Com os pés na realidade


A leitura de Reportagens, de Joe Sacco, deixa uma enorme sensação de maturidade. O autor reúne trabalhos de menor extensão, todos publicados na imprensa, realizados através de seu característico traço seguro, os contornos bem definidos e o sombreado dominante na área do quadrado. Como de hábito, ele escolhe questões geopolíticas bastante relevantes. Aqui está o conflito Israel-Palestina, já conhecido de seus leitores, bem como as outras crises no Oriente Médio e o papel agressivo e cínico da política internacional norte-americana.

Sacco se apresenta desde o início como jornalista. Ao mesmo tempo, porém, sabe que qualquer imparcialidade é ilusória. Não existe uso de linguagem (qualquer que seja a linguagem e o uso) que não imponha escolhas, partidos e opções. Aqui está portanto seu principal traço de maturidade: ele sabe de que lugar fala. Precisando fazer escolhas, o autor é claro e apresenta sua posição: está ao lado daqueles que sofrem. Nada da balela de alguém que iria apenas mostrar “o que está acontecendo”...

A propósito, vale dizer que todos que defendem seu ofício buscando essa hipotética neutralidade na verdade produzem um discurso conservador.

Não é o caso, por óbvio, de Joe Sacco. Na reportagem sobre expedições militares no Iraque, o foco está sobre os soldados rasos, recrutados nas ruas e aldeias longínquas para substituir a tropa americana no confusão que os EUA criaram. Quanto aos refugiados chechenos, está claro o desastre humanitário que as mentiras russas causam.

O livro assume um tom crescente de tensão, ao menos para quem conhece a obra de Sacco. Começamos na Palestina, ficamos um longo tempo no Oriente Médio e na Rússia para chegarmos então aos dois melhores trabalhos, para mim uma certa novidade na obra dele: a crise dos refugiados e um mergulho aterrorizante na política de castas da Índia contemporânea.

Aqui, a análise da crise de imigração, provavelmente o principal desastre humanitário do mundo contemporâneo, não lida com a rota mais conhecida, que parte do Oriente Médio, atravessa a Turquia e entra na Europa pelo Leste. Sacco esteve na Ilha de Malta, que recebe refugiados africanos, muitos em busca de travessias rumo à Itália.

A reportagem vai às origens do problema, que passam obviamente pela pobreza, mas também contempla as perseguições políticas. Apesar de muitos estarem na pequenina ilha de passagem, outros refugiados acabam ficando por ali, o que faz a tensão crescer e os conflitos com a população local se tornarem inevitáveis. Aos poucos, Sacco nota como muitas vezes os discursos inicialmente apenas medrosos e preventivos se tornam racistas e potencialmente fascistas.

A última reportagem do livro diz respeito à Índia e é a que mais de perto pode ser considerada uma denúncia, embora todas tenham esse viés. Sacco tenta mergulhar no interior da casta mais isolada da sociedade, observando como conseguem viver em um contexto de tanta discriminação. Enquanto nota o ambiente corrupto e assiste ao cotidiano de pessoas que dividem, literalmente, sua refeição com os ratos, passa a ser perseguido pela elite local, que tenta impedir sua aproximação. No final o que resta é a impressão de absoluta violência e tratamento opressivo.

Por fim, vale notar que o olhar de observador de Joe Sacco jamais o coloca em algum tipo de posição privilegiada ou, mais ainda, distante dos acontecimentos. Quem está lá não é nenhum traço neutro, mas o quadrinista ele mesmo, com rosto e nome próprio, em meio ao que tenta transmitir:

Essa é outra enorme marca de maturidade desse trabalho, a de saber que ocupamos um lugar a partir de onde falamos. Já o que falamos muitas vezes é bem mais do que ideologia, chega a ser inclusive uma questão de caráter.

Aqui, é dos bons.

***

REPORTAGENS (2016)

Joe Sacco

Título original: JOURNALISM Tradução: Érico Assis Páginas: 200 Formato: 19.50 x 26.50 cm Peso: 0.503 kg Acabamento: Brochura Lançamento: 12/08/2016 ISBN: 9788535927313 Selo: Quadrinhos na Cia

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