Viagem com o Google pelas Cevenas


Em 1878, Robert Louis Stevenson atravessou as Cevenas, na França, montado em um burro. No ano seguinte foi publicado o livro que chega agora ao Brasil Viagem com um burro pelas Cevenas (Carambaia, 2016). Trata-se do diário da viagem que durou doze dias, com início em Le Monastier e término em Alais.

A primeira vez que ouvi falar desse relato foi quando entrevistei a crítica argentina Beatriz Sarlo, por conta do lançamento em português de seu livro Viagens – Da Amazônia às Malvinas. Entre tantos relatos de viajantes célebres na literatura mundial, Sarlo dizia que o de Stevenson a havia marcado decisivamente.

Mas o que haveria de tão especial nessa viagem monótona – “[...] pé ante pé, 1 jarda por minuto, e, como enfeitiçados num pesadelo, não se aproximando nem um pouco da meta” – na companhia da jumenta Modestine?

Muita gente que escreveu sobre o livro dedicou toda sua atenção à relação de Stevenson com Modestine. No posfácio da caprichada edição brasileira ocorre o mesmo. Gilles Lapouge apresenta uma série de questões e projeções relativas ao jumento na história da cultura ocidental.[1]

Aqui, o que me interessa é a questão da viagem em seus próprios termos.

Stevenson justifica assim a andança: “Da minha parte, não viajo para ir a algum lugar, mas para ir. Viajo por viajar. A grande questão é mover-se; sentir as necessidades e os percalços da vida mais de perto; sair do leito de penas que é a civilização e encontrar sob os pés o globo granítico cheio de farpas cortantes.”

Ora, a ideia e os motivos para uma viagem apresentados por Stevenson não poderiam estar mais distantes das viagens turísticas deste início de século XXI. O desejo de encontrar uma experiência autêntica passa pelo risco, pelo desconhecido. É o que Beatriz Sarlo considera o mais precioso em uma viagem. É o que ela chama de “a mudança repentina de programa”. Para que isso aconteça é preciso estar com o espírito aberto ao desconhecido, mas também é necessário um bocado de sorte, já que os caminhos hoje estão na maioria das vezes preparados para que o turista evite mudanças repentinas. Para o viajante contemporâneo, qualquer surpresa em uma viagem é sinônimo de contratempo, de sair do roteiro, de perder tempo. Hoje a viagem serve para encontrar exatamente o que foi prometido pelas brochuras das agências de viagem e pelo onipresente e onisciente Google.

Vejamos, se resolvêssemos refazer hoje a viagem de Stevenson, obviamente faríamos algumas pesquisas prévias no Google para encontrar mapas da região, imagens dos locais turísticos, clima, aluguel de carro, hotel:

E, obviamente, vocabulário mínimo para “situações de emergência”:

Stevenson não contava com essas ferramentas. Quero sugerir a hipótese de que sua experiência como viajante está muito mais próxima daquela da contracultura norte-americana: cair na estrada. Ele foge da vida administrada da civilização com todos os seus projetos e projeções futuras. Stevenson quer viver o presente: “E, com um presente tão imperioso, quem é capaz de incomodar-se com o futuro?”

Impressiona notar que esse viajante do século XIX possa soar tão beatnik assim! Em Stevenson também encontramos o deslumbramento com a natureza, outra questão central para os hippies da década de 1960 que buscavam morar em comunidades distantes dos grandes centros urbanos.

Dormindo na relva, Stevenson relata um despertar mágico que ocorre durante a madrugada em meio a natureza: “Com quais chamados inaudíveis, com que toque delicado da natureza não são todos esses dorminhocos trazidos na mesma hora à vida? Acaso as estrelas aspergem uma influência, ou partilhamos algo dos sentimentos da mãe terra sob os nossos corpos em repouso? [...] E alguns espíritos tiram um prazer especial ao refletir que compartilhamos um impulso com todas as criaturas do campo na vizinhança, que talvez tenhamos escapado da Bastilha da civilização e nos tornado, por ora, um reles animal manso e uma ovelha do rebanho da natureza”.

Depois dessa experiência autêntica, Stevenson deixa moedas pela relva para pagar à Natureza pela incrível hospedagem. Fugir da civilização, vivenciar o presente, entrar em contato com a natureza, abrir mão do dinheiro. A mítica Route 66 de alguma forma estava sendo trilhada por esse protestante escocês no interior da França em 1878.

Experiência semelhante hoje já não é possível. A forma de vida hippie foi completamente capturada pelo mercado e transformada em produtos: dos biquínis com a estampa de Che Guevara à ideia de alimentação saudável e respeito com a natureza, tudo passa pelos cartões de crédito. Diferentemente do slogan da campanha publicitária do MasterCard, que mostrava que algumas coisas (experiências únicas) não tinham preço, e que para todas as outras existia o cartão de crédito, hoje tudo tem preço.

Mas ainda buscamos, melancólicos, por alguma experiência. Sarlo fez sua última viagem para as Malvinas. Provavelmente percebeu que o “salto do inesperado” é tão raro de acontecer que talvez não valha a pena enfrentar a selva do turismo globalizado.

O livro de Stevenson nos mostra uma dupla perda de um mundo mais livre: o que ele nos relata e o que podemos projetar a partir de sua experiência na contracultura das décadas de 1960 e 1970. Talvez, para nós modernos que não aceitamos inteiramente a vida administrada do capitalismo globalizado, toda e qualquer possibilidade de experiência passe pelas viagens de segunda mão promovidas por livros e filmes. O espírito aventureiro de Stevenson e Sarlo, e de Kerouac e Dylan, ainda mexe conosco. Aguarda, adormecido, na expectativa de que tenhamos a coragem de cair na estrada novamente.

Viajando por meio de computadores Mac Book Air de última geração com ótima conexão wi-fi, não chegamos nem perto da experiência que Stevenson teve montado na velha e preguiçosa jumenta Modestine. Só nos resta ler o seu belo livro.

***

[1] Lapouge assim descreve Modestine: “Ela é bonita, corajosa, cinza como um rato e só um pouco maior que um deles”. Na verdade Stevenson diz que Modestine era cinza como um rato e não muito maior que um cão.

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