Fim do mundo


De onde saiu esse livro surpreendente? Eu me perguntava enquanto lia O vento que arrasa, romance de Selva Almada. Não por alguma curiosidade biográfica, mas por ser ele um objeto insólito na literatura argentina. Se fosse procurar algum parentesco, seria com Pequeñas intenciones, de Jorge Consiglio. A escritura não os aproxima, mas dividem a estranheza; são narrativas que chegam de um outro espaço, pouco transitado, mais local. Se fosse buscar uma família no passado, pensaria em Saer. Novamente: não pela escritura, não por uma repetição maneirista e tardia do mestre, mas pela excentricidade que, à sua época, tinham Palo y hueso ou Responso. Selva Almada tem um lugar deslocado no mapa da ficção: não é literatura urbana, não é literatura sobre jovens ou sobre marginais, nem sobre pessoas que passam a vida cheirando pó. É literatura de província, como a de Carson McCullers, por exemplo. Regional diante das culturas globalizadas, mas não costumbrista. Bem ao contrário de muita literatura urbana, que é costumbrista sem ser regional. A originalidade de uma ficção se coloca na linguagem. O velho realismo filtrado pelo lugar menos imaginado: o das ficções que perseguem o presente, a instantaneidade dos hábitos, as tribos, os modismos que tem data de surgimento e vencimento.

O vento que arrasa transcorre entre a tarde de um dia e a manhã do seguinte. O cenário é uma oficina mecânica, perdida no meio do campo, onde vivem Brauer e Tapioca, o menino de dezesseis anos que pode ser seu filho (que é o que o disseram ser, para deixar de ser um dia, como se fosse uma encomenda). Ali chega um pastor protestante, o reverendo Pearson, e sua filha Leni, também de dezesseis anos; ambos foram abandonados pela esposa do pastor e mãe da menina. Todo mundo nas mãos de Deus. O reverendo precisa que Brauer conserte seu carro, pois tem que continuar a viagem até o lugar de um sermão, um encontro com Deus e com um amigo que o aguarda.

Faz calor, Brauer fuma e tosse; o reverendo fala de Cristo para o menino; a filha admira seu esforço missionário, a oratória poderosa e a confiança de seu pai em ganhar todas as batalhas; impacienta-se com sua lerdeza. Enquanto Brauer se suja de graxa, agita-se e suspira debaixo do carro, o reverendo flutua em sua atmosfera de certezas, sustentado pelo discurso interminável que pronuncia com uma convicção que não pode revelar. Nada mais que isso nesse presente de algumas horas. Nada além disso, apenas os flashbacks que contam a história desses homens e desses adolescentes: a teimosia, a dignidade.

O relato tem materialidade: as garrafas de bebida gelada, as sucatas, as molas de um banco velho, a graxa de um motor, o ruído dos pratos em cima da mesa, o cheiro da pobreza no campo, a gordura, combustível queimado, calor, uma tempestade à noite, insetos, cães, pó e barro. Seguimos com atenção essas referências materiais como se elas tivessem a chave do que passou e do que poderá acontecer. Não têm, mas a escrita de Selva Almada apresenta essas sensações com significativo cuidado: são o que o corpo pode conhecer. Mais além, há outro mundo.

Sentimos a iminência. Algo pode acontecer, algo proibido, a ruptura de um limite, uma expectativa de desastre. Mas não é isso. A iminência é de outra natureza. E acontece algo no final. Não vou revelar. A trama não precisa desse tipo de suspense que se resolve como alguém que rompe uma corda esticada; no entanto é melhor chegar ao final sem conhecê-lo. Inquietude em meio à rotina e à calma, o romance de Almada tem essa expectativa que antecede as tempestades, sente-se a vibração de uma mudança na vida desses quatro que se encontraram no meio do Chaco. Algo vai acontecer, mas no fim não é o que os expectadores supúnhamos. A mudança, então, não é um simples salto de enredo, mas uma escolha bastante elaborada, muito secreta e, como acontece com os segredos, também muito evidente. Almada encaixa frases onde a chave pode ser encontrada. São os sermões, em itálico, que o reverendo já pregou alguma vez ou vai pregar em breve.

No meio do romance que, como afirmei, tem vários flashbacks, o reverendo recorda o momento iniciático de sua infância. A mãe, que não era crente, levou-o à margem do Paraná. Diante de uma multidão de desenganados e miseráveis, um homem surgiu das águas. No meio das pessoas em transe, sua mãe abriu caminho com o menino, ergueu-o e o lançou ao oficiante da cerimônia batismal: “o homem do rio o afundou nas águas sebentas do Paraná para devolvê-lo, purificado, às mãos de Deus”. O menino, que se tornará um reverendo, não apenas se aproximou de Cristo mas, da perspectiva de sua mãe, se colocou no caminho de uma vida melhor nesse mundo. O batismo evangélico é um caminho de elevação não apenas celestial.

No começo do romance aquele menino batizado no Paraná é um pregador, famoso na região. Ela domina a palavra; a força e a simplicidade de sua crença convencem os que o escutam. Salva almas, briga com o demônio. Por isso, não são intercalações menores as páginas em itálico. Ao contrário, são provas de um discurso que cumpre os objetivos e administra seus efeitos com clara eficácia. O romance precisa desses sermões. São a contrapartida em outro tom, com outra textura e outro léxico; trazem uma promessa de transcendência ao espaço de repetição e imanência onde se movem as personagens. O reverendo explica ao menino da oficina mecânica que o mundo terá um fim e apenas os “que se entregaram a Cristo” entrarão no Reino dos Céus, que também admitirá os cães (o menino pergunta e fica sossegado com a resposta generosa e esperta).

A promessa é benéfica. O mundo é tolerante, os abandonos são aceitos exatamente porque existe um fabuloso Além. Sem o fim do mundo, não se poderia erguer o magnífico edifício de fantasias religiosas em que mora o reverendo, que sua filha admira, e é até ele que caminha o filho de Brauer. Nos sermões do reverendo e nas conversas de catequese com o menino, anuncia-se um futuro que não se limita à pobre repetição do conhecido. Há um lugar de encantamento diurno e racional. O fanatismo é uma arma para a vida, uma ilusão diante de qualquer desastre.

O reverendo fala com vocábulos que habitualmente não figuram na ficção argentina; esse discurso de um iluminado por Cristo tem uma matéria específica. Seus atos também. Cristo e o demônio, a promessa de salvação, a certeza do fim dos tempos tecem uma prosa profética, à medida de seus ouvintes. Não é qualquer discurso, mas o de uma crença. Não se trata simplesmente de um tema, mas de que as palavras venham com os temas, como dimensões inseparáveis. O vento que arrasa é um romance contemporâneo que faz escolhas originais dentro da língua, sem grandes gestos nem anúncios, apenas porque está falando de outra coisa.

(tradução: Ricardo Lísias)

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O VENTO QUE ARRASA

Link para o livro: http://bit.ly/1h4W9OU

Autor: Selva Almada

Tradução: Samuel Titan Jr.

Editora: Cosac Naify

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