Aqui é o Brasil


Aqui é o crime (Patuá, 2016), romance recém-lançado de Artur Rodrigues, traça uma espécie de mosaico de personagens, afetos e circunstâncias que cercam o mundo da criminalidade contemporânea. Estão lá o ladrão de galinhas, o bandido sofisticado, o traficante violento e o segurança pé rapado. Até aí, o óbvio. Mas o livro não tem nada de previsível: aparece também a criança fascinada pelos símbolos do aparelho repressivo, o jornalista ressentido com os destinos da profissão e até um impagável papai-noel com veleidades literárias, em um dos episódios mais engraçados e grotescos do livro.

Cada capítulo leva o nome de uma personagem e o narrador muda. Deveria ser ocioso explicitar, mas é importante dizer que o autor sabe que todas as vezes que a voz narrativa é alterada, é preciso também mudar a linguagem e, mais ainda, a própria forma como os raciocínios são construídos. Temos visto romances contemporâneos que enfeixam quatro ou cinco narradores diferentes, mas fazendo todos se expressarem do mesmo jeito.

O livro recria por vários ângulos o famoso assalto aos cofres do banco Itaú no Center Três da avenida Paulista, quando muita coisa sumiu e bastante gente ficou não apenas chateada, mas bem encabulada: nunca ficou bem esclarecido, até por conta do sigilo bancário, o que foi retirado de lá de dentro. No Brasil, só o caseiro Francenildo tem seu sigilo bancário violado com muita facilidade e, pasmemos todos, não consegue nem ser indenizado por isso.

Não estamos, porém, diante de um romance policial. Não há nada para ser esclarecido em Aqui é o crime. Se fosse assim, o autor teria que ir, mesmo que com sua forma pouco convencional, aproximando-se do butim, do local e da circunstância em que tudo aconteceu. Mas é o contrário, muitas vezes a narrativa acaba bastante distante do cofre, embora nunca da anormalidade institucional e existencial que cerca a criminalidade. O traficante cruel se encontra com o policial consciencioso, aquele que não aceita de forma nenhuma a propina, um exemplo profissional, mas se orgulha de torturar a bandidagem.

O livro não tem nenhum fio amarrado, as dobras ficam de fato soltas e ninguém está preocupado em concatenar nada. Afinal de contas, estamos diante de cofres cujo conteúdo é desconhecido. Se fosse assim, de novo ressalto que seu autor teria que se aproximar de seu objeto, mas sua intenção é mais ampla. Painéis servem para grandes problemas, não crimes menores. Um crime mais efetivo aqui é a estupidez contemporânea, travestida na figura de jovens pretensamente esclarecidos – na verdade tão truculentos e boçais quanto os traficantes que eles repudiam:

“O João, um dos meninos que passaram a me ajudar, diz que eu tenho que melhorar a aparência, a apresentação, pra parecer mais confiável. Vamos passar um pó pra careca não brilhar tanto, tio. Me chama de tio, eu acho engraçado isso, mas tenho uma simpatia por esses meninos. Pra ser sincero, não sou especialista nesse negócio de liberalismo que eles tanto falam. Eles me deram um livro de um tal de Mises pra ler, eu brinquei que as misses que eu conheço não gostam muito de livro.

Começamos a organizar uma comitiva pra ir pra Brasília pra derrubar todo mundo: presidente, congresso, tudo. Só se salva o Bolsonaro.” (pág. 106)

O trecho mostra que lugar é este “aqui” de que o título fala. É o Brasil inteiro que, colocando a mão na massa ou se ausentando, vi

rou um país criminoso. De Vidas secas para a bandidagem grotesca e nossa íntima, essa colagem de relatos formando o nosso solo comum é um dos melhores lançamentos do segundo semestre, equivalente em qualidade, aliás, a outra ótima narrativa de bandidos: Uma selfie com Lenin, de Fernando Molica.

PS: revisando agora esta resenha, lembrei que outro excelente lançamento de 2016, Aqui, no coração do inferno, de Micheliny Verunschk, também tem a polícia e os aparelhos repressivos, além da criminalidade, no centro. Não é à toa...

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Foto: Gisele Pimenta/Folha Imagem.

Marcelo Odebrecht (C), filho de Emílio Odebrecht Neto, foi preso pela Polícia Federal.

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