O escritor da arte


Untilled, de Pierre Huygue, uma das obras preferidas de Vila-Matas, na Documenta 13.

Em Não há lugar para a lógica em Kassel, Enrique Vila-Matas descreve sua experiência como um dos escritores convidados para passar algum tempo em um restaurante chinês da periferia da pequena cidade alemã e conversar com o público que acaso pudesse se interessar pelo seu trabalho. Tratava-se de uma das muitas atrações da Documenta 13. A experiência fez com que o narrador transitasse por diversas manifestações artísticas e experimentasse várias reações. Entre elas a mais marcante é sem dúvida a visão extremamente positiva da arte contemporânea – que eu aliás divido com ele.

Acabei de ler as respostas de Vila-Matas. A mais impressionante sem dúvida é a que ele fala como a crise econômica está ditando os rumos da literatura na Espanha. Vou deixar a última resposta tão enigmática para o leitor que não conhece o livro como é a pergunta. Para entendê-la vai ser preciso ler Não há lugar para a lógica em Kassel.

Ricardo Lísias

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O narrador do livro parece tornar-se uma pessoa melhor depois de viver uma relação de proximidade muito intensa com a arte contemporânea. Ele se torna mais leve e alegre. O senhor fez seu narrador passar por esse percurso para sublinhar a possibilidade de um certo tipo de arte fazer bem para as pessoas? Pareceu-me que mesmo as personagens desequilibradas encontram algum alento nas obras da Documenta que o narrador participou.

As possibilidades da arte contemporânea? São imensas. Na minha visita a Kassel, eu mesmo pude comprová-las naquela sala vazia do museu principal da Documenta, naquela sala por onde passava uma corrente de ar, que logo vi que não vinha da rua, mas que era artificial, e estava assinada por Ryan Gardner, que intitulara sua curiosa obra da seguinte maneira: “O impulso invisível”. Eu estava desanimado naquele dia e mesmo que não pudesse vê-lo, era capaz de me ajudar em tudo e a partir de então vivi minha passagem por Kassel como um romance imensamente otimista.

Já perto do final do livro, o narrador afirma que a arte contemporânea está bastante viva, enquanto a Europa morreu. Há uma corrente da estética que defende o contrário: que a arte está morta. Ao compor um narrador que vai contra essa corrente, o senhor instala seu texto em um lugar de resistência. Aliás, esse lugar é um dos motores de certa arte contemporânea. Como o próprio narrador diz, a literatura parece não ir contra a sociedade, embora as artes plásticas estejam indo. Se eu somar a tudo isso a própria dimensão fugidia e escorregadia do seu narrador, posso concluir que o seu trabalho está mais próximo das artes plásticas do que de boa parte da literatura contemporânea?

Sou um narrador literário, um escritor de ficções. Mas nos últimos tempos, desde que me encontrei com Sophie Calle (Exploradores del abismo), abri minha literatura à arte contemporânea. De fato, nos últimos anos consegui fugir da minha obsessão única e exclusiva pela literatura e abri as possibilidades para outras disciplinas artísticas. Minha amizade com a grande artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster, cidadã de Paris e do Rio de Janeiro, levou a um novo livro, Marienbad électrique, em que falo das minhas relações artísticas com ela; o livro sai em setembro na França e espero que saia logo no Brasil. (A Cosac Naify tem a preferência para publicá-lo.)

Uma das principais forças da Europa era justamente o alto nível de sua arte, historicamente muito vigorosa. Se a Europa está morta, e consequentemente a força de sua arte, podemos aceitar que a arte mais potente agora virá dos espaços periféricos?

Não é uma questão de espaços, mas sim de pessoas. A arte é como a vida, o que importa é fazer algo interessante com ela. Alguma coisa com a neve e a luz e a madeira antiga e a corrente de ar que ao rés do chão anuncia de imediato o outono; tudo isso reflete o rastro que o instante deixa e nos concede o consolo de saber que a luz, a chuva, a velha porta, a névoa no cais e o último pássaro, o vento e aquela montanha, sempre foram admiráveis porque, ao contrário dos demais, souberam persistir no seu ser.

O tema da Documenta que o seu livro apresenta era “Colapso e recuperação”. A própria cidade de Kassel é um exemplo desse movimento: depois de destruída, recuperou-se e tornou-se um centro artístico decisivo. A Espanha vive uma situação econômica há alguns anos de colapso. Ela vai se recuperar? Há algo que esse colapso tenha levado que o país jamais recuperará?

No aspecto cultural o retrocesso é brutal, o país não vai se recuperar, especialmente a literatura. Basta ver a política das agências e das grandes editoras. Ditam de forma muito subliminar as normas que se deve seguir, e se não segue, seu trabalho não interessa. Fazem você se sentir livre, mas você não é mais, ao menos não é mais como antes. A moda agora é, por exemplo, condenar tudo o que parece pesado pois dizem que é muito “literário”. Os editores estão cavando a própria tumba.

Podemos considerar a frase “Essa é a minha primeira entrevista” que fiz na apresentação um mcguffin?

Você quer outro mcguffin? A arte é magnífica e vai viver enquanto nós vivermos, pois a arte é apenas isso: o que acontece agora mesmo. A arte é o que está acontecendo nesse instante. Mas também é verdade que a arte vai ao seu próprio encontro, até sua essência (não veremos essa desaparição, ela viverá mais do que nós). Mas a arte já está nos portais do Final, viaja irremediavelmente na luz do último céu e um dia morrerá, como morrem todas as coisas, como se extinguirão o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a Galáxia e a mais recôndita memória dos homens.

Obra de Ida Applebroog, na Documenta 13.

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NÃO HÁ LUGAR PARA A LÓGICA EM KASSEL

Autor: Enrique Vila-Matas

Tradução: Antônio Xerxenesky

Texto de orelha: Veronica Stigger

Editora: Cosac Naify

Link para o livro: http://bit.ly/1MI7EWz

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