Os tempos mudaram


Come on writers and critics/

Who prophesize with your pen/

And keep your eyes wide/

The chance won't come again.

Os tempos estão mudando. O anúncio da escolha de Bob Dylan como o premiado do Nobel de Literatura de 2016 provocou ondas de celebração e protesto em todo o mundo – mais do segundo do que do primeiro. Bob Dylan? Desde quando música pop é literatura? A Academia Sueca sai engrandecida ou Dylan diminuído? As respostas, meu amigo, estão soprando ao vento. Mas, sim: letra de música é literatura. De que matéria-prima, afinal, é feito tudo o que se escreve? De perdas, nascimentos, mortes, vitórias e derrotas, de futuro e saudade, de uniões e rompimentos. Ok, por força do casamento de palavras e melodias, a canção pop – esta que um dia Chico Buarque disse estar agonizando – precisa invariavelmente rimar amor com dor. João Gilberto já nos mostrou que mastigar letras pode ser o melhor caminho para o encaixe perfeito do quebra-cabeça, como em Chuvas de Verão, de Fernando Lobo, interpretada por Caetano Veloso (Ressentimentos passam como o vento/São coisas de momento/São chuvas de verão/Trazer uma aflição dentro do peito/É dar vida a um defeito/Que se extingue com a razão)

Mas e Bob Dylan? Poucos compositores são tão avessos à rima quanto ele. Diante disso, o argumento segundo o qual o Nobel foi concedido a um autor de obras sem grande importância, bonitinhas, feitas apenas para ouvir e cantar, não para em pé. Sad Eyed Lady of the Lowlands, do seminal Blonde on Blonde, tem mais de 11 minutos de duração e nenhum refrão adesivo. Mas, pensando bem, um Nobel de literatura para Paul McCartney, de quem somos capazes de cantarolar uma dezena de baladas, seria também uma decisão bonita, mais até do que para Dylan. Não é difícil supor que tenham laureado o poeta de Minnesota justamente porque suas canções não se cantam à toa na vida. Disse a secretária-executiva da Academia Sueca, Sara Danius, ao justificar a decisão: “Ele foi escolhido por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana.” Foi além, ao pôr em cena Homero e Safo. “Eles escreveram textos poéticos feitos para serem ouvidos, declamados, muitas vezes com instrumentos musicais, como Bob Dylan. E até hoje Homero e Safo são lidos e apreciados.”

Safa foi a Academia, ao nomear um beletrista fora do cânone, acenando para novos tempos que estão mudando. Mas Dylan tem 75 anos, não é exatamente um menino inovador, um youtuber que escreve bem, um nome tirado da cartola. Foi premiado, enfim, porque realmente escreveu alguns dos mais belos versos da canção popular. Simples assim. O herói fanhoso dos anos 1960, o introdutor da guitarra no rock, o mais influente compositor de nosso tempo – ele é tudo isso. Mas lê-lo, sem ouvi-lo, é uma justificativa cabal ao Nobel. Não há gente aborrecida capaz de dizer, “não, isso não merece um Nobel”. Campeão da contracultura, talvez Dylan possa até dar uma de Marlon Brando e se recusar a receber a honraria. Não o fará, porque os tempos mudaram.

De que importa, afinal, o modo como consumimos boa literatura?

***

Uma seleção de três canções de Dylan, no original, em inglês, e numa versão para o português de Portugal, do livro Canções. Volume I (1962-1973), com letras traduzidas por Angelina Barbosa e Pedro Serrano.

Chimes of Freedom, de 1964

Even though a cloud’s white curtain in a far-off corner flashed

An’ the hypnotic splattered mist was slowly lifting

Electric light still struck like arrows, fired but for the ones

Condemned to drift or else be kept from drifting

Tolling for the searching ones, on their speechless, seeking trail

For the lonesome-hearted lovers with too personal a tale

An’ for each unharmful, gentle soul misplaced inside a jail

An’ we gazed upon the chimes of freedom flashing

Ainda que a cortina branca duma nuvem num canto longínquo cintilasse

E a hipnótica neblina derramada se fosse elevando lentamente

A luz eléctrica ainda dardejava como flechas, disparadas todas excepto aquelas

Condenadas a perder o rumo ou a ser impedidas de o perder

Dobrando pelos que buscam, no seu mudo trilho da procura

Pelos Amantes de coração solitário com uma história demasiado pessoal

E por cada alma dócil e inofensiva erradamente colocada dentro duma prisão

E nós contemplámos os carrilhões da liberdade a faiscar

It's Alright, Ma (I’m only Bleeding), de 1965

Disillusioned words like bullets bark

As human gods aim for their mark

Make everything from toy guns that spark

To flesh-colored Christs that glow in the dark

It’s easy to see without looking too far

That not much is really sacred

Palavras desiludidas ladram como balas

Enquanto deuses humanos visam a sua meta

Fabricam tudo desde armas de brincar de fulminantes

A Cristos cor de carne que brilham no escuro

É fácil ver sem ter de olhar para demasiado longe

Que não há muito que seja verdadeiramente sagrado

Visions of Johanna, de 1966

Lights flicker from the opposite loft

In this room the heat pipes just cough

The country music station plays soft

But there’s nothing, really nothing to turn off

Just Louise and her lover so entwined

And these visions of Johanna that conquer my mind

As luzes bruxuleiam nas águas-furtadas em frente

Neste quarto os canos de aquecimento apenas tossem

A estação de música country toca baixinho

Mas não há nada, mesmo nada para desligar

Somente a Louise e o seu amante tão entrelaçados

E estas visões de Johanna que conquistam a minha mente

***

E imaginar que tudo isso pode não apenas ser lido, mas também ouvido.

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