Por que não ler Submissão, de Michel Houellebecq?

1.

O último livro de Michel Houellebecq é uma decepção. Ao menos para quem comprou o livro embalado pelos rumores extraliterários (o que não é de se estranhar em um mundo em que cada vez mais a cultura é embalada como um produto pelos departamentos de marketing das corporações editoriais, curadorias de museus etc).

Sobre os tais rumores, Houellebecq já havia dado declarações polêmicas sobre a fé islâmica e, como se sabe, nessa seara os comentários repercutem de forma radioativa. Quando foi anunciado que seu próximo livro tratava de uma França futura governada por um presidente muçulmano, o circo estava armado. Some-se a isso o fato capcioso de que na data prevista para o lançamento ocorreu o massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo. Portanto, Submissão, antes de ser lido catalisou uma série de tensões e ressentimentos que envolvem as relações perigosas entre Ocidente e Islã (ou ao menos como os extratos mais radicais capitaneiam a questão e amplificam tolas ideologias através da mídia sempre atenta para o espetáculo do grotesco).

2.

Sobre o livro em si, Submissão de forma alguma ofende o Islã. O livro roda em um registro frio. São poucas ações e também poucos personagens (exceto o protagonista, todos construídos de forma ligeira). Trata-se de obra sofisticadamente elaborada por um autor maduro.

O que de fato está em jogo no livro não é o Islamismo. Isso porque o Islã não é o tema central da obra. A saber, o tema é a decadência do Ocidente e todos os valores forjados com a emergência da modernidade (vários deles na própria França). A forma como Houellebecq nos conta isso é a do abandono e do desânimo. Ninguém luta contra o Islã ou por suas próprias convicções. Os tais valores ocidentais são simplesmente largados melancolicamente. O choque de civilizações está ausente do livro. A modernidade é vencida nas urnas. Rapidamente dois de seus pilares são solapados: a educação laica e a igualdade entre os gêneros. Mas o principal no livro não é o Islã destruindo esses pilares e sim a maneira como o protagonista (ironicamente batizado como François, ou seja, o tipo exemplar da cultura francesa) do romance reage: aceita, em troca de um alto salário, participar desse novo sistema de ensino e, por algum prazer carnal, da poligamia.

Houellebecq está puxando o tapete de seus compatriotas que esperavam um ataque duro ao Oriente.

A leitura do livro deixa claro que as ameaças de morte contra o autor, verdadeiras ou não, carregam um reflexo desse aparato de marketing cultural e não uma reação ao texto propriamente dito. Nesse caso o livro também decepciona supostos inimigos do Ocidente que aguardavam ansiosamente por uma ofensa ao seu profeta e à sua fé. Os jihadistas afinal também vêm se especializando em marketing e comunicação em redes sociais, filmando suas performances de museus destruídos e decapitações de prisioneiros.

3.

Qualquer livro que imagine o futuro é vinculado por certa crítica ligeira a 1984 e/ou a Admirável mundo novo. Com Submissão não foi diferente. Mas o livro de Houellebecq não tem nada a ver com esses outros dois. François andando pelas ruas de Paris, antes e depois das eleições, nos lembra o jovem Frédéric de A educação sentimental. Alheios aos acontecimentos dramáticos que vão acompanhando, ensimesmados em seus próprios problemas (ambos buscam um sentido para a vida adulta), pouco lhes importa para onde a história se move. Tanto o livro de Houellebecq como o de Flaubert são livros que negam a ação. Outra conexão literária possível para esse inverno da modernidade da qual trata Submissão, está em T. S. Eliot: "É assim que acaba o mundo / não com um estrondo / mas com um gemido".

O livro de Houellebecq não está interessado no futuro, mas sim no presente.

4.

Lembrando agora que Barthes salientou a importância do detalhe na obra literária para a criação do que ele chamou de "O efeito de real", há um sutil lance de gênio no livro. O protagonista por diversas vezes esquenta suas refeições no micro-ondas (detalhe que gera identificação por ser corriqueiro na vida dos leitores). Se a modernidade deve muito aos franceses, a culinária também: trata-se de uma espécie de orgulho nacional. No cardápio do Francês: Chicken Biryani, Chicken Tikka Masala, Chicken Rogan Josh, uma seleção de pratos indianos, moussaka berbère, tarama, homus, blinis. Nunca um prato local. Quando recebe uma jovem amante, surge a ideia de pedir sushi por telefone. O detalhe é verossímil e mostra com boa dose de ironia a derrocada final da modernidade: se o coração e a mente dos ocidentais já haviam desistido daquelas velhas bandeiras iluministas e já estavam em outro local, com Submissão o estômago também diz adeus ao Ocidente.

5.

Nesta nossa sociedade do espetáculo em que só tem valor aquilo que diverte ou escandaliza, o livro de Michel Houellebecq, pelos motivos apontados nesta resenha, se coloca como objeto privilegiado para estudos culturais. Entendido portanto em toda sua complexidade literária e extraliterária, talvez o aparato publicitário tenha (paradoxalmente) acertado ao elegê-lo “O livro mais polêmico do ano”.

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Submissão

Michel Houellebecq

Tradução: Rosa Freire d'Aguiar

Editora: Alfaguara

265 páginas

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