O enxame conservador


Se der certo, esse texto vai ser um pouco esnobe, embora jamais pernóstico. Como estou bastante incomodado, é uma espécie de desabafo. Vou tentar também alguma coisa bastante exibicionista, talvez até um pouco patética. Mas ridículos são os que estão do outro lado. Nunca vi tanta gente frágil andando orgulhosa com a camiseta da seleção brasileira.

Tenho a memória bastante geográfica provavelmente porque sempre gostei de andar. Do mesmo jeito, adoro algumas cidades, enquanto fico bastante indiferente a outras. Miami não me diz muito. É a cidade mais cafona do mundo.

Não pretendo me explicar (até porque estou irritado), mas um dos lugares que mais me agrada no mundo é São Paulo. Eu gostava muito de ir à Livraria Cultura e ficar um tempão olhando os lançamentos. Agora, um grupo de conservadores tomou conta do lugar. Não vou obviamente me condenar a sentir o cheiro dessa gente. Mudei o trajeto das minhas caminhadas: passo por uma livraria em Moema, olho as mesas com os livros, tomo um café e vou andando até o Parque do Ibirapuera. Lá eu corro. Tenho repetido esse trajeto há algumas semanas.

Se a Livraria Cultura do Conjunto Nacional abriga os reaças pobres, meu novo trajeto parece privilegiar os mais elegantes. Hoje à tarde, em um intervalo de não mais que duas horas, comecei a considerar seriamente a compra de fones de ouvido para poder continuar fazendo o que gosto com o mínimo de paz. As últimas três linhas são incoerentes: dane-se.

Entrei em um café e, preparando-me para a caminhada, vi uma senhora explicando para o marido que ela realmente acha que Moema precisa ter algumas padarias e restaurantes mais simples. De outro modo, onde o Zé iria almoçar?

Deixei a xícara pela metade e saí andando. Minutos depois, no farol em frente a um “empório” cujo dono deve ter problemas de consciência e por isso contrata alguns refugiados haitianos, uma mulher comenta com o filho:

– É esse pessoal que está tirando o nosso trabalho.

Dessa vez o filho adolescente resolveu me divertir um pouco:

– Você nunca trabalhou, mãe.

Cara, obrigado. Mas não foi o suficiente. Vinte minutos depois, ainda no início da pista de corrida do Ibirapuera, dou o azar enorme de emparelhar o passo com três mães que dali iriam direto buscar os filhos no Dante Aliguieri. Ouvi muito bem: elogiavam Jair Bolsonaro. Acelerei o passo e quase caí de desgosto. Cheguei em casa e comecei a escrever esta resenha.

Quando descrevi minha tarde para um amigo, dizendo que só Nova York tem caminhos que me agradam tanto, ele não demorou a me mandar um balde de água fria: claro, mas é o país em que Donald Trump tem chances reais de se tornar presidente da república. Aqui, Bolsonaro não consegue. Concordei.

A partir de agora vou ser bastante exibicionista. Peço, portanto, que ninguém me leia.

O Donald Trump é uma sombra, claro, mas posso ir caminhando da ponta do Central Park, contornar os prédios da Universidade de Columbia, jogar xadrez com aqueles malandros na rua, tomar um lanche no Harlem, ouvir o coral das igrejas protestantes magníficas da região e voltar pela Central Park West ao mesmo lugar. A chance de ouvir bobagem é muito menor do que no circuito Moema-Ibirapuera-Moema. Do café da Livraria Cultura e seu enxame de conservadores eu já desisti...

Não deve ter sido uma coincidência, mas os três livros que li antes da tarde de terror contavam, cada um a seu modo, uma certa história de Nova York das últimas décadas.

Guetto Brother, em bela edição da Veneta, descreve a transição das famosas gangues de Nova York. Da irmandade adolescente à chegada das drogas pesadas, a Nova York dos anos 1970 aparece através das jaquetas customizadas, a imigração porto riquenha e a arquitetura em ruínas do Bronx, um bairro para mim muito mais inacessível e hostil que o Harlem. No pouco tempo que passei por lá, porém, não ouvi nenhum tipo de declaração fascista.

O livro narra a trajetória do mítico Benjamin Melendez, porto riquenho de origem judaica que participou de todas as etapas das gangues, tendo aliás sido fundamental para a neutralização do aspecto violento que aquele tipo de grupo começou a desenvolver.

Os quadros parecem desenhados a nanquim, com manchas carregadas e pesadas, ecoando obviamente o clima em que as personagens viviam.

Lembro-me de certa vez em que resolvi me perder pelo Harlem. Eram duas da tarde e eu pretendia correr algum risco. Os motivos, não vêm ao caso: para ser sincero, não me lembro. Aos poucos, a arquitetura mais maciça dos prédios próximos a Columbia acabou substituída pela dos prédios mais baixos, aqueles com as janelas enfileiradas e as graciosas escadas de incêndio aparecendo aqui e ali. Andei por cerca de três horas, muitas vezes em círculo, até perceber um ferimento no dedão do pé esquerdo. Entrei em uma farmácia atrás de um band-aid e, descontraído, vi que ao lado dos curativos dava para comprar uma bola de basquete. Peguei uma e comecei a bater no chão. Do outro lado do corredor, um rapaz vestido com as roupas típicas do hip-hop começou a fazer o mesmo, mas com uma bola imaginária. Ele olhou para mim, riu e fingiu um arremesso. Cesta para o nosso time.

Na rua, percebi um monte de banheiras de Porto Rico e Cuba nas janelas. Com os latinos, vários grupos de negros dividiam a rua com estudantes sem dinheiro para morar em um bairro mais chique.

Não sei se agora a propaganda de Donald Trump tomou conta do Harlem e do Bronx. Há pouco tempo, não havia bandeiras americanas nas janelas. Cada vez que vejo uma bandeira do Brasil na janela de um prédio em Moema, tenho tanto asco como quando ouço um empresário ou banqueiro dizendo que se os brasileiros não pagarem mais impostos nosso país quebra. Não sei se os leitores têm noção, mas empresas e bancos costumam contratar grandes escritórios de direito para contestar seus próprios impostos na justiça, com isso protelando o pagamento até muitas vezes a decadência da dívida. Prefiro o bairro de imigrantes. Guetto brothers é o típico livro que adoro: comovente e historicamente preciso, me traz boas lembranças.

Cidade em chamas, o gigantesco romance de Garth Risk Hallberg, também repassa sobretudo os anos 1970, mas em outra região da cidade, o sul da ilha de Manhattan. Aqui, o hip-hop dá lugar ao punk. A violência urbana, que causaria pânico nas décadas seguintes, já chegou e faz suas vítimas inclusive entre as personagens do livro.

Às vezes através da música, muitas outras pela arquitetura urbana, o livro se constrói a partir das relações afetivas que a cidade sustenta, articula e extermina. As 1.043 páginas são divididas em uma série de blocos narrativos, todos interligados sem nenhuma obviedade, apresentados não em ordem cronológica, mas sim com a intenção de causar no leitor a dose de suspense necessária para que um livro com essas dimensões, mas sem a tensão formal por exemplo dos clássicos do alto modernismo, não seja deixado de lado.

Embora haja o tradicional suspense policial, aqui o desejo da leitura persiste pela curiosidade quanto ao destino das relações: ao que pode exatamente um casal resistir?, é uma pergunta que parece sustentar muitos blocos; o que realmente faz da amizade algo sólido?, é outra. É esse o artifício das minisséries americanas, de tanto sucesso, que o livro aliás ecoa. Outro eco é o de Jonathan Franzen: muitos capítulos se abrem com a evocação à natureza reveladora do início de As correções, adiantando algo da aridez ou de certa tempestade, a depender do afeto com que cada capítulo vai lidar.

Para mim, a graça da leitura aumentou com a reprodução de um típico fanzine punk e a reconstrução de uma cultura que acompanhei de perto, embora com timidez: minha adolescência aconteceu mais ou menos entre 1985 e 1995, ano em que entrei na faculdade e saí de casa. Nesse período, o movimento já não tinha a força da década imediatamente anterior, quando eu o observava cheio de fascínio e medo. Fui uma criança que olhava aqueles caras sujos e simpáticos, esperando o dia de ser como eles. O que afinal de contas nunca aconteceu.

Vou deixar os anos 1980 e 1990 na conta dos livros de Philip Roth e Don DeLillo, que acho irregulares (desculpem a sinceridade, mas estou tentando fazer um texto raivoso e desconexo), para chegar logo ao 11 de setembro de 2001. Enfim, ainda não achei nenhuma boa obra sobre os atentados, mas encontrei por acaso 12 de setembro – A América depois que narra o que os Estados Unidos viveram na década seguinte ao atentado. Do radicalismo religioso à explosão do crédito, passando pela ascensão da figura de Barack Obama, quadrinistas são entrevistados e publicam trabalhos sobre a história recente dos Estados Unidos. Estamos falando de nomes do quilate de Joe Sacco e Art Spiegelmann. O livro ridiculariza o Tea Party, percebe como os americanos tornam sua própria sociedade hiper vigiada, mostra os incríveis equívocos que acabaram fazendo o terrorismo recrudescer e ridicularizam o nacionalismo tosco dos provincianos.

O que resta da leitura é uma sensação de esclarecimento: como se todo um grupo de artistas se reunisse para discutir os problemas de uma sociedade, denunciasse seus fascistas de forma sofisticada e eficaz e demonstrasse que a vitalidade intelectual de um povo está acima da estupidez de seus governantes e de sua população reacionária e tapada.

Claro que no Brasil a classe artística está em grande parte horrorizada com o surgimento desse neofascismo de fancaria, ainda mais perigoso por sua burrice atávica. A reação não parece intensa o suficiente para trazer um pouco de ar para nossos pulmões cansados. Aqui e ali Raduan Nassar fala alguma coisa, o brilhante cineasta Kleber Mendonça Filho faz algum tumulto, mas é pouco para combater o nosso Tea Party nacional.

Trump vai ter muito mais dificuldade para ser eleito do que Michel Temer teve para chegar ao poder também porque nossa capacidade de reação está anestesiada por anos de acordos, conciliações e acomodações que parecem ter chegado ao ambiente artístico. Do mesmo jeito o nosso fascismo paulistano está fazendo a cidade perder o ar cosmopolita que ensaiou ter há alguns anos para se oficializar como a sede de figuras verde e amarelas truculentas, golpistas e superficiais – conservadoras, enfim. A elas, todo o nosso desprezo.

***

Guetto Brothers acaba de ser publicado pela Veneta.

Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg, saiu pela Companhia das Letras em abril.

Mais antigo, 12 de setembro – A América depois foi lançado pela editora Record em 2011.

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