super(Mercado) Frankfurt III – negociações


14 de outubro de 2015, por volta de 14 horas, Feira do Livro de Frankfurt, Pavilhão 4

Estou sentado em um dos tantos pontos de wifi da feira. É o terceiro onde paro, nenhum funciona. Estou incomodado com a linguagem dessa sequência de relatos: não é a que eu mais gosto. Um exemplo é a frase anterior: em condições normais eu jamais escreveria que posso gostar de algum tipo de linguagem. Já acumular duas estruturas com dois pontos em seguida para incomodar e depois reclamar da linguagem é um recurso que reconheço como um pouco mais íntimo. Enfileirar as palavras “duas” e “dois”, também.

Acabei de assistir a uma negociação típica entre duas editoras aqui na feira. Cruzei com uma amiga em um dos corredores. Ela caminhava esbaforida com um caderno de apontamentos enorme e tinha que chegar em cinco minutos a um estande. Para conversarmos, pediu para eu ir acompanhando-a no corredor. Quando disse que gostaria de ver como funciona uma conversa, ela me convidou para assistir.

A editora chega e se apresenta. Uma recepcionista a conduz a um sofá de espera. Quando a conversa anterior do anfitrião termina, ela vai a uma mesinha. Há várias, uma ao lado da outra. Com um iPad a pessoa interessada em vender seleciona alguns títulos e os apresenta em mais ou menos cinco frases e algumas impressões. Pode ser que a capa esteja à mostra. O interesse aparece ou não. Se houver, a possível compradora anota alguns dados e depois vai receber um PDF com o texto completo ou um trecho em inglês.

A conversa dura um pouco menos de meia hora. Os editores fazem por volta de 15 reuniões por dia. No final, estão abatidos e muito cansados. Cruzei com uns 10 editores brasileiros na saída da feira ontem. Estavam brancos e tive a impressão de que alguns haviam emagrecido um pouco.

Com esse formato de negociação (que, atenção, disseram-me não ser o único), só é possível falar do romance tradicional, aquele que permite ser resumido. Evidentemente não há tempo e muito menos condições para conversar sobre tensão formal, dificuldades da linguagem, enfrentamento político, especificidade cultural e literatura desestabilizadora. Fala-se apenas do enredo.

Sem grandes rodeios: aqui no centro financeiro da Europa, em um lugar onde há uma estátua enorme do símbolo do dinheiro (que mostrou, por exemplo, o que a Grécia deveria fazer com as próprias esperanças), está a explicação de por que até hoje se cultiva com tanto ardor, e uma ou outra tentativa de maquiagem, o velho, ultrapassado e novecentista modelo de prosa de ficção. Ele é o único que se adéqua às possibilidades de negociação do mercado.

Vou andar um pouco mais. Boa tarde, para vocês deve ser de manhã aí no Brasil. Comprem meus livros!

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