Na mira


“Quanto mais reduzimos o alvo, menor a possibilidade de erro”.

A frase possivelmente dotada de maior sutileza no filme Sniper Americano poderia ser lida como uma indireta para certas ações de política externa norte-americana?

Imediatamente, o filme faz pensar em Paul Virilio de Guerra e cinema, um livro que nos diz que “a historia das batalhas é, antes de mais nada, a historia da metamorfose de seus campos de percepção”. Ou seja, a guerra depende da apropriação da imaterialidade dos campos de percepção.

Neste caso, o filme introduz uma perspectiva que é o olhar da guerra a partir do alvo de um sniper. As cenas em que o atirador tem pessoas enquadradas em seu alvo, incluindo crianças, sempre passam a sensação da existência de um grau de autonomia para a decisão sobre a execução do tiro. Em uma das cenas, o atirador chega a “torcer”, ou desejar, que o menino não pegue uma arma na mão e aponte-a para os soldados dos Estados Unidos. Pois caso essa atitude fosse tomada, ele teria que matá-lo. Um sniper com limites morais? Consciência de culpa cristã? Não necessariamente.

A visão da guerra pela tela da mira de um sniper também gera uma percepção sobre as formas da guerra. A guerra da precisão, que Hollywood nos quer fazer acreditar: a eliminação dos “efeitos colaterais”. Uma guerra “limpa”. Uma guerra que pode ser conduzida por máquinas não- tripuladas, drones comandados à distância. O cinema como ferramenta de política externa?

A cena descrita acima nos conduz a uma percepção de que toda a questão da guerra se resume à decisão de atores individuais, na linha de frente, que tomam decisões racionais, ainda que movidos por valores religiosos profundos (isso fica claro na parte em que a infância do atirador é mostrada, a relação dele com a Bíblia), por valores familiares (o pai opressor, fornecendo um enquadramento simplificado do mundo, divido entre ovelhas, lobos e pastores e personificando, assim, uma ingenuidade politica que Hollywood sempre relaciona às camadas mais profundas da sociedade estadunidense) e por uma formação massacrante no exército (que Kubrick demonstrou com maestria em Nascido para matar). Tudo isso amarrado pela cultura da violência, que Eastwood tanto sabe trabalhar, como componente da subjetivação nacional naquele país.

É esse indivíduo, o sniper, e não a lógica sistêmica da guerra com suas indústrias bélicas e interesses geopolíticos, que Eastwood coloca à nossa disposição. E ao fazê-lo nos expõe ao que ele, o atirador é, de fato: um personagem raso, pobre de visão de mundo, desesperado para colaborar em uma lógica de agressividade como forma de evitar o tédio do interior do Texas. Um sujeito entediado. Alguém que se sensibiliza com as imagens que chegam pela TV dos ataques contra cidadãos norte-americanos por parte de terroristas. A TV como mediação para ação política. Um cowboy em defesa da família texana, que reage de maneira quase ascética à convocação da Pátria para lutar contra o Mal (categorias frágeis o suficiente para fazer com que o próprio irmão do personagem volte para casa com a clara expressão de quem percebeu isso em algum momento. A ovelha, segundo seu pai). Alguém conhecido como “a lenda” pelos soldados pela quantidade de pessoas que matou no Iraque.

Para alguém com um enquadramento existencial tão restrito é sempre necessário encontrar o Outro, a quem devo desumanizar primeiro para, depois, projetar minha agressividade. Afinal de contas, pensar nos verdadeiros arquitetos das crises e guerras dá sempre mais trabalho.

Ódio, tédio e pobreza existencial, por falta de uma leitura de mundo que não precise colocar o Outro no lugar do Mal. Uma combinação essencial para a barbárie, não só nos Estados Unidos (como, infelizmente, temos visto por aqui).

Com roteiro pobre, Sniper Americano nos remete ao Guerra ao terror e às consequências psicológicas da guerra sobre a geração do Iraque e Afeganistão (falar do Orientalismo do filme é chamar a atenção para o evidente, mas que sempre precisa ser repetido).

No final, é possível dizer: o Vietnã gerou filmes bem melhores.

Por que?

***

Geraldo Adriano Campos é professor de Sociologia das Relações Internacionais e Curador da Mostra Mundo Árabe de Cinema.

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