(super)Mercado Frankfurt I – chegada


12 de outubro de 2015, Wiesbaden, Alemanha, quase meia noite.

Quando soube que eu viria participar de alguns eventos da Feira do Livro de Frankfurt, o Tiago, meu colega editor da Peixe-elétrico, sugeriu-me escrever um diário. Enfim, não gosto de diários e até ontem no avião eu pretendia enrolá-lo. Topei, mas logo depois me arrependi e então minha ideia era dizer que com tanta coisa para fazer, ver e sobretudo ler não dá tempo. Ele compreende.

Duas coisas me deixaram com vontade de escrever: não um diário, mas uma delas quase um desabafo. Embarcamos em São Paulo às 18 horas Cide Piquet, Fernando Bonassi, Luis Krausz e eu no mesmo voo. Estou em uma sequência de hotéis torturante. Depois de Rosário, passei uma semana com a minha família em Buenos Aires. Saí da Argentina às 6 horas da manhã de ontem, dia 11. Como não daria tempo de voltar para casa, fiquei no aeroporto e passei algumas horas no tal Fastsleep. É um cubículo com uma pequena cama e a possibilidade de tomar banho no corredor ao lado, entre um avião e outro. Se na Argentina tudo não tivesse sido tão bom, acho que eu teria desistido de Frankfurt.

Aqui na Alemanha, depois de carimbarem o passaporte, passamos pelos olhos de dois policiais claramente identificados, mas sem armas à mostra. Cide e Luis foram direto e Bonassi atravessou logo atrás. Eu nem olhei para os guardas, mas ouvi a voz de um deles me chamando e parei. English, sr.? Fui o único do grupo brasileiro para quem ele fez algumas perguntas. Ele devia ter parado todo mundo: o Luis, o Cide e o Bonassi! Aliás, o avião inteiro ou ninguém...

Fiquei bastante incomodado, sobretudo ao me lembrar do que ouvi há uns 15 anos em um aeroporto secundário de Berlim, chegando em um voo barato da Hungria. Você é jovem, homem, sozinho e vem de um país pobre, por que não ficaria aqui? No trem me lembrei da frase escrita com letras enormes no aeroporto de Sydney, na Austrália: better to come here is to born here. Algo assim.

No jantar, uma das guias que está acompanhando o grupo brasileiro me perguntou o que chega ao Brasil sobre a recepção que os alemães estão dando aos refugiados do Oriente Médio. Contei que vi na televisão a emocionante chegada de alguns trens e o jeito com que a população foi recebê-los, com doces e tudo. A Alemanha parece determinada a ajudá-los, com o apoio de sua população.

Essa é só uma parte da história, ela respondeu. Já colocaram fogo em lugares onde alguns refugiados estão e há vários casos de agressão. Existe um movimento racista muito forte aqui na Alemanha, acrescentou quando perguntei da natureza muito conservadora de certa parcela do país. Conservador é muito pouco, ela enfatizou.

O tratamento que o pequeno grupo de brasileiros (há outros, claro: estou entre os 7 convidados pelo governo alemão) está recebendo é excelente. Tudo parece muito organizado, as pessoas são gentis e o chocolate com que o Instituto Goethe nos recepcionou é ótimo. Mesmo assim, depois de uma semana com a minha namorada e o meu filho em Buenos Aires, sinto uma enorme saudade.

Na foto, a janela do meu quarto: estamos em uma cidade muito antiga ao lado de Frankfurt. Boa noite a nós tudo. Finalmente vou dormir uma noite inteira de novo.

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