Max Altman: presente!


A revista Peixe-elétrico presta homenagem ao combativo Max Altman, falecido no dia 19 de dezembro de 2016. Abaixo, texto de seu filho Fábio Altman, lido durante o velório.

***

Em primeiro lugar gostaria de agradecer à Lilian Starobinas e ao amigo e médico Jairo Degenszajn por prontamente terem aberto as portas para essa homenagem aqui na Casa do Povo.

E nem é preciso ressaltar a emoção de estarmos todos aqui, reunidos neste endereço onde boa parte de nós cresceu – nas atividades da própria Casa do Povo, do Teatro TAIB, e do Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, o nosso Scholem.

Aqui aprendemos que a real tradição judaica é o humanismo, como inúmeras vezes disse meu pai.

Gostaria de contar algumas histórias, reavivar algumas lembranças, que tratem sim da universalidade das questões que tanto entusiasmaram Max Altman em seus quase oitenta anos de vida, mas tentar pincelar, aqui e ali, alguma coisa de seu cotidiano mais íntimo – e nem por isso menos político.

***

Gustavo Altman, meu filho, de dezoito anos recém completados, participou na semana passada da formatura do terceiro ano colegial, feito no colégio Santa Cruz. Meu pai já estava no hospital. No Instagram, a Bia, minha mulher, e madrasta do Gustavo – ou “boadrasta”, como ele mesmo gosta de lembrar, e que palavrinha ruim “madrasta” – celebrou aquele mágico momento em que crianças viraram adolescentes; e adolescentes, adultos.

O que ela escreveu, carinhosamente como sempre, foi:

“O Gustavo se formou no Ensino Médio. Na cerimônia, os alunos cantaram Belchior. Derrubei algumas (muitas) lágrimas naquela parte que diz “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Daqui a alguns anos você vai ver que essa frase é muito verdadeira, Gu.”

Estávamos todos, claro, a Bia, os dois irmãos do Gu, o Daniel e a Clarice, a Silviane, mãe do Gustavo, emocionados com aquele passo e com a ausência do avô.

“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Sermos os mesmos e vivermos como nossos pais é muito mais do que a faixa do Corinthians aqui exposta – e convém lembrar que o meu irmão Breno não gostaria de vê-la ali, embora ele mesmo tenha feito generosamente a sugestão de pô-la onde está, ao lado da bandeira do PT e da do PCB.

A canção do Belchior – “Como nossos pais” – me fez lembrar, naquela noite da formatura e em tantas outras antes dela, do fascínio de meu pai com o show Falso Brilhante, da Elis Regina, de 1976, que ele viu mais de uma vez. Os figurinos do espetáculo eram do saudoso Naum Alves de Souza, naquele tempo professor de artes plásticas do Scholem Aleichem, aqui mesmo. Meu pai adorava a Elis Regina, dizia ser dela a voz mais bonita e afinada do Brasil, com aquela assertividade que só ele tinha, a certeza absoluta, e que ninguém ousasse rebater. Mas ele tinha razão.

Trato aqui da relação do meu pai com coisas, digamos, um pouco mais mundanas – MPB, Corinthians, embora o Corinthians não seja mundano – porque de temas mais abrangentes, os que realmente importam, tenho certeza que meus irmãos, além dos amigos do PT e do PCB, tratarão de estender aqui neste salão. Breno e Rogério dirão, como sei que dirão, que Max Altman passou a vida toda com seus amigos, com os pais, com seu irmão, o Carlos, com as noras, os netos, sogras e sogro, com minha mãe, depois com a querida Líria e nosso irmãozinho mais novo, o Rodrigo, levando uma única ideia na cabeça, que de tão bonita nunca soou monótona: socialismo.

Um modo de entender como ele reagia ao mundo é dar uma rápida passeada pela internet, pelas mensagens que trocávamos com frequência.

Em setembro passado, o Gustavo enviou um e-mail ao avô, do Rio de Janeiro, onde trabalhava durante a Paralimpíada.

Nesses termos:

“Oi, vovô.

Segue, em anexo, o texto da Márcia Malsar, a senhora que caiu durante a cerimônia de abertura.

Depois me diz o que achou. Beijos. Gu.”

A Márcia Malsar, para quem não lembra, e para reafirmar o que disse o Gu, foi aquela senhora que, a caminho da pira, tropeçou e caiu com a tocha. O Gustavo escreveu um texto muito bonito a respeito dela.

A resposta do avô foi imediata, e nem é preciso interpretação teatral para ouvi-lo dizendo o que leio agora, cheio de pontos e exclamações:

“Gustavo,

Li e reli.

Emocionante.

Excelente.

Como falei por telefone: essa história merece um bom script e roteirista – que pode ser v. mesmo, auxiliado pelo teu pai – tudo a ser transformado num belo filme. Um longa mesmo, não um documentário.

Estou orgulhoso. Depois eu te conto uma historinha dos Altman.

Beijo. Vô Max.”

Nunca soube, talvez nunca saibamos, a que historinha ele se referia, mas há algumas pistas em outros correios eletrônicos que ele enviara recentemente.

Escolhi um deles, de mais ou menos um ano atrás.

O e-mail dizia o seguinte:

“Se clicarem em aqui [e havia um link] vai aparecer uma série de títulos, entre eles O Dono da Bola – Mario Lago.

Cliquem nesse título e vai aparecer Zodja Pereira declamando um conto de Mário Lago do livro O povo escreve a História nas paredes, editado em 1948.

E aí, dizia meu pai naquele e-mail,

“Conto a minha história.

A convite, Mário Lago estava visitando as instalações da Casa do Povo cuja construção ainda não estava concluída. (o prédio da instituição seria inaugurado em 1953 e abrigaria a Escola Scholem Aleichem e mais tarde o Teatro TAIB.) Mario Lago faria uma palestra e foi recebido por uma ampla assistência, acomodada em cadeiras avulsas dispostas num amplo espaço.

Corria o ano de 1950, não lembro exatamente o mês. Mario Lago já era conhecido nacionalmente pelas suas canções – Amélia, Número Um, Aurora, Atire a Primeira Pedra, Nada Além, Dá-me tuas mãos, etc – e por sua intensa atividade artística e política na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e nos palcos.

Tinha vindo a São Paulo reunir-se com Túlio de Lemos e Oduvaldo Vianna – como habitualmente fazia – para tratar de questões artísticas e políticas. Era o famoso trio de grandes artistas. Era comum à época, antes de palestras, como a dar as boas vindas ao conferencista, uma apresentação artística alusiva ao tema da conferência ou ao conferencista. Coube a mim, então com 13 anos, declamar O Dono da Bola. É um belíssimo texto.”

Continuo, ainda nas palavras do meu pai:

“São passados 65 anos e a lembrança do acontecido não é muito clara. Recordo-me de ter sido muito cumprimentado pelo Mário Lago que afirmou ter sido a primeira vez que o conto era declamado publicamente.

Enfim, é um pouco de minha memória.”

Evidentemente, não sei declamar como meu pai sabia, mas gostaria de ler alguns trechos de O Dono da Bola, do Mario Lago. Começa como quem nada quer, quase pueril, e termina com um soco no estômago.

Quando o Juca concordava,

a garotada tomava

conta da rua e armava

o campo de futebol.

Juca era o dono da bola, Juca era o dono do jogo. Fazia o que bem entendia e quando alguém discutia o Juca guardava a bola.

Ninguém brigava com o Juca, Juca era o dono da bola. Na hora de escolher o time, era o Juca quem primeiro dizia os meninos que queria pro time dele.

Se o capitão do outro time discordava, o jogo nem começava, o Juca guardava a bola. [...] O Juca dava rasteira, canelada, cabeçada, aleijava a garotada e o juiz não marcava nada.

O tranco mais delicado dado no Juca era pênalti E quando alguém discordava... o Juca guardava a bola.

Ninguém brigava com o Juca, Juca era o dono da bola.

Um dia, o Alfredinho achou

que aquilo era desaforo.

Driblou o primeiro, driblou o segundo, driblou o terceiro, o quarto...

O Juca xingou a mãe dele.

Ele meteu a mão no Juca (a garotada ficou espantada). O Juca avançou pra ele, ele tornou a dar no Juca (a garotada ficou animada)

O Juca avançou outra vez. ele então jogou o Juca no chão (a garotada foi toda em cima do Juca)

Quando Alfredinho voltou pra casa

o pai estava se queixando que o dinheiro que ganhava não chegava pra alugar outra casa ao menos com mais um quarto pra botar seus nove filhos; para comprar mais comida, feijão pra seus nove filhos; para comprar umas roupas pra vestir seus nove filhos;

– Papai, por que o dinheiro que você ganha não chega

– É pouco.

– Por que é pouco? – Porque o patrão paga pouco. – Papai, por que vocês não pedem mais ao patrão?

– O patrão despede a gente,

a gente fica sem pão.

– Por que o patrão despede? – Porque ele é o dono das fábricas,

porque ele é dono das máquinas. – Papai, por que vocês

não fazem com ele o mesmo que nós fizemos com o Juca? – Quem é o Juca? – Juca era o dono da bola.

– Que foi que vocês fizeram? – Tomamos a bola dele.

***

Meu pai passou a vida tentando, não apenas metaforicamente, tomar a bola de quem se achava o dono dela.

Nos últimos anos, mais precisamente neste terrível ano de 2016, os donos da bola deram rasteira, fizeram gol de mão, gol impedido. Tomaram na marra a bola que haviam perdido na democracia.

Max Altman já não pode recuperar de volta a bola que nos levaram – mas deixa a todos um legado inesquecível, um compromisso: lutar sempre e cada vez mais, por um Brasil menos desigual, um Brasil que aos poucos alcançávamos e que os jucas donos da bola trataram de surrupiar. Mas tenho certeza: na lembrança do avô, o Tom, o Kuarahy, filho da Daisy, o Théo, a Louise, o Theo II e o Antoine, da Agnès; a Vera, o Gustavo, o Daniel e a Clarice, os dois menores que perderam o avô tão cedo, mas que ainda têm dois avós maternos espetaculares; os sobrinhos da Flávia, todos saberão brigar por um Brasil e por um mundo melhor, em português ou em francês. Se não fosse assim, se não fosse para lutar por justiça, não valeria ter vivido 79 anos tão felizes e profícuos. Muitas vezes ele nos disse que tivera ao lado da Líria dez anos muito bons, depois de curado da leucemia pelo doutor Luis Fernando Pracchia. Disse terem sido anos amorosos, os melhores, de produção intelectual e viagens. Sigamos com esse exemplo. Como nossos pais.

Sentiremos saudade, a saudade que sentimos da minha mãe, a Raquel; da Fró e do Nê, como a Lia bem sabe, mas as lembranças nos servirão de alimento cotidiano.

Não terá sido por acaso que ele deu seu último suspiro ouvindo Les Amants de Paris, de Edith Piaf, que a Flávia pôs ao pé do ouvido dele no exato momento da morte. Naquele segundo, meu irmão Rogério voava de Paris para São Paulo. E lembro que Edith Piaf, que ele tanto gostava, nasceu num 19 de dezembro, exatos 101 anos antes da morte do meu pai. A inesgotável mina de boas histórias e conexões, um ponto a puxar o outro, é uma herança de meu pai. Agora é conosco.

Nunca vi um homem com tanta consciência de seu tempo, e a exata noção de que lado estar, sempre do lado correto.

Max Altman: presente!

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