O Sentido Morto


"É, digamos, um ensaio."

O Pai Morto, de Donald Barthelme.

Rocco, 2015. Tradução: Daniel Pellizzari.

O Pai Morto, do norte-americano Donald Barthelme, traduzido para o português com 40 anos de atraso, é ainda assim um livro que fala ao presente.

Perturbador, enigmático, algo cansativo pelo abuso de recursos formais fragmentários - que no fim se justificam, como veremos –, o livro lida com os dilemas deixados à forma do romance pela trilogia beckettiana.

Como observou em resenha sobre o livro Schneider Carpeggiani, O Pai Morto a que se refere o título é um substantivo. Portanto, nesse livro de difícil captura, nem mesmo o título é o que parece ser em um primeiro olhar.

O enredo trata de um cortejo fúnebre que dura dias para o sepultamento daquele que já foi poderoso e cruel, mas hoje é apenas tolo, porém ainda assim monstruoso e enigmático: O Pai Morto.

Há mais quatro personagens, importando apenas dois de fato: Thomas e Julie. Um casal de amantes que coordena o périplo e interage com o Pai Morto.

O Pai é pai de todos e de ninguém. Sobre Thomas e Julie tampouco sabemos algo sobre suas vidas pregressas. O local é indefinido e certo clima onírico nos leva, em um primeiro momento, a pensar o livro como certa alegoria freudiana. E isso pode ser irritante para quem já pulou do trem da psicanálise que dava sentido a tudo: para a minha e para a sua vida, para o mundo e para todo e qualquer objeto estético (o mesmo vale para outra importante religião de muito sucesso no século XX, o marxismo. Sto. Karl Popper, orai por nós!).

O livro é construído em capítulos curtos que variam muito na forma entre si: diálogos (sem aspas e travessões e, portanto, com alguma confusão de vozes); ações descritas cinematograficamente quadro a quadro; algo que se aproxima da prosa poética e nos deixa em dúvida se são diálogos (também sem aspas e travessões e em alguns poucos momentos com pergunta e resposta); fluxo de pensamento ou puro exercício formal digressivo; nonsense e humor negro atingindo alto grau de lirismo em curtos parágrafos.

O objetivo aqui não é procurar fechar o entendimento sobre o livro – mesmo porque é uma obra bastante aberta – mas apenas deixar uma proposta de leitura e, se possível, instigar o leitor desta resenha a enfrentar o livro e encontrar seu próprio caminho.

Voltando à alegoria freudiana, percebi reflexivamente que essa ideia me assombrava durante a leitura justamente porque Freud forjou nossa principal forma (gramatical e sintática) de pensar nossas emoções e relações. Mas então esse estranho objeto estético que eu tinha em mãos era apenas a confirmação de que estamos aprisionados por esse grande projeto teórico do século XX? Procurava apenas provar o que já sabemos ou, ao menos, desconfiamos?

Sim. E não. Ou melhor, sim, mas há caminhos para escapar.

A chave estaria principalmente nos capítulos mais heterodoxos do livro. Aqueles que mais se aproximam do fluxo da consciência. Mas o golpe na psicanálise acontece quando tentamos dar um (novo? algum?) sentido a esse fluxo: é impossível. O leitor-crítico-psicanalista aqui deve assumir seu fracasso ou seguir firme apenas amarrando a narrativa mais ampla do livro ao arcabouço teórico (Não é essa ainda hoje a estratégia de muitos críticos? O que não cabe na minha teoria predileta, eu deixo de fora...) e deixando de lado as malucas taxonomias cheias de humor nonsense e fúria. Ou passagens carregadas de beleza-violência como esta (que segue assim por várias páginas):

Ele não tem má aparência.

A rena, cara, e uns flocos de neve também.

Arranca um pouco de carne do próprio peito e coloca dentro de um pão.

Comigo você está a salvo.

Se é nisso que você acredita, está enganado.

Barthelme escreve o livro durante a década de 1970 nos Estados Unidos, ou seja, na nova meca da psicanálise, e é contra essa teoria que ele abre fogo de forma velada, sofisticada e algo reverente.

O autor, ao enterrar o Pai Morto, nos sugere o enterro de outro Pai: as grandes teorias – confortavelmente opressoras – que nos dão sentido.

Barthelme se espantaria tanto quanto a capa da Time de 1993: "Is freud dead?". Ao que tudo indica, 40 anos depois de O Pai Morto, ainda não.

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