Meninas mortas


O Brasil parece ter descoberto que tem entranhada em sua sociedade a cultura do estupro depois do recente caso em que uma menina de 16 anos foi violentada por mais de 30 homens e teve um vídeo com diversos abusos divulgado nas redes sociais. Grupos estão se organizando para que a discussão não seja apenas um grito de raiva em um momento localizado, mas que acarrete medidas efetivas de transformação.

O problema não é só brasileiro. Na Argentina, recentemente o movimento ni una menos chamou a atenção para o problema da violência contra a mulher. A escritora Selva Almada, conhecida pelo excelente romance O vento que arrasa, seu único livro publicado no Brasil, redigiu uma investigação extremamente sensível sobre o feminicídio em seu país. A revista Peixe-elétrico, edição 3, traduziu um capítulo de Chicas muertas.

Para marcar nossa posição a favor da luta contra a cultura do estupro, publicamos aqui o texto de Selva Almada, com um convite para que o resto do livro seja traduzido no Brasil o quanto antes.

Mais nem uma!

Os editores

***

A manhã de 16 de novembro de 1986 estava limpa e sem nuvens em Villa Elisa, a pequena cidade onde nasci e cresci, no centro-leste da província de Entre Ríos.

Era domingo, meu pai fazia um churrasco nos fundos da casa. Ainda não tínhamos churrasqueira, mas nos virávamos com uma chapa no chão, o carvão por cima da chapa e, por cima do carvão, a grelha. Meu pai não cancelava o churrasco nem debaixo de chuva: outra chapa cobrindo a carne e o carvão era suficiente.

Perto dali, acomodado entre os galhos de uma amoreira, um rádio portátil de pilhas sintonizava sempre a Radio Nuevo Mundo LT26. Na programação, músicas folclóricas e um boletim de notícias, poucas, de hora em hora. Ainda não havia começado a temporada de incêndios no parque nacional El Palmar, a uns 50 quilômetros de distância, que ardia a cada verão e fazia soar as sirenes de todos os postos de bombeiros da região. À exceção de algum acidente na estrada, sempre com algum garoto saindo de um baile, pouco ou nada acontecia nos fins de semana. De tarde, nada de futebol; por causa do calor, o campeonato noturno já havia começado.

Naquela madrugada eu tinha despertado com a ventania que sacudia o telhado da casa, tinha me esticado na cama e encostado em algo que me fez sentar de repente, o coração na boca. O colchão estava úmido, e umas formas grudentas e mornas se mexiam contra minhas pernas. Com a cabeça ainda latejando, demorei alguns segundos para compor a cena: minha gata havia parido mais uma vez aos pés da cama. Sob a luz dos relâmpagos, que entrava pela janela, eu a vi enroscada, olhando-me com os olhos amarelos. Me encolhi e abracei os joelhos, para não encostar mais nos gatos.

Na cama ao lado, minha irmã dormia. Os relâmpagos azuis iluminavam seu rosto, os olhos entreabertos, sempre dormia assim, como uma lebre, o peito subindo e descendo, alheio à tormenta e à chuva que caíam com tudo. Olhando para ela, adormeci também.

Quando acordei, só meu pai havia levantado. Minha mãe e meus irmãos continuavam dormindo. A gata e os filhotes não estavam na cama. Do nascimento restava apenas uma mancha amarelada com bordas escuras, numa ponta do lençol.

Saí para o quintal e contei a meu pai que a gata havia parido, mas que agora não conseguia encontrar nem ela, nem os filhotes. Ele estava sentado à sombra da amoreira, distante da chapa mas perto o suficiente para vigiar a carne. No chão, o copo de aço inoxidável que ele sempre usava, com vinho e gelo. O copo suava.

Deve ter escondido os filhotes no quartinho lá fora, disse ele.

Olhei na direção do quartinho mas não me animei a procurar. Certa vez, uma cadela louca que tínhamos havia enterrado seus filhotes por lá. Ela arrancara a cabeça de um deles.

A copa da amoreira era um céu verde com as faíscas douradas do sol que entravam pelas folhas. Dentro de poucas semanas estaria cheia de frutas, as moscas se amontoariam zumbindo, o lugar seria tomado pelo cheiro azedo e adocicado das amoras passadas, e por algum tempo ninguém teria vontade de sentar naquela sombra. Mas estava bonita naquela manhã. Era preciso ter cuidado apenas com as lagartas peludas e verdes, brilhantes como guirlandas de natal, que às vezes se soltavam das folhas pelo próprio peso, e queimavam com um choque ácido quando encostavam na pele.

Então o rádio deu a notícia. Eu não estava prestando atenção, mas mesmo assim ouvi claramente.

Naquela madrugada, em San José, um vilarejo a 20 quilômetros de distância, uma adolescente fora assassinada na cama, enquanto dormia.

Meu pai e eu continuamos em silêncio.

Parada ali, eu o vi se levantar da cadeira e ajeitar o carvão com um ferro, colocando as brasas lado a lado, cutucando as maiores para que se quebrassem, o rosto coberto de pequenas gotas pelo calor do fogo, a carne recém-colocada estalando suavemente. Um vizinho passou e deu um grito. Meu pai virou a cabeça, ainda inclinado sobre a carne, e ergueu a mão que estava livre. Já vou, respondeu. Com o mesmo ferro começou a desmontar a cama de brasas, empurrando-as para um canto da chapa, mais perto de onde ardiam os troncos de algarobeira, e deixou apenas algumas, calculando que seriam suficientes para manter o churrasco quente até ele voltar. Já vou significava sair em disparada até o bar da esquina, para tomar uns tragos. Calçou o chinelo que estava perdido na grama enquanto vestia a camisa que deixara pendurada num galho da amoreira.

Se começar a apagar, coloca umas brasas mais pra cá que eu já venho, disse ele, e saiu rápido para a rua, arrastando os chinelos, como um menino que vê um sorveteiro.

Sentei na cadeira e peguei o copo que ele havia deixado. O metal estava gelado. Um pedaço de gelo flutuava na borra do vinho. Pesquei o gelo com os dedos e comecei a chupar. No início senti um gosto distante de álcool, mas depois só água.

Quando restava apenas um pedacinho, triturei o gelo com os dentes. Apoiei a palma da mão sobre o músculo que saía pela barra do short. Me assustei ao senti-la gelada. Como a mão de um morto, pensei. Embora eu nunca tivesse encostado em um.

Eu tinha treze anos e, naquela manhã, a notícia da menina morta chegou para mim como uma revelação. Minha casa, a casa de qualquer adolescente, não era o lugar mais seguro do mundo. Podiam te matar dentro de casa. O horror poderia estar vivendo sob o mesmo teto que você.

Nos dias seguintes eu soube de mais detalhes. A menina se chamava Andrea Danne, tinha dezenove anos, era loira, linda, de olhos claros, estava namorando e fazia licenciatura em Psicologia. Foi assassinada com uma facada no coração.

Durante mais de vinte anos, Andrea continuou por perto. Ela voltava de vez em quando, junto com a notícia de mais uma mulher morta. Os nomes, que chegavam em conta-gotas à primeira página dos jornais de circulação nacional, iam se acumulando: María Soledad Morales, Gladys Mc Donald, Elena Arreche, Adriana y Cecilia Barreda, Liliana Tallarico, Ana Fuschini, Sandra Reitier, Carolina Aló, Natalia Melman, Fabiana Gandiaga, María Marta García Belsunce, Marela Martínez, Paulina Lebos, Nora Dalmaso, Rosana Galliano. Cada uma me fazia pensar em Andrea e seu assassinato impune.

Em um verão, quando eu passava uns dias no Chaco, no nordeste do país, deparei com um destaque num jornal local. A manchete dizia: Vinte e cinco anos do crime de María Luisa Quevedo. Uma menina de quinze anos, assassinada em 8 de dezembro de 1983 na cidade de Presidencia Roque Sáenz Peña. María Luisa passou alguns dias desaparecida, e finalmente seu corpo violentado e estrangulado apareceu num terreno baldio nos arredores da cidade. Ninguém foi processado pelo assassinato.

Recentemente tive notícia também de Sarita Mundín, uma garota de vinte anos desaparecida em 12 de março de 1988, cujos restos foram encontrados no dia 29 de dezembro daquele mesmo ano às margens do rio Tcalamochita, na cidade de Villa Nueva, província de Córdoba. Mais um caso sem solução.

Três adolescentes do interior assassinadas nos anos 80, três mortes impunes ocorridas quando, em nosso país, o termo feminicídio ainda era desconhecido. Naquela manhã eu também desconhecia o nome de María Luisa, assassinada dois anos antes, e o nome de Sarita Mundín, que ainda estava viva, alheia ao que aconteceria dois anos mais tarde.

Eu não sabia que uma mulher poderia ser morta apenas pelo fato de ser mulher, mas tinha ouvido histórias que costurei com o tempo. Casos que não terminaram com a morte da mulher, mas a transformaram em objeto de misoginia, abuso, desprezo.

Casos saídos da boca de minha mãe. Um deles ficou especialmente gravado. Aconteceu quando ela era muito jovem. Minha mãe não lembrava o nome da menina, porque não a conhecia. Morava em La Clarita, uma pequena comunidade próxima a Villa Elisa. Ia se casar, e uma modista da minha cidade estava fazendo seu vestido de noiva. Ela já tinha vindo tomar as medidas e fazer algumas provas, sempre acompanhada pela mãe, no carro da família. Para a última prova, veio sozinha; ninguém pode trazê-la, e por isso tomou um ônibus. Não estava acostumada a andar só, confundiu o endereço e, quando se deu conta, seguia pela rua que leva ao cemitério. Uma rua que, a certa hora, ficava deserta. Quando viu um carro se aproximar, pensou que seria melhor perguntar em vez de continuar andando em círculos, perdida. Dentro do carro havia quatro homens, e eles a levaram. Passou vários dias sequestrada, nua, amarrada e amordaçada, em um lugar que parecia abandonado. Davam-lhe comida e água suficientes para que permanecesse viva. E a estupravam sempre que tinham vontade. A jovem só queria morrer. Tudo o que via através de uma pequena janela era céu e campo. Certa noite ouviu os homens saírem de carro. Reuniu forças, conseguiu se soltar e fugir pela janelinha. Correu assustada pelo campo até encontrar uma casa habitada. Lá, recebeu ajuda. Nunca foi capaz de identificar o local de seu cativeiro ou os sequestradores. Meses depois, casou-se com o noivo.

Outra história havia acontecido recentemente, há dois ou três anos.

Três garotos foram a um baile num sábado. Um deles estava apaixonado por uma moça, filha de uma família tradicional de Villa Elisa. A menina dava corda e depois recuava. Ele ia atrás dela, ela se deixava encontrar e em seguida escapava. O jogo de gato e rato se arrastava havia meses. A noite do baile foi igual às outras. Dançaram, beberam um pouco, jogaram conversa fora e mais uma vez ela se esquivou. O rapaz procurou consolo no bar onde os amigos já se encontravam havia algum tempo, enchendo a cara. A ideia partiu deles. Por que não esperá-la na saída do baile e ensinar com quantos paus se faz uma canoa. O apaixonado ficou sóbrio assim que ouviu a sugestão. Vocês estão loucos, que porra é essa, melhor ir dormir. Coisa de bêbado.

Mas eles estavam falando sério. Aquele tipo de vadia merecia uma lição. Dali a pouco, os amigos também foram embora. Esperaram a moça num terreno baldio ao lado da casa dela. Para voltar, ela obrigatoriamente teria de passar por ali.

A menina saiu do baile com uma amiga. As duas moravam a um quarteirão de distância uma da outra. A amiga chegou primeiro, e ela continuou tranquila, o mesmo caminho de todas as noites de baile, numa cidadezinha onde nada acontecia. Eles a abordaram no escuro, a espancaram e penetraram, os dois, um de cada vez, várias vezes. E quando até seus paus se enjoaram, continuaram violentando-a com uma garrafa.

***

Desde cedo o sol esquentava as telhas da casa da família Quevedo, no bairro de Monseñor de Carlo, na cidade de Presidencia Roque Sáenz Peña, província de Chaco. Os primeiros dias de dezembro já anunciavam o tórrido verão chaqueño, com temperaturas de quarenta graus, comuns naquela região do país. Na modorra do quarto, María Luisa abriu os olhos e sentou-se na cama, pronta para levantar e sair para trabalhar na casa da família Casucho. Havia começado recentemente, como empregada doméstica.

Escolheu roupas frescas, porém bonitas. Gostava de andar arrumada na rua, embora usasse roupa de faxina para trabalhar, uma camisetinha e uma saia, velhas e desbotadas pelo sol e pelos pingos de cândida. Do guarda-roupa de moça pobre, pegou uma regata e uma saia de pregas, enfeitada por um pequeno cinto de couro que se ajustava ao corpo. Lavou o rosto, penteou os cabelos, nem longos nem curtos, lisos e escuros. Sacudiu o tubo de desodorante, aplicou às axilas e depois borrifou o resto do corpo. Apareceu na cozinha flutuando numa nuvem doce e perfumada. Tomou três ou quatro cuias de chimarrão, preparadas pela mãe, e saiu.

Completara quinze anos recentemente, no dia 19 de outubro – naquele ano, a data havia coincidido com o dia das mães. Era uma menina miúda, ainda estava ganhando corpo. Tinha quinze, mas parecia ter doze.

A casa da família Casucho ficava no centro de Sáenz Peña, e María Luisa percorria o trajeto a pé, uns vinte quarteirões. Aquela manhã, 8 de dezembro, era o dia da Virgem – um meio feriado, pois algumas lojas abriam normalmente. Mesmo assim, a cidade andava em marcha lenta, e por isso ela não cruzou com muita gente.

Estava feliz, era seu primeiro emprego. Entrava cedo, por volta das sete, e saía às três da tarde, depois de lavar a louça do almoço.

Se naquele dia ela havia pensado em ficar por lá, aproveitando o feriado, não tinha contado nada à mãe, Ángela Cabral. Vendo que entardecia e María Luisa – ou Chiqui, como era chamada em casa – não voltava do serviço, Ángela começou a se preocupar.

Desde que se separara do marido, pai de seus seis filhos, a mãe morava com as duas filhas mais moças e com Yogui, o filho solteiro de 27 anos. Yogui era o homem da casa, e foi a ele que Ángela recorreu primeiro.

Yogui estava com os amigos numa piscina pública, aproveitando a tarde livre. Um primo foi buscá-lo, dizendo que Ángela estava chorando porque Chiqui não tinha voltado para casa depois do trabalho.

Yogui foi procurar a irmã na casa do pai, Oscar Quevedo, que vivia com a nova mulher – uma boliviana com quem os filhos não se davam. Mas María Luisa não tinha passado por lá. A partir de então, a busca foi intensa e cada vez mais desesperada, à medida que as horas avançavam.

Nem as testemunhas e nem a investigação policial foram capazes de determinar o que aconteceu e onde a menina esteve entre as três da tarde de quinta, 8 de dezembro de 1983, quando saiu do trabalho, e a manhã de domingo, dia 11, quando seu cadáver foi encontrado.

Norma Romero e Elena Taborda, duas amigas que María Luisa havia feito recentemente, foram as únicas que declararam tê-la visto ao sair do trabalho; caminharam juntas por alguns quarteirões e depois se separaram.

As buscas mal haviam começado quando o telefone da 1ª Delegacia de Polícia tocou, na manhã de domingo, 11 de dezembro. Do outro lado da linha, alguém denunciava a presença de um corpo num terreno baldio entre as ruas 51 e 28, na periferia da cidade. Aquela área, agora abandonada, já havia sido usada no passado para extrair terra usada na fabricação de tijolos. No local, restara apenas uma escavação de pouca profundidade e grandes dimensões; quando chovia, o buraco se enchia d’água e formava um lago, que os moradores da região chamavam de represa. O corpo da menina foi abandonado nesse laguinho com pouca água. Ela havia sido enforcada com o mesmo cinto de couro que vestira de manhã, antes de sair para trabalhar.

Naquele mesmo domingo, em Buenos Aires – a 1.107 quilômetros de distância –, iam se apagando na mesma hora os ecos das comemorações populares pela ascensão de Raúl Alfonsín, primeiro presidente constitucional da Argentina depois de sete anos de ditadura. Os últimos a deixar a festa pestanejavam nos pontos de ônibus, e os coletivos passavam ao largo, abarrotados de gente.

Em Sáenz Peña, todos haviam passado a véspera na frente da televisão, que transmitira ao vivo, em cadeia nacional, os atos e comemorações iniciados às oito da manhã de sábado. A festa também havia seguido até o cair da noite na praça San Martín, a principal da cidade. Os que tinham carros fizeram uma caravana pelo centro, bandeiras argentinas tremulando nas antenas, buzinaços e meio corpo para fora das janelas, acenando e cantando. Embora o governador eleito da província de Chaco, Florencio Tenev, pertencesse ao partido peronista de oposição, enquanto o novo presidente integrava o partido radical, a volta da democracia era mais importante do que as tonalidades políticas, e ninguém queria perder a festa.

Enquanto todos celebravam, a família Quevedo continuava a busca por María Luisa.

O último dia em que Sarita Mundín foi vista com vida, 12 de março de 1988, também foi bastante comum para a jovem. Ela havia passado algumas semanas fora de Villa María, cuidando da mãe que estava internada em Córdoba. Sarita trouxera a mãe convalescente para o pequeno apartamento da rua San Martín, onde vivia com Germán, seu filho de quatro anos, e Mirta, sua irmã de 14 – que estava grávida. Recém-operada, a mãe exigia cuidados. Para as irmãs Mundín, seria mais fácil ajudá-la se morassem juntas, no mesmo lugar. Acomodaram-se como possível, o apartamento era apertado.

Dady Olivero, o amante de Sarita, havia ajudado a alugar o apartamento, imaginando que ali viveriam apenas Germán e a mãe. Ele queria visitá-la com tranquilidade, sem a indiscrição dos motéis da cidade – perigosos para um homem casado, empresário conhecido. Olivero e sua família eram donos do frigorífico El Mangrullo.

Entre o período passado em Córdoba e a chegada da mãe ao apartamento, Dady e Sarita já não se viam há algum tempo. Naquele dia ele avisou que passaria de carro para buscá-la, de modo que fossem a um lugar onde pudessem ficar sozinhos e sossegados.

Sarita não estava com vontade de sair com Dady. O relacionamento com aquele homem dez anos mais velho, que tinha outra família, vinha esfriando. Aparentemente ela havia conhecido um rapaz em Córdoba e estava entusiasmada. Mesmo sem vontade, Sarita pegou uma toalha (eles iriam ao rio) e uma carteira antes de Dady chegar, e desceu as escadas para encontrá-lo.

Ela não tinha se arrumado como fazia antes, quando a relação ainda prometia e se apresentava como uma possibilidade de mudar de vida. Sarita apareceu de saia comprida, camisetinha e chinelo. Era uma mulher bonita, arrumada ou não: magra, cabelos castanhos, bastos e ondulados, pele clara, olhos verdes.

Mirta e Germán a acompanharam até a porta. Vendo a mãe se dirigir ao carro estacionado, o menino quis ir junto. Lá de dentro, porém, o motorista disse que não, que descesse do carro. Falou com tal seriedade que o garoto se refugiou na saia da tia, fazendo beicinho. Sarita voltou ao portão, beijou o filho e prometeu trazer um presente na volta.

Jamais retornou do passeio.

A moça passou quase um ano desaparecida. No final de dezembro, um peão de gado chamado Ubaldo Pérez encontrou restos de um esqueleto humano presos aos galhos de uma árvore, nas margens do rio Tcalamochita, que separa as cidades de Villa María e Villa Nueva. Os fragmentos estavam nas imediações de um local conhecido como A Ferradura, do lado de Villa Nueva. O estado do cadáver, reduzido a ossos, sugeria que Sarita fora assassinada no mesmo dia em que saiu com o amante, embora jamais se tenha descoberto como.

Quando entrei para a faculdade fui morar com uma amiga em Paraná, capital da província, a 200 quilômetros da minha cidade. Não tínhamos muito dinheiro, vivíamos numa pensão, com grande parcimônia. Para economizar, começamos a pegar carona nos finais de semana, quando íamos visitar a família. A princípio procurávamos um rapaz conhecido, também estudante, para nos acompanhar. Com o tempo percebemos que a carona aparecia mais rápido se houvesse apenas meninas. Quando íamos juntas, duas ou três, sentíamos que não havia perigo. Em algum momento, quando ganhamos confiança, passamos a viajar sozinhas se não tivéssemos companhia. Às vezes, por conta das provas, a data de nossas visitas à cidadezinha não coincidiam. Subíamos em carros, caminhões e caminhonetes. Se havia mais de um homem no veículo, não entrávamos; fora isso, não tínhamos grandes preocupações.

Em cinco anos, fui e voltei centenas de vezes sem pagar passagem. Pegar carona era a forma mais barata de viajar, e às vezes era até interessante. Conhecíamos gente. Conversávamos. Na maior parte do tempo, escutávamos: os caminhoneiros, cansados da solidão do trabalho, eram os que mais nos confiavam suas vidas inteiras, enquanto preparávamos um chimarrão.

De vez em quando ocorria algum episódio incômodo. Numa ocasião, contando suas desventuras, um caminhoneiro de Mendoza me disse que algumas estudantes se deitavam com ele para fazer um dinheirinho – ele não via nada de mau, assim elas pagavam os estudos e ajudavam os pais. A coisa não passou da insinuação, mas fiquei inquieta nos quilômetros que faltavam até eu descer. Sempre que entrava num carro, a primeira coisa que eu procurava era a trava da porta. Naquele dia acho que corri a mão pela janela e segurei a maçaneta, para o caso de ter de saltar de repente. Outra vez, um sujeito jovem, dirigindo um carro caro em alta velocidade, disse que era ginecologista e começou a falar sobre os exames que as mulheres devem fazer periodicamente, a importância de detectar tumores e identificar o câncer a tempo. Perguntou se eu fazia os exames. Eu disse que sim, claro, todos os anos, embora não fosse verdade. Enquanto ele falava e dirigia, esticou um braço e começou a apalpar meus seios. Fiquei rígida, o cinto de segurança atravessado no peito. Sem tirar os olhos da estrada, o homem disse: você mesma pode detectar sozinha qualquer carocinho suspeito, é só apalpar assim, viu?

Apesar disso, houve uma única vez em que senti que corríamos perigo. Era uma tarde de domingo, e eu voltava de Villa Elisa a Paraná com uma amiga. A viagem não tinha sido boa, fora preciso pegar várias caronas por trechos curtos. Subimos e descemos muitas vezes de carros e caminhões. O último havia nos deixado em uma bifurcação perto de Viale, a uns 60 quilômetros de Paraná. A noite estava caindo, e não havia vivalma na estrada. Finalmente um carro se aproximou. Era cor de laranja, nem velho nem novo. Fizemos sinal e o automóvel parou no meio-fio. Corremos alguns metros para alcançá-lo. Ele ia para Paraná, por isso entramos; minha amiga ao lado do motorista, um homem de seus sessenta anos, e eu no banco de trás. Durante os primeiros quilômetros, falamos sobre os assuntos de sempre: o tempo, de onde éramos, o que estudávamos. O homem contou que estava voltando de umas terras que tinha na região. Do banco de trás, eu não escutava muito bem. Vendo minha amiga conduzir a conversa, me encostei para trás e fiquei olhando pela janela. Não sei quanto tempo se passou até eu perceber que havia algo estranho acontecendo. O sujeito desviava o olhar da estrada e inclinava a cabeça para falar com minha amiga, estava mais risonho. Me ajeitei no banco. Então vi a mão dele apalpar o joelho dela, a mesma mão subir e acariciar o braço. Comecei a falar de qualquer coisa: a situação da estrada, as provas que faríamos aquela semana. Mas o homem não prestava atenção. Continuava falando com ela, convidando para beber alguma coisa na chegada. Ela não perdia a calma e sorria, mas eu sabia que, no fundo, estava tão assustada quanto eu. Não, obrigada, tenho namorado. Tudo bem, eu não me incomodo, não sou ciumento. Seu namorado deve ser um fedelho, não deve saber nada da vida. Uma garotinha como você precisa de um homem maduro como eu. Proteção. Boa situação financeira. Experiência. Eu ouvia as frases entrecortadas. Lá fora já era noite, e não se via nem o mato na beira da estrada. Olhei para os lados: tudo escuro. Quando vi as armas encostadas no vidro traseiro do carro, atrás do banco, meu sangue gelou. Eram duas armas grandes, escopetas ou coisa do gênero.

Minha amiga continuava recusando com delicadeza e educação os convites que ele insistia em fazer, esquivando-se das investidas do homem que tentava segurar seu pulso. Eu continuava falando sem parar, ainda que ninguém prestasse atenção. Falar, falar, falar, eu que não falo nunca, um ato de desespero infinito.

E então a mesma coisa que me gelara o sangue fez com que ele voltasse a circular. Eu estava mais perto das armas do que o motorista. Embora nunca tivesse disparado uma.

Finalmente, luzes na entrada da cidade. O posto de gasolina onde parava o ônibus vermelho que nos levava ao centro. Pedimos para saltar ali. O homem sorriu com desdém, desviou da estrada e encostou. Isso mesmo, é melhor vocês saltarem, suas merdinhas.

Descemos e caminhamos até o ponto de ônibus. O carro laranja arrancou e sumiu. Quando já ia longe, largamos as malas no chão, nos abraçamos e desatamos a chorar.

Talvez María Luisa e Sarita tenham se sentido perdidas momentos antes de morrer. Mas Andrea Danne dormia quando foi apunhalada no dia 16 de novembro de 1986.

O sábado tinha sido parecido com outros sábados do último ano e meio, desde que ela começara a namorar Eduardo. Aquele, porém, havia terminado mais cedo, sem ir ao baile ou a um motel, como em outras vezes. Na segunda-feira, Andrea faria a primeira prova final da licenciatura que começara a cursar naquele ano. Estava nervosa, insegura, preferiu deitar cedo e estudar na cama em vez de sair com o namorado.

Mesmo assim, os dois passaram algumas horas juntos depois que ele chegou para visitá-la, de moto. Tomaram chimarrão e conversaram sentados na calçada, fazia muito calor e uma tempestade se anunciava.

O sol já tinha desaparecido atrás das casas baixas do bairro, e os poucos postes de luz da rua Centenario foram se acendendo e enchendo-se de insetos. Passou o caminhão-pipa, baixando a poeira e levantando um vapor com cheiro de chuva.

Lá pelas nove entraram na cozinha, prepararam sanduíches de milanesa, pegaram uma bebida gelada e voltaram para a calçada. A casa era pequena; quando os pais e o irmão estavam, ficava mais fácil ter privacidade do lado de fora do que do lado de dentro.

Fabiana, a irmã de Andrea, chegou enquanto os dois comiam e pediu ajuda para escolher a roupa que usaria no baile. Era a Noite das Debutantes no clube Santa Rosa, uma tradição na cidade de San José: todas as meninas que tinham completado 15 anos recentemente desfilariam seus vestidos para que a mais bonita fosse eleita.

As duas irmãs entraram em casa e Eduardo ficou sozinho, terminando o sanduíche.

Os vizinhos começaram a colocar cadeiras do lado de fora, alguns viraram a televisão para a rua, sempre em alto volume para que pudessem escutar por cima do barulho: poucos carros, bandos de crianças brincando de pega-pega ou caçando os bichinhos de luz. Ainda não havia TV a cabo, as imagens vinham por antena – que naquela região pegava apenas o canal 7 de Buenos Aires e o canal 3 de Paysandú. De modo que todo mundo assistia mais ou menos aos mesmos programas. Não demorou até que o cheiro das espirais acesas para espantar os mosquitos preenchesse o ar.

Mais tarde, Andrea e Eduardo saíram para dar uma volta de moto pelo centro. Havia trânsito em volta da praça principal, carros e motos ficavam andando em círculos, todos em baixa velocidade, como numa procissão. Tomaram um sorvete e voltaram para a casa de Andrea.

Os pais e o irmão estavam na cama; Fabiana tinha ido ao baile. A casa estava silenciosa, e através das paredes finas mal se ouvia o som da televisão ligada no quarto dos pais. Os jovens ficaram se beijando e se acariciando na cozinha por alguns minutos. Num dado momento, ouviram um barulho do lado de fora, no quintal. Eduardo saiu e não viu nada de estranho, mas o vento que sacudia a copa das árvores e as roupas no varal dos vizinhos advertiu para a virada no tempo. Quando voltou para dentro, comentou com a namorada que vinha chuva, e os dois decidiram que seria melhor ele ir antes que a tempestade o surpreendesse no caminho. Eduardo não partiu imediatamente, continuaram se beijando e se tocando por baixo das roupas até ela falar, decidida: melhor ir embora.

Andrea acompanhou o namorado até a rua. O vento, mais forte, agitava seus cabelos longos e loiros, e fazia com que as roupas grudassem ao corpo. Beijaram-se de novo, ele partiu e ela correu para dentro de casa.

Deixou aberta a janela que dava para o quintal. Embora a temperatura tivesse caído um pouco do lado de fora, as paredes ainda estavam quentes, o lençol estava morno, como recém-passado. Jogou-se na cama, de regata e calça, pegou algumas anotações, folhas de xerox grampeadas, sublinhadas e com marcações que ela mesma fizera nas margens.

Provavelmente caiu no sono logo em seguida. Segundo o depoimento da mãe, ela viu que Andrea dormia quando entrou no quarto para fechar a janela, na hora em que a ventania aumentou. Passava da meia-noite. A mãe terminou de assistir a um filme no Función Privada, lendário programa dos anos oitenta comandado por Carlos Morelli e Rómulo Berruti. Os apresentadores introduziam a obra e, ao final, comentavam a fita bebendo copos de uísque. Naquela noite o filme era Humo de marihuana, lançado uns vinte anos antes, com direção de Lucas Demare. Ela não estava muito interessada, mas assistiu até o fim porque não tinha sono. Depois desligou a televisão, sem esperar os comentários de Morelli e Berruti, e conseguiu dormir.

Depois de um tempo, alguma coisa fez com que acordasse. Ela nunca conseguiu dizer se foi um barulho, um grito, uma porta batendo ou um mau presságio. Mas aquilo serviu de impulso para que se levantasse, fosse até o quarto das filhas e acendesse a luz. Andrea continuava deitada, mas tinha sangue no nariz. A mãe contou que ficou paralisada, imóvel no vão da porta, e chamou o marido aos gritos, duas ou três vezes.

Vem aqui, aconteceu alguma coisa com a Andrea.

Ele não se apressou, vestiu uma calça e uma camisa antes de entrar no quarto. Levantou Andrea pelos ombros e mais um pouco de sangue escorreu pelo tronco da moça.

A cama de Fabiana, ao lado, ainda estava arrumada e vazia. A tempestade havia chegado a seu esplendor máximo. Somavam-se à chuva as fortíssimas rajadas de vento, o barulho nas telhas de zinco lembrava um tiroteio.

Andrea deve ter se sentido perdida quando acordou para morrer. Os olhos, abertos de repente, devem ter piscado umas quantas vezes naqueles dois ou três minutos até que o cérebro ficasse sem oxigênio. Perdida, confusa com o martelar da chuva e o vento que quebrava os galhos mais finos das árvores do quintal, atordoada pelo sono, completamente desnorteada.

***

TRADUÇÃO: BEATRIZ VELLOSO

Selva Almada é uma das escritoras mais proeminentes da literatura argentina contemporânea, cuja obra traz ecos de Juan Carlos Onetti e William Faulkner. Seu romance de estreia foi saudado por Beatriz Sarlo como o melhor de 2012.

O vento que arrasa (Cosac Naify, 2015)

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