Algum lugar depois do desastre


Há quase dez anos, mais exatamente em 2006, o poeta Ronald Polito publicou Terminal e praticamente não voltou a dar notícia sobre seus poemas – digo praticamente porque Polito chegou a publicar também, em 2013, um livro de poesia infantil, mas com projeto bem distinto. Aquele livro se encerrava com um poema eloquente e definitivo, espécie de diálogo com o “pós-tudo” de Augusto de Campos, já que falava de um tempo em que “tudo desapareceu” e que, mesmo assim, ainda ficou “faltando esquecer/ tudo” – além de, “sobretudo,/ nunca mais nem se lembrar/ que esqueceu”.

Agora, no entanto, o poeta volta a apresentar aos seus leitores uma nova coleção de poemas, Ao abrigo (Scriptum, 2015), que deve ser lido, necessariamente, como uma continuação de Terminal, consolidando um lugar único de Polito na poesia brasileira. Isso porque a paisagem desses novos poemas, em conjunto, poderia ser imaginada como uma “wasteland”, ou seja, um deserto ou quem sabe um grande lixão, pois o livro trata de uma vida póstuma, “aqui de dentro/ da pós-morte/ o tempo depois do tempo/ este além sem suplemento/ o adiante redundante” – ou ainda, para usar uma das imagens do poema “Indisciplina”: “Agora já é depois do pesadelo”, e sendo assim “O pássaro de pedra está parado”.

Tal cenário desconjuntado, por um lado, se reflete na própria escrita de Polito, na maneira como os versos, quase sempre reduzidos a cacos, são empilhados um no outro, associados em uma sintaxe também caótica ou ainda em uma justaposição de frases que quase não dialogam entre si. A rigor, os poemas são mesmo pilhagens, tanto por possuírem um sentido forte de devastação quanto também pela quantidade de referências submersas, que vão desde Beckett, Eliot e Drummond até citações bíblicas, parábolas, como no poema que abre o livro: “O quanto para abrir o mar vermelho/ Quando se movimenta uma montanha. Como um pássaro que não pousa nunca mais (...)”.

É bastante provável que Polito tenha passado todos esses anos se perguntando sobre a natureza de uma condição póstuma da vida, e os poemas que agora podemos ler não apenas se dedicam a descrever um cenário cáustico e árido, “um deserto sem desertos”, mas também – e este é o movimento mais difícil do livro, além de uma novidade na poesia do autor – procuram imaginar um lugar que, mesmo “No coração da bomba”, ainda sirva de abrigo. É por isso que, em meio a orações, os poemas vislumbram este estranho lugar que é sugerido ora como “Um trampolim na escuridão”, ora como um destino “Depois da nuvem, nuvem/ Mergulho para o céu”, ou finalmente como um lugar “além do salto”.

O livro abre com o poema “Orações” e termina com “Oração”, em um discurso religioso que é também uma novidade em toda a poesia de Polito e segue definindo outros textos ao longo do livro, como é o caso também de “Discurso com orações” e “Um deus” – dois dos poemas mais fortes do volume. No caso desse último, trata-se de uma interpelação dirigida justamente a “um deus”, para quem o poema se refere por meio de súplicas, pedidos humildes e também aflitos: “dê-me um minuto/ um cajado/ um rosto/ rotinas para retinas já/ então fustigadas/ uma cama um dorso/ dê-me uma foice/ o último terremoto/ um touro/ o protonauta de neverland/ dê-me um sopro”.

“Ao abrigo”, na verdade, não é exatamente a imaginação de um lugar, e sim um caminho, alguma direção, como já indica o próprio título. Obviamente, trata-se de um caminho também sem paz, talvez sem salvação, onde “deus está descansando” – apesar das súplicas – e o que se vê à frente é viscoso, engodo: “O visto, um visco”. Outra característica desse caminho consiste em sua circularidade, que está indicada de várias maneiras, seja pelas imagens do poema “Novo mundo”, ao descrever um “Rio que deságua em si,/ Cometa que alcança a cauda”, ou mesmo pela estrutura do livro, que inicia com uma oração e termina com outra, talvez a mesma, sugerindo assim uma espécie de murmurar incessante, uma ladainha.

Os últimos poemas, ao contrário dos primeiros, no entanto, chamam atenção pelas imagens leves, transparentes, imateriais – um sopro, uma pluma, poeira, movimento de asa, uma oração abstrata – e assim esboçam outra dimensão desse abrigo: ele está além do salto, já que o próprio horizonte é também abismo, cadeia, limite, laço... Daí o desejo de desmontá-lo, ao menos uma vez, conforme o poema “Mas”: “talvez o que/ pudesse acontecer ao/ menos uma vez/ seria o/ desmonte do horizonte/ como que um adiante não/ mais distante/ ou algum ensejo sem desejo (...)”. O desafio é grandioso, como está claro, e por isso mesmo repleto de acidentes, inconsistências, estragos e derrotas.

E na última página do livro, finalmente, vemos a impressão de uma escultura de 1x7cm, com grafites de 0,7mm, feita minuciosamente pelo próprio poeta, que possui, aliás, uma coleção delas: é uma casinha bastante precária, que projeta ainda uma pequena sombra na página. Eis aí uma última sugestão interpretativa da noção central do livro, a de abrigo: trata-se de um mundo infra-leve. O abrigo, dessa maneira, seguindo a sugestão da arte de Duchamp, é mais que leve, quer dizer, é a presença de algo que já não existe, e que – no entanto – permanece “por um instante (perpétuo)/ de aparição”, segundo a última oração do livro. Enfim, o abrigo não tem nome. Como "um vulto de mundo", ele é justamente "a transparência que arrepanha/ figura e fundo".

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Ao abrigo

Ronald Polito

Editora Scriptum

Assista aqui entrevista com o autor

Victor da Rosa é crítico e doutor em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vive em Belo Horizonte.

Imagem: Mira Schendel

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