não se convenceu de que American Sniper vale a pena e, principalmente, que é coerente com o lado crítico do diretor, lembre-se de que cinema é acima de tudo imagem. Os 10 minutos de tempestade de areia já valem o ingresso (ou o empréstimo na locadora).

E boa discussão com os seus amigos! ;)

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