Sempre falta alguma coisa


Se for para resumir em duas linhas, O sumiço é um romance que descreve uma investigação sobre o desaparecimento da letra “e” em um universo definido por essa ausência. É um livro, no final das contas, sobre a linguagem e suas possibilidades e, por isso mesmo, a letra “e” não é usada nenhuma vez. Uma tradução acaba de ser lançada no Brasil pela editora Autêntica, assinada por Zéfere. A edição brasileira não usa também a letra “e”. Por si mesma, é uma obra de arte no mesmo nível do original.

Para dar uma ideia da dificuldade do trabalho do tradutor basta lembrar que o texto não pôde usar “que” ou “de” em 235 páginas. Do meu lado, tive uma experiência de leitura curiosa: no início eu procurava o “e” a cada linha. Depois comecei a me envolver com o texto, embora as páginas sempre corressem com um pouco mais de lentidão. Aos poucos, o efeito é o mesmo que o da leitura de um poema épico. A subtração da letra “e” oferece musicalidade ao texto, talvez por forçar a assonância. O exemplo a seguir é apenas um dos tantos que mostram a felicidade do tradutor brasileiro:

“Aí, malnutrido, subnutrido, malgrado o húmus amistoso provido por nosso Criador com toda Sua compaixão, Dudu acabou ficando magro. Ficou magrinho. Sua obstinação foi ficar magríssimo. Tão magriço ficou: foi ficando curvo, diminuído. Ficou diminuto; no início, ficou do tamanho dum anão, ou ainda mais baixo, para, no fim, virar um homúnculo, um diminutivo, um humano tão mínimo quanto um ouriço...”

Diante do tamanho da empreitada e de sua felicidade, fiquei com a impressão de que a recepção de primeira hora de O sumiço foi pequena. A maioria tratou da dimensão literária do OULIPO e de seus desdobramentos. Há um texto interessante na edição deste mês (março de 2016) da revista Piauí. Não vou por esse lado, então. A tradução de Zéfere é mais um índice da qualidade e enorme avanço do nosso meio editorial. Apesar do valor de pagamento ainda não ser o justo, por exemplo, temos uma nascente política de direitos autorais para o tradutor, plágios nesse campo já não são mais tolerados (em grande parte devido ao fundamental trabalho da tradutora Denise Bottmann), o lugar do tradutor como fundamental para a obra literária já está resolvido e, por isso, temos um terreno fértil para as traduções autorais. A de Zéfere já está entre as principais.

Há aqui porém uma questão. É justamente quando o meio editorial chega a esse patamar de realização que uma grave crise fecha editoras, cancela eventos, reduz o ritmo de publicações e toda essa evolução ameaça parar. Enquanto eu digito este texto, soube do fim do Festival da Mantiqueira e do caderno de cultura do jornal Valor econômico.

A propósito, falamos dos textos que analisaram O sumiço. Outro que merece destaque é o de Victor da Rosa para O Estado de S. Paulo, acompanhando a arte do tradutor e do mesmo jeito não usando a letra “e” (com exceção dos nomes do autor e tradutor do livro). A resenha é outro índice de maturidade e diversificação. A própria recepção a um texto pode ser criativa, sem prejuízo de análise. No entanto, quando chegamos nesse patamar, o espaço, ao menos nos meios tradicionais, vem diminuindo.

Deve estar aqui um exemplo de certa questão brasileira: parece que nunca atingimos um ponto em que tudo convirja para um pleno avanço. Sempre falta alguma coisa ou algo de repente nos é retirado. Nesse caso, várias letras, aliás...

***

PEREC, George. O sumiço. São Paulo: Autêntica, 2015. Tradução de Zéfere.

Link para a resenha de Victor da Rosa: http://bit.ly/1MnhmNi

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