A literatura é...


Em 2013, um grupo de imigrantes abrigou-se em uma igreja católica no centro de Viena e pediu asilo político ao governo austríaco. Imediatamente apoiados por grupos de religiosos, artistas e intelectuais, acabaram protagonizando um debate sobre a presença de estrangeiros na Europa. Dando um curso na Universidade de Viena sobre literatura brasileira contemporânea (que virou na verdade uma discussão sobre o Brasil), cruzei com um grande número de pessoas vindas do Oriente Médio, algumas famílias da Chechênia, Rússia, Romênia e, em menor escala, africanos.

O que aparentemente causou controvérsia foi o pedido de asilo feito pelo grupo. No final, depois da enorme confusão, grande parte acabou tendo que voltar para o Paquistão e a Índia, países de origem, ou perdeu-se por aí. Elfriede Jelinek, que os apoiava e acha, como eu aliás, que as pessoas devem ter o direito de morar onde queiram, escreveu uma peça tratando do problema: Die Schutzbefohlenen, algo como Os protegidos, em tradução livre. Apesar do meu alemão absolutamente capenga, assisti a uma montagem no famoso Burgtheater em junho passado e posso dizer que foi uma das experiências estéticas mais marcantes da minha vida.

Antes da apresentação, um representante da Fundação Caritas, que apoia os refugiados no mundo inteiro, subiu ao palco e discretamente avisou que no final alguns voluntários aceitariam doações do público. O texto de Jelinek relê As suplicantes de Ésquilo, atualizando o coro para os nossos dias. Não vou me alongar resumindo a peça, até porque ela não é o objeto do meu texto, mas a intenção estética de Jelinek não era apenas evidente, como assumida inclusive nos folhetos que o público recebia: ela queria fazer as pessoas doarem dinheiro para ajudar os refugiados. Pela maneira como o espetáculo se desenvolve, na saída não vi ninguém deixando de doar alguma coisa. Algumas pessoas, visivelmente alteradas por causa do final da peça, deixavam notas de cem euros nos cofres que a Fundação Caritas passava pelas saídas. Um pouco mais modesto, doei o que tinha guardado para jantar. Tudo o que tinha no bolso...

Acabou de sair no Brasil uma HQ impressionante: Pílulas azuis. O autor, Frederik Peters, já era conhecido entre nós pela série aâma, uma distopia de contornos expressivos e cores fortes. Em um universo pós-catástrofe econômico-ambiental, o controle de uma grande empresa faz com que o ser humano destrua aos poucos não apenas a si mesmo, como os planetas a seu alcance.

Peters trabalha sobretudo com a expressividade facial de suas personagens. Em algumas páginas, praticamente todos os quadros colocam um rosto no centro:

Com a ponta grossa, o lápis de fato carrega nos contornos, trazendo o peso da situação para os olhos do leitor. Em Pílulas azuis, apesar da ausência da cor, o procedimento fica ainda mais intenso:

A questão do livro, a propósito, é forte: um quadrinista, Frederik Peters, é informado de que a garota por quem está apaixonado e também o filho dela são portadores do vírus da aids. Da crise da descoberta à acomodação o caminho é longo: consultas médicas, insônia, o desejo que não faz concessões e a crueldade da situação aparecem ao longo das páginas, sempre sem cores. No final, contas feitas e prevenções estabelecidas, os dois se casam, têm uma filha e a doença se torna apenas uma condição que terão que administrar, como as tantas que a vida exige.

No final do livro, Peters faz um post-scriptum dando voz à família. Aqui a fala da esposa:

Além de ajudar o autor a lidar com uma situação de grande stress, a HQ serve para explicar para o leitor a situação contemporânea dos portadores do vírus da aids.

Há algumas semanas, o Brasil viu um debate sobre “literatura feminista”. Um grupo não pequeno de escritores afastou de imediato a possibilidade de um texto literário existir independente do que seria a “estética”, a “imaginação”, o “sonho” etc. Literatura feminista, era a conclusão, seria de imediato fadada ao “fracasso artístico”.

Enfim, é a ideia de que alguém cria por “motivos estéticos”. Trata-se meramente de absurdo terminológico: um objeto artístico é produzido a partir da manipulação de um conjunto de procedimentos. Depois, o resultado final irá se inserir na sociedade de maneira indeterminada. Ou seja: a arte não se prende a nenhum propósito pré-definido: é impossível dizer o que pode dar certo e errado antes que o objeto esteja criado. Não dá, portanto, para afastar de seus domínios a intenção de intervenção, aliás muito comum na maioria das sociedades. Como nenhuma outra intenção...

Um texto escrito com propósitos políticos será muito provavelmente um fracasso estético porque a maioria absoluta dos textos serão fracassos estéticos, independentemente de sua temática. Uma minoria, porém, alcançará um alto nível de manipulação de linguagem, o que independe da temática. Um texto escrito para arrecadar fundos para a Fundação Caritas e outro para fazer seu autor se livrar de traumas afetivos e ao mesmo tempo divulgar a condição real dos portadores do vírus da aids podem ser grandes obras artísticas, como aliás é o caso de Die Schutzbefohlenen e Pílulas azuis.

Um panfleto político também pode ter enorme valor estético: os vários de Jonathan Swift são o exemplo mais óbvio. O Manifesto do Partido Comunista, do ótimo escritor Karl Marx, é outro. Existe portanto excelente literatura panfletária.

Dessa forma um texto feminista pode ser uma grande obra de arte. A probabilidade é que não seja, mas não por ser feminista, e sim porque fazer arte é bastante difícil e ela ocorre em momentos muito raros, mas algumas pessoas conseguem. O que importa perguntar é o seguinte: por que o establishment artístico brasileiro parece ter uma crise de nervos toda vez que a palavra “política” se aproxima de seus domínios?

A palavra “domínio” aqui não foi usada gratuitamente.

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Pílulas azuis

Frederik Peeters

Editora: Autêntica

Páginas: 208

Formato: 17 x 24 cm

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