O curioso Manguel


Em Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras), o escritor argentino Alberto Manguel faz um grande elogio à capacidade humana de questionar. Questionar em seu sentido mais profundo. Questões que funcionem como ponto inicial de uma busca que, na melhor das hipóteses, vai gerar sempre novas perguntas. Sendo fiel ao espírito do livro, proponho uma série de questões que surgiram para mim durante a leitura. Recomendo que você leia o livro e formule as suas próprias perguntas. Talvez as minhas estejam respondidas em algum lugar do próprio livro, ou quem sabe ainda, na obra de outros autores.

1. Em Uma história natural da curiosidade não é possível identificar elementos organizadores tradicionais da historiografia: progressão temporal linear e localização geográfica delimitada. Dessa forma o livro desfaz a ideia ainda muito cara de progresso e história. Os exemplos também contribuem para duvidarmos de que hoje seja necessariamente melhor do que ontem. Como reagimos à ideia de progresso das civilizações que nos é vendida diariamente pela mídia ocidental?

2. A maioria dos exemplos do livro está situada no mundo pré-moderno, ou, no início da Modernidade com o surgimento do Renascimento. A Modernidade e o estabelecimento definitivo do paradigma científico, em algum nível, tornou a curiosidade uma questão para especialistas?

3. O livro permite (e pede) uma leitura complexa da construção da figura do autor através do entrelaçamento das passagens autobiográficas com os comentários sobre autores e obras. Ao mesmo tempo vamos nos descobrindo enquanto leitores nesse jogo de espelhos proposto por Manguel. Tudo isso exige uma leitura lenta, que escape do timing do mundo dos negócios. Assim como Alice pula na toca atrás do coelho, nós pulamos em nossos livros e leituras. Há uma ética da leitura que surge da relação complexa entre autor-obra-leitor e realidade?

4. O único elemento que aparece em todos os capítulos é o Dante da Divina comédia, obra que Manguel diz ter tido contato aprofundado tardio. Talvez um dos grandes prazeres com a literatura seja a descoberta – sempre rara – de um livro que nos toque de maneira incomum. Quais livros realmente me tocaram nos últimos tempos?

5. Um grande curioso da América Latina foi Pablo Neruda. O Livro das perguntas é o melhor exemplo. Uma série de perguntas que não pedem respostas, mas dissolvem os nossos esquemas de significados que ordenam o que entendemos como realidade. Lemos com muito prazer o livro de Neruda bem como romances realistas. De alguma forma buscamos sempre temperar o gosto pelo desconhecido com alguma forma mais estável?

6. O último capítulo do livro pode ser lido como uma grande homenagem à ficção. Qual é o papel da literatura neste início de século XXI, já muito marcado pela intolerância e pela violência, pela desigualdade e pela injustiça? Salvo engano vivemos um último suspiro do projeto iluminista moderno de liberdade, igualdade e fraternidade. A literatura entra nesse mundo de que forma?

(foto: Ana Obiols)

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