Maurício Santana Dias fala de Pasolini e Pavese


Denise Bottmann: Me diga, Maurício, de onde é que veio essa ideia fantástica da antologia de poemas do Pasolini que a Cosac publicou?

Maurício Santana Dias: A ideia surgiu a partir de conversas com Alfonso Berardinelli e Maria Betânia Amoroso. Nós três já tínhamos participado de um projeto para a Cosac Naify em 2006 que resultou no livro Da poesia à prosa, de Berardinelli, organizado pela Betânia e traduzido por mim. Na época, comentei com Alfonso e Betânia que eu estava tentando fazer uma grande antologia de poetas italianos do século XX. Acho que a partir daí Alfonso me propôs: e se fizéssemos uma antologia de poemas de Pasolini? A Cosac imediatamente encampou a ideia, que ainda teve o apoio do Istituto Italiano de SP. Eu já tinha traduzido uns oito ou dez poemas de Pasolini para aquele projeto mais amplo, e pensei que seria oportuno, sobretudo neste momento de intenso debate político no Brasil, apresentar ao leitor brasileiro um condensado da excepcional poesia pasoliniana, que até hoje só havia circulado esporadicamente em revistas ou jornais. Então, espero que esse livro tenha também um caráter de intervenção no debate público, embora Pasolini vá muito além dessa questão.

E como foi que você chegou a essa seleção específica?

Inicialmente Alfonso me apresentou uma lista de poemas, eu li, pensei nas possibilidades de tradução e recepção no contexto brasileiro, e propus acréscimos e supressões àquele corpus inicial, sempre discutindo as decisões com Alfonso. No final chegamos aos 46 textos que integram o volume. Digo textos porque a antologia começa com os primeiríssimos poemas de Pasolini, escritos em dialeto friulano em 1941, num lirismo que poderíamos ainda chamar de “tradicional”, passa por uma série de transformações nas três décadas seguintes e chega aos ensaios ritmados dos Escritos corsários e do póstumo Empirismo herético, quando Pasolini já não fazia mais nenhuma distinção entre poesia e prosa. O que havia, ao final, era um todo poético: os poemas, o cinema de poesia, os ensaios ritmados e visuais, os movimentos de idas e vindas na cena pública. É claro que muita coisa excelente acabou ficando de fora, a obra poética de Pasolini é muito vasta, talvez até vasta demais. Mas eu diria que Pasolini é sobretudo um poeta, como ele mesmo gostava de se definir, um poeta dramático, do teatro de ideias.

Um grande crítico, poeta e tradutor italiano, Giovanni Raboni, disse certa vez que Pasolini era mais poeta quando não fazia poesia. O mesmo Raboni também disse que os poemas de Pasolini tinham um alto grau de traduzibilidade, já que, segundo ele, sendo Pasolini “um intelectual de notório engajamento político e vocação pedagógica”, sua poesia seria necessariamente “menos polissêmica, menos ambígua, mais ‘literal’”. Você, não só como conhecedor, mas também como tradutor de Pasolini, subscreve essa avaliação?

Com todo o respeito a Raboni, de quem aliás já traduzi alguns poemas para aquela outra antologia ainda em curso, me parece que ele lê Pasolini de uma perspectiva ao mesmo tempo formalista (sua suposta escassez de metáforas, a “pouca” ambiguidade da linguagem poética, o aspecto prosaico, imediato e direto) e essencialista (“o discurso poético é, por natureza, essencialmente polissêmico”, diz ele a certa altura no mesmo artigo que você cita), e de uma perspectiva entranhadamente italiana, que não consegue nem é capaz de ver a poesia pasoliniana de fora.

Bem, uma das grandes dificuldades em traduzir Pasolini está justamente no aspecto onívoro de sua obra, que experimentou todas as formas, pôs à prova todo um universo de ideias, foi ostensivamente contraditório e, ao mesmo tempo, com uma coerência de fundo que o transformou na figura mais controversa da cultura italiana, senão europeia, da segunda metade do século XX. Enfim, o tradutor de Pasolini se depara com uma verdadeira montanha, um Everest, de formas e ideias para as quais ele precisa encontrar soluções igualmente complexas em sua língua, e isso não é nada simples. De resto, ao contrário do que diz Raboni, em Pasolini o engajamento político não produz uma obra menos ambígua ou polissêmica, longe disso.

Outro poeta italiano que você traduziu com grande intensidade foi Cesare Pavese, no volume Trabalhar cansa que saiu também pela Cosac uns anos atrás, 2009, não foi? Você encontra paralelos, vê aproximações possíveis entre Pavese e Pasolini?

Afora o aspecto narrativo e a presença de temas comuns a ambos, que são aspectos que podemos considerar epidérmicos, Pavese e Pasolini tinham poéticas fundamentalmente diferentes, eu diria até antagônicas. Pavese era o poeta do controle absoluto da palavra e do verso, que trabalhava com discrição, selecionando, excluindo, desbastando e repetindo exaustivamente seu repertório numa mesma cadência, como se tentasse dar a uma realidade caótica o sentido de um estilo. A propósito, ele chegou a escrever um ensaio, em 1949, intitulado “Narrar é monótono”, em que buscava aproximar a literatura – e a poesia em particular – do mito, entendido em sua acepção antropológica e quase etimológica como uma narrativa mínima, baseada num conjunto restrito de ações e procedimentos, que busca oferecer uma explicação do mundo. Daí as repetições de temas, procedimentos formais e sobretudo de ritmo que se veem na poética de Pavese, que naquele mesmo ensaio aproximava a escrita dos versos às braçadas contínuas de um nadador.

Já Pasolini entendia o mito em sentido mais metafórico, como o tempo anterior à “queda” das sociedades modernas, burguesas, industriais. O mito como uma espécie de reserva não contaminada a partir da qual fosse possível regenerar um mundo degradado e destinado à destruição. Isso dito em termos muito gerais. Então, ao contrário de Pavese, Pasolini (o poeta da “vitalidade desesperada”) vai proceder por inclusão, acréscimo, acúmulo, apresentando uma enorme variedade de temas e procedimentos formais e, ao final, ultrapassando a própria distinção entre poesia e prosa. Foi até por isso que decidimos, na antologia Poemas, avançar até os textos em prosa ritmada dos anos 1970-75, incluindo alguns que, na organização da obra completa de Pasolini feita por Walter Siti para a Mondadori, não fazem parte de Tutte le poesie, mas dos Saggi. Esta me parece uma das novidades desta antologia brasileira, condizente com o próprio pensamento de Pasolini.

Fascinante, isso. Daria para você explorar um pouco mais essas diferenças na poética de ambos – por exemplo, na questão do ritmo que você mencionou rapidamente, o que te parece mais marcante?

Veja você: Pavese escreve Trabalhar cansa ao longo de dez anos, entre 1930 e 1940, um livro inteiro construído em torno de poucos temas e de um só ritmo: o anapesto grego, pé de duas sílabas fracas seguidas de uma forte. Vale lembrar que, além da literatura de língua inglesa, Pavese também traduziu os gregos, a Teogonia de Hesíodo, três hinos homéricos...

Ah, é mesmo?

Sim, sim, e note-se que ele fez uma mistura peculiaríssima do sistema silábico moderno e do antigo sistema quantitativo.

Já Pasolini se permitiu muito mais liberdades, fazendo, entre outras coisas, um uso heterodoxo do principal verso italiano (o endecassilabo, que corresponde ao nosso decassílabo), que às vezes se comporta de maneira tradicional, noutras, aparece acrescido ou reduzido de uma ou mais sílabas, com os ictos recaindo em variadas posições.

O resultado disso é que, enquanto Pavese parece caminhar em seus versos, Pasolini dá quase sempre a impressão de estar correndo, como se o próprio pensamento se antecipasse à escrita do texto.

Evidentemente, o tradutor também precisa caminhar ou correr segundo o andamento que os versos lhe impõem, já que o ritmo é um dos elementos centrais de qualquer poesia – e não só de poesia.

Henri Meschonnic costumava dizer que “o modo de significar, muito mais que no sentido das palavras, está no ritmo, assim como a linguagem está no corpo, e por isso traduzir passa por uma escuta do contínuo”. Acho que podemos dizer que o próprio ritmo já constitui e informa em grande parte o sentido do poema, e replicar esse ritmo (uso “replicar”, aqui, em suas duas acepções: fazer de novo e responder ao texto de partida) foi uma das minhas preocupações nos Poemas, até para que o sentido pudesse se dar a ver em toda sua complexidade.

(Entrevista dada a Denise Bottmann, setembro de 2015.)

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Poesia de Pier Paolo Pasolini​

Autor: Pier Paolo Pasolini

Organização: Maurício Santana Dias

Tradução: Maurício Santana Dias

Posfácio: Maria Betânia Amoroso

Introdução: Alfonso Berardinelli

Editora: Cosacnaify

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