A fascinante história da vida de Leonardo Gandolfi


(...) a poesia já era.

Alberto Pucheu

O poema que abre Escala Richter, livro recém-lançado de Leonardo Gandolfi, já oferece algumas pistas do que podemos esperar de todo o volume: primeiro, certo rebaixamento da poesia, por meio não só do tom singelo da narrativa, mas também de uma alusão reverente à televisão, mais exatamente ao Discovery Channel; referência que é logo misturada a um caco de cultura erudita, pois a personagem feminina do poema chama-se Isolda, provavelmente aludindo àquela lendária amante de Tristão; e por fim um personagem passivo e por isso mesmo hilariante, talvez um pouco bobo também, ou seja, o oposto de um cavaleiro medieval, que bebe cafés com muito açúcar (quatro sachês foram abertos no poema) enquanto espera Isolda voltar – ela foi comprar sandálias novas, já que as suas arrebentaram caminhando pelas ladeiras de Ouro Preto.

Cinco ou seis minutos de espera

a contragosto, o tempo médio

para alguém perder a paciência

aprendi isso no Discovery Channel.

Faz meia hora, aguardo Isolda voltar

foi comprar uma sandália, com tanta ladeira

a dela arrebentou. Estou sentado aqui

sete mesas, todas ocupadas, falam alto.

O meu segundo café, o terceiro eu ainda

nem pedi, mas depois de dois goles

um fim terrível o aguarda. Ao meu lado

cinco sachês, todos de açúcar, quatro

deles abertos. Vou abrir o quinto agora.

Merda, derrubei o café na minha calça.

Quanto à descompostura do último verso, como o leitor irá saber, ela praticamente retorna no poema que encerra o livro, quando o narrador mais uma vez lamenta uma série de mal-entendidos com um taxista tão perdido quanto ele, além de um pouco cego e surdo também: “(...) Mas, com a certeza/ covarde de que ele nada ouviria, digo – merda./ E é assim que finalmente me vem a sensação/ de que, como diria Augusto de Campos, tudo está dito.” Se no poema que abre o livro este personagem está esperando Isolda, no último ele está indo embora: “(...) bebíamos juntos ouvíamos música juntos dormíamos/ juntos e até 10 minutos atrás morávamos juntos.” Em ambos os poemas, no entanto, e esta não deixa de ser uma das marcas do livro, o narrador parece não ter nada muito importante a dizer.

Escala Richter chama a atenção também por se assemelhar a um relato: todos os poemas parece que são ditos pela mesma voz, por este mesmo personagem que nos últimos versos do livro – momentos antes de mandar o taxista à merda – se refere a si próprio como Leonardo. Em resenha sobre o livro, publicada no jornal O Estado de São Paulo, Sérgio Medeiros descreveu este personagem como um “artista em crescimento, da infância à maturidade”, e dizendo assim parece uma narrativa linear, ou então um retrato, mas não: o que temos são pedaços soltos de suas memórias de infância, que vão das histórias do pai até figuras típicas da cultura de massa, a exemplo do monstro do Lago Ness e dos Trapalhões; assim como pequenos dramas da idade adulta, como é o caso dos “dois quilos a mais/ do nosso protagonista”.

A narração, sendo assim, é fortemente marcada não apenas pela falta de comunicação, mas também de sensibilidade, como se o sujeito estivesse anestesiado, tomado por um verdadeiro torpor. A condição turística da primeira parte do livro, além do título que leva, “Insert Coin” – termo que lembra os jogos de fliperama, que seria só mais uma das tantas alusões do poema à cultura massiva da década de 1980 –, condiz perfeitamente com tal interpretação: diante dos diversos monumentos da cidade de Mariana, entre igrejas e obras de arte, nosso personagem não dá nenhum sinal de contemplação estética ou de qualquer sensação de pertencimento; antes, se atém em ninharias, como na barriga “nababesca” de outro turista ou em “quem dorme com quem” na conversa da mesa ao lado, afinal “o diabo é o detalhe”.

Os poemas são narrados todos no tempo presente, em uma rapidez que lembra programas televisivos, como se fossem pequenas anotações, já que o personagem não possui, ao que parece, um passado que dê tanto sentido assim a sua vida. Aliás, muito menos um futuro. Por isso, ao terminar o livro, o leitor pode ter a impressão de que o relato se consome nele próprio, e não se trata apenas de um efeito, e sim da concepção em torno da qual este Escala Richter se organiza. Em certo momento, o personagem mesmo diz que não possui passado, como acontece também com os replicantes de Blade Runner, buscando “a fascinante história da sua vida” em fotografias alheias, em um “outdoor imaginário” ou mesmo em uma moeda que ganhou do seu pai durante a infância – a “moeda da sorte”, uma edição comemorativa de 15 anos dos Trapalhões, que é dramaticamente perdida no penúltimo poema de “Insert Coin”.

Ainda a esse respeito, tenho a impressão de que o personagem, ao olhar para trás ou mesmo em volta, visualiza um grande cemitério, sendo a morte um dos principais assuntos da poesia de Gandolfi, já que em vários momentos do livro ele se dedica a catalogar defuntos, em um catálogo que inclui, curiosamente, o cantor Roberto Carlos, uma de suas obsessões: “(...) isto é só uma versão, a mais recente,/ do jogo de sete erros que dedico/ e ofereço aos meus defuntos prediletos/ Roberto Carlos e Manuel Bandeira”. De qualquer maneira, como quase tudo neste livro, a morte também parece ser tratada como efeméride, sem qualquer ênfase e sem “penúria”, a exemplo do poema que abre a seção “Kansas”, que é – segundo pesquisei na internet – o nome de um dos estados americanos mais atingido por tornados.

Uma hora antes do seu enterro

estou em casa escolhendo que calça vestir.

A casa onde moro há 28 anos

e de onde sairei daqui a seis meses.

Abro um pacote de biscoito recheado

não serão de penúria os meus passos

até o ponto de ônibus. É verdade

estou ficando gordo. Troco a calça

amarro o tênis. Este pacote o último

minha primeira homenagem póstuma a você.

Pádua Fernandes, em outra resenha sobre o livro, dessa vez publicada em seu blog, sugere que a moeda do poema “sofre diversos giros ao ser lançada”. Na minha opinião, trata-se de uma excelente imagem para interpretar não apenas os poemas iniciais, mas toda a dinâmica do livro, já que não podemos saber de qual lado a moeda vai cair. E nem faria diferença... Da mesma forma, o personagem, ao entrar em um táxi conduzido por um sujeito que sequer possui as habilidades que deveria ter, apenas com uma bagagem de mão que contém “5 pares de meia/ 3 calças jeans 2 bermudas 19 cuecas/ 11 camisas 2 livros 1 desodorante”, não sabe muita coisa sobre o seu destino. Sabe apenas que o “caminho é longo”, e “não vai sair barato/ sob nenhum ponto de vista”.

***

Escala Richter

Leonardo Gandolfi

Editora: 7Letras

Ano: 2015

Victor da Rosa é crítico e doutor em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vive em Belo Horizonte.

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