Os dois demônios


Cabo de guerra, romance de Ivone Benedetti que a Boitempo acaba de lançar, é original em vários aspectos. Figura rara inclusive na historiografia, o narrador é um “cachorro”, nome que se dá aos traidores que, por alguma razão, passaram a colaborar com a ditadura, depois de lutar contra ela. Para evitar confusão com figuras recentes do anedotário nacional, é importante frisar que não se trata de um infiltrado, o famoso P2. Nesse caso, um babaca finge certa ideologia para entrar em grupos de resistência e miná-lo por dentro. O cachorro trai os colegas, deixando o combate para trás para se aliar ao poder repressor.

Pintando-se o tempo inteiro como frágil e bobo, o narrador diz que tem alucinações desde a infância, constrói um início de vida infeliz e se mostra no momento da narrativa, que se dá em apenas três dias, como um homem sofrido. Se não se arrepende diretamente, parece ansioso por mostrar que a vida lhe cobra um preço alto. Não quero desenvolver a questão agora, mas é importante destacar que todo narrador merece desconfiança. Em primeira pessoa, então, nem precisa falar...

O livro é um panorama do regime militar, terminando poucos anos depois de seu fim oficial. Ágil e límpida, porém, a narrativa ganha muito em velocidade por causa da estrutura, toda dividida em fragmentos curtos. As pequenas reviravoltas, ampliadas pela tensão que a figura patética que o narrador faz questão de manter, preparam a mudança principal: a traição. Depois dela, o texto se sustenta a partir da sensação que o leitor tem do narrador. Ele pode ser um canalha, um coitado, um burro, um grande filho da puta, ou todas as alternativas anteriores.

Vale a pena investigar com cuidado como esse narrador se constrói. Ele apresenta sua entrada em um grupo de resistência à ditadura como quase sem querer, apenas por causa de certa inércia e, sobretudo, atrás de alguma companhia. Não há nenhum tipo de comprometimento ideológico.

Do mesmo jeito, a traição e posterior participação nos aparelhos repressivos teria acontecido com a mesma indiferença. É como se bastasse uma brisa de vento qualquer para empurrar esse homem daqui para ali. Para ele, é tudo quase igual.

Aqui está porém a grande realização de Cabo de guerra: os dois lados são equivalentes, sem dúvida, mas só para a ótica desprezível de um traidor, uma figura fraca, imoral e mesquinha. Como se sabe, até hoje é bastante forte entre nós a “teoria dos dois demônios”, segundo a qual o que aconteceu durante a ditadura foi uma batalha em que os dois lados cometeram excessos e, do mesmo jeito, lutaram apenas para exercer um poder repressivo e antidemocrático. Essa hipótese norteia inclusive a formação de várias comissões de anistia.

Ainda assim trata-se de uma falsificação histórica. O que ocorreu no Brasil foi um golpe de Estado em que o Exército aliou-se a grupos de empresários para fazer valer o desejo econômico de uma minoria privilegiada, a mesma que quase sempre esteve no controle dos cargos políticos no Brasil, ganhando ou não as eleições. Contra esse golpe, grupos de resistência, com ideologias muito diferentes entre si, tentaram se insurgir, mas foram massacrados de forma ilegal, desproporcional e cruel. Entre os vários resultados está por exemplo o fato de muita gente ainda enxergar a oposição política, as manifestações contra o poder e qualquer voz contrária ao status quo com medo, repúdio ou negação a priori.

Benedetti criou um narrador que é na verdade um espelho de boa parte da sociedade brasileira pós-ditadura: falso, dissimulado e fracassado. Ele representa a fraqueza da nossa democracia, que ainda crê na “teoria dos dois demônios” e nada fez de muito substantivo para punir os crimes que os agentes do Estado realizaram durante a ditadura.

O recado do livro é claro: se você acha que tudo não passou de uma disputa, identifique-se com o cachorro, fique ao lado do traidor, contente-se com a própria fraqueza. Morra abandonado.

***

Cabo de guerra

Ivone Benedetti

(Boitempo)

R$ 54,00

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