Derrida, um egípcio


Dono de uma voz criativa e vigorosa, Evando Nascimento transita muito bem entre a prosa de ficção e o ensaio. Não quero dizer com isso que ele faça uma “ficção de tese” ou que escreva ensaios em que a invenção se confunde com a argumentação e o encadeamento lógico dos raciocínios. Ele compreende tanto a particularidade dos gêneros como a fragilidade das fronteiras – o que por si só o coloca em um lugar de destaque no panorama do Brasil contemporâneo. Além disso, foi aluno destacado de Jacques Derrida, tendo sido responsável pela última apresentação pública do grande filósofo franco-argelino.

Como tudo o que diz respeito a Derrida me encanta e me parece misterioso, acompanho o trabalho dele há bastante tempo. Por isso, enquanto imaginava como a Peixe-elétrico poderia começar a discutir a obra de Peter Sloterdijk nesse ano em que finalmente as Esferas devem ser lançadas no Brasil, logo me lembrei dele por causa do encantador Derrida, um egípcio.

Com a entrevista a seguir, então, lançamos a ideia de analisar com um pouco mais de cuidado a obra de Sloterdijk, sem claro, perder Derrida de vista. Os dois estarão nas próximas edições da Peixe-elétrico de várias maneiras diferentes.

Ricardo Lísias

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PEIXE-ELÉTRICO Logo no começo do livro, Peter Sloterdijk lembra-se de uma declaração bastante eloquente de Jacques Derrida: “(...) a afirmação de ter duas convicções totalmente opostas a respeito da ‘existência’ póstuma: por um lado, a certeza de que seria esquecido a partir do dia de sua morte; por outro, a de que a memória cultural conservaria, apesar de tudo, alguma coisa de sua obra”.

A primeira convicção, obviamente, não se confirmou: Derrida parece ser a cada dia mais conhecido. Com relação à segunda, o que você acha que a memória cultural melhor conservou da obra de Jacques Derrida?

EVANDO NASCIMENTO Creio que qualquer pensador, qualquer escritor, qualquer artista teria ou tem a mesma dúvida de Derrida. Por mais que uma obra seja conhecida e tenha importância em sua época, nada garante que ela resistirá à chamada prova do tempo. A história da cultura está repleta de pensadores, ficcionistas, poetas, pintores de grande sucesso em determinado momento e que depois desaparecem, caindo em total esquecimento. Isso não impede, é claro, que mais tarde voltem a ser lembrados, lidos, admirados, discutidos etc.

Derrida radicalizou um pouco essa situação, dramatizando a possibilidade de total ostracismo ou de plena continuidade após sua morte. Quando deu essa declaração numa entrevista ao Le Monde, ele já estava bastante debilitado e sabia que tinha poucas chances de sobreviver à doença que poucos meses depois o levou.

Sim, sem dúvida sua obra continua sendo lida e discutida em vários países no mundo inteiro e nas mais diversas áreas do saber: filosofia, literatura, artes plásticas, linguística, direito, psicologia/psicanálise, arquitetura, cinema, educação, e certamente outras mais. Creio que a abrangência das questões que ele colocou é que tem sido determinante para o interesse que deve despertar ainda por muito tempo. É quase impossível fazer um balanço de seu legado hoje, mas eu diria que, em linhas gerais, ele é o pensador que fez questionamentos fundamentais à história da filosofia, abalando (mas não negando) o valor da verdade, do absoluto, do centramento no que ele chamou de “metafísica da presença”. Nesse sentido, ajudou a pôr em causa uma certa imagem que o chamado Ocidente tinha de si mesmo, como o território da racionalidade absoluta, em detrimento do “irracionalismo” de outras culturas. E ele fez isso em diálogo sobretudo com Nietzsche, Heidegger, Freud, Marx e Levinas. Motivo pelo qual o pensamento derridiano é uma referência decisiva para os chamados estudos pós-coloniais. Uma área que tem discutido seus textos também é a do direito, na medida em que ele estabeleceu uma distinção importante entre legalidade e justiça. Estudos de gênero (feminismo, teoria queer, movimento gay), estudos sobre a vida e a animalidade são outros domínios que reivindicam certa herança de Derrida. E há muitos críticos, teóricos e ficcionistas ou poetas, entre os quais me incluo, que desenvolveram grande parte da obra dialogando implícita e explicitamente com seu pensamento. Dentro dessa referência literária, citaria ainda os nomes de Hélène Cixous (grande teórica, crítica e ficcionista franco-argelina, amiga de Derrida), além dos brasileiros Silviano Santiago e Haroldo de Campos. A lista por definição não tem fim, citei apenas alguns exemplos para dar uma ideia do efeito Derrida no âmbito da cultura mundial hoje.

PE Certamente, há vários pontos de convergência entra a obra (e as posturas como intelectuais) de Jacques Derrida e Peter Sloterdijk. Apesar de tratar do colega franco-argelino, no trecho a seguir parece que Sloterdijk está fazendo um autorretrato:

“Uma das contribuições mais admiráveis dessa vida filosófica foi ter mantido, simultaneamente, uma extrema visibilidade e uma não identidade persistente, junto com uma imagem indefinida de si mesmo – numa parábola luminosa que se estende por quatro décadas de uma existência como personalidade pública”.

No que, porém, os dois filósofos se diferenciam?

EN Não tenho o mesmo conhecimento da obra de Sloterdijk como tenho a respeito de Derrida. Do pensador alemão, li cinco livros e gostei muito, sobretudo de Crítica da razão cínica, a obra que o tornou mundialmente conhecido. Baseado nesse conhecimento relativo, arriscaria dizendo que se trata de pensadores completamente distintos, com interesses e estratégias bastante diferenciados. Apesar disso, diria que, além desse esboço de “autorretrato” (via Derrida) de Sloterdijk que você cita, uma coisa marcadamente os aproxima: ambos em determinado momento de suas carreiras desenvolveram uma arguta reflexão sobre a Europa: Derrida numa pequena conferência intitulada L’autre cap [O outro cabo], ainda não traduzida no Brasil, e Sloterdijk em Se a Europa despertar (Estação das Letras). Já abordei essas duas visões num ensaio e creio que ambas são muito úteis para entender o drama do continente europeu hoje. Seria fascinante, se Derrida ainda estivesse vivo, um diálogo público entre os dois acerca da questão islâmica, do terrorismo e da crise da imigração atual. Derrida teve um diálogo desse tipo com Baudrillard, sobre a Guerra do Golfo, e outro com Habermas, sobre o 11 de setembro de 2001.

Um comentário suplementar: não subscrevo inteiramente a leitura de Sloterdijk acerca de Derrida em Derrida, um egípcio. Traduzi esse livro a convite de Angel Bojadsen, editor da Estação Liberdade, porque considero uma homenagem póstuma tocante da parte de um filósofo mais jovem em relação a alguém que foi para ele, de algum modo, uma forte referência. Todavia, há alguns pontos polêmicos que eu questionaria, mas não haveria espaço para comentá-los aqui. Sinalizei resumidamente isso na curta orelha que fiz para esse livro.

PE Segundo Sloterdijk, a “ética de leitura” de Derrida seria “uma estranha mistura de responsabilidade e desrespeito”. Você concorda com ele?

EN Concordo inteiramente, pois esses são os dois gestos básicos de uma leitura “desconstrutora” (enfatizo as aspas no adjetivo): por um lado, Derrida foi sempre muito respeitoso com o texto do outro, quer se tratasse de um filósofo ou de um escritor. Pegue-se qualquer ensaio em que ele aborde, por exemplo, Hegel ou Aristóteles e percebe-se de imediato uma leitura cerrada (close reading) da textualidade filosófica, com resumo de ideias, citações abundantes em alemão e grego, comentários detidos. Ele era antes de mais nada um leitor filológico que acompanhava minuciosamente a letra do texto alheio. Contudo, nos mesmo ensaios, encontram-se reflexões que interpretam audaciosamente os textos desses grandes pensadores. Derrida nunca se colocava na posição do discípulo, mas sim na do leitor arguto que pode dar uma interpretação singular de textos célebres da tradição filosófica. Jamais se deixou intimidar por nenhum grande nome da tradição, desde os gregos até seus contemporâneos, como Foucault e Deleuze, com quem também debateu. Isso lhe rendeu diversas críticas, algumas até pertinentes, mas outras (a maioria) simplesmente demonstram a não compreensão do pensamento derridiano.

PE Recentemente você tem tratado da obra de Jacques Derrida de uma forma mais íntima, sem esconder a sua proximidade não apenas com o trabalho do grande filósofo franco-argelino como dele mesmo. Por que você decidiu dar essa guinada?

EN Vou nuançar um pouco sua pergunta generosa para tentar respondê-la. Não diria que se trate de uma abordagem mais íntima, nem que seja propriamente uma guinada. Acontece apenas que, depois de mais de duas décadas lendo esse autor, na confluência também com diversos outros pensadores e escritores, minha relação com Derrida necessariamente teria que mudar. Não faria sentido, hoje, repetir o mesmo gesto de escrita que foi a tese defendida em 1995, a qual se tornou o livro Derrida e a literatura (agora em 3ª. ed., pela É Realizações). Ao longo desses anos, foram-me solicitados testemunhos e diversas entrevistas sobre o assunto. Lembro especialmente de uma matéria para o antigo suplemento “Prosa & Verso”, do Globo, em 2010, quando saiu a biografia de Derrida na França, em que falei dele como professor.

Esses testemunhos (a convite de terceiros) têm uma plena convergência com uma temática que me interessa cada vez mais: a relação entre saber e afeto. Como ensaísta e como escritor me importa entender por que determinados escritores e pensadores meafetam e de que modo. No caso de Derrida, isso é tanto mais forte porque o conheci pessoalmente, em diversas situações. Faz parte de um de meus vários projetos escrever um dia uma espécie de ficção intelectual sobre esse encontro no início dos anos 1990, como seu aluno na École des Hautes Étudesen Sciences Sociales, que marcou minha trajetória para sempre.

Creio que não foi por acaso que literalmente “entrei” na Biografia do pensador franco-argelino, dando um depoimento que comparece em duas páginas do livro de Benoît Peeters, publicado pela Flammarion e traduzido com um prefácio meu pela Civilização Brasileira (2013).

Por outro lado, nesse momento que chamo de “depois”, “após” ou “pós-Derrida”, ou seja, depois de sua morte, sempre que me solicitam uma conferência ou um texto a partir dele, proponho um tipo de “memória” de leitura, que é de algum modo uma recordação do percurso realizado e um apontamento do que nessa obra tão vasta me interessa ainda hoje.

Um dos aspectos que tenho ressaltado é que nunca endossei todas as ideias de Derrida. Nos últimos tempos, tendo a explicitar discordâncias pontuais, questionando inclusive o uso atual que se faz do termo “desconstrução”, daí as aspas. Em breve, publicarei um livro com tudo o que fiz a partir de 2000, e no qual se verão as transformações “orgânicas” por que passaram minhas leituras derridianas. O título ainda provisório seria mesmo Depois de Derrida.

Por fim, gosto sempre de lembrar que meu trabalho com a obra de Derrida é apenas parte de minha própria obra. Há diversos ensaios, sobretudo em estética, nos quais não dialogo com Derrida, mas com outros autores. E mesmo quando dialogo pontualmente com ele, é sempre no sentido de desenvolver meu próprio pensamento, com minhas dificuldades e acertos. Acrescentaria ainda – mas isso nem de longe é o menos importante – que desde 2008 venho publicando uma ficção inteiramente autoral, com todos os riscos e benefícios que implica.

É claro que traços das reflexões derridianas podem ser encontrados aqui e ali implicitamente em minha outra produção ensaística e até em meus textos ficcionais, como, aliás, disse numa das respostas anteriores. Mas isso cabe aos leitores perceberem ou não. O que importa é que em qualquer texto que receba meu nome, quem assina de fato sou “eu” (o autor “morto-vivo” que logo sou...). É nesse sentido que não me vejo como um discípulo, nem mesmo como um especialista, mas como um leitor bastante especial dos textos assinados J.D. O discípulo apenas repete o discurso do mestre, o não discípulo o reinventa. Outra coisa não tenho tentado nos últimos trinta anos a não ser reinventar, com meus parcos recursos (para citar Drummond), o pensamento de Derrida, tanto quanto de diversos outros autores e autoras com que dialogo. Somente aos possíveis leitores incumbirá avaliar se tenho obtido algum êxito...

São Paulo, fevereiro de 2016

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Derrida, um egípcio – o problema da pirâmide judia

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