Pós-verdade pra quê?


Vamos ler por toda parte em 2017 o termo “pós-verdade”. Essa moda começa pra valer na Inglaterra. Todos os anos a Oxford Dictionaries, departamento da Universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários, elege a palavra do ano para a língua inglesa. A de 2016 é “pós-verdade” [“post-truth”]. Rapidamente os brasileiros compraram a expressão e começamos a encontrá-la aqui e ali, em revistas e nas redes sociais.

Segundo o presidente da Oxford Dictionaries, Casper Grathwohl, “Dados que o uso do termo [pós-verdade] não mostrou nenhum sinal de desaceleração, eu não ficaria surpreso se “pós-verdade” se tornasse uma das palavras definidoras dos nossos tempos”. (Não conheço os métodos para medição do desempenho de certa palavra, mas isso pouco importa para esta rápida reflexão.)

Segundo a mesma instituição, “pós-verdade” é um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

O grande exemplo usado para justificar a consagração do termo é a eleição de Trump com sua campanha recheada de mentiras. E ainda, o Facebook seria o grande veículo propagador dos fatos falsos que seriam tomados como verdadeiros por questões subjetivas e pessoais. (As redes sociais teriam maior alcance do que a Fox, por exemplo?)

O termo “ideologia” é de difícil definição. (Aos interessados recomendo o pequeno grande livro O que é ideologia, de Marilena Chauí, como porta de entrada ao assunto.) Mas resumindo a corrente crítica do século 20 que a partir de Marx pensou o termo, é possível dizer que ideologia é uma visão de mundo produzida pelos que detém o poder, fruto de sua posição privilegiada, invertendo causa e efeito e assim transformando cultura em natureza e contribuindo para afirmar que as coisas são como são e nada pode mudá-las. Essa visão se espalha como senso comum por toda a sociedade e sua boa aceitação atesta o sucesso de determinada ideologia.

Partindo dessa ideia tão poderosa, toda uma produção contraideológica tratou de buscar desvendar os mecanismos de exclusão das sociedades modernas. Ou seja, temos aqui um conceito forte e mobilizador de transformação social.

Já pós-verdade, um termo que ignora as classes sociais e seus interesses, e tampouco explica de onde vem as tais crenças e como as mentiras são produzidas e com qual finalidade, funciona apenas como uma palavra oca na qual podemos enfiar todas as nossas frustrações políticas. No Brasil isso é bastante evidente. Ambos os lados têm certeza que o outro só produz mentiras e que seus seguidores acreditam num monte de bobagens por conta de crenças pessoais. (O jogo da pós-verdade sempre empata!)

Me parece que seria muito mais interessante pensar a desastrosa e lamentável eleição de Trump, por exemplo, em termos ideológicos de produção de discursos, do que apenas afirmar que ele mentiu e que as redes sociais são as grandes responsáveis por potencializar essas mentiras. Talvez descobríssemos que uma figura como Trump é uma cartada desesperada para tentar manter a mentira ideológica de que o mundo está muito ruim para todos, e que os culpados são os iludidos que colocaram suas fichas num mentiroso.

Pós-verdade pra quem?

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