À sombra da civilização


Viva!, romance de Patrick Deville, chega ao Brasil como um livro que trata dos últimos anos de Trótsky no México. A capa tem um retrato do revolucionário russo, o que confirma a proposta biográfica. Parece um título bastante apropriado para marcar o ano do centenário da grande Revolução de 1917.

O livro faz parte de um projeto que o autor definiu como “romance sem ficção”. O que nos remete de cara ao bom e velho “romance histórico”.

Minha proposta nesta curta resenha é apresentar o livro por um caminho diferente do proposto até aqui.

Após anos de pesquisa, leituras, entrevistas e visitas aos locais icônicos, Deville surpreende o leitor com um livro breve – são duzentas páginas – e construído com uma narrativa bastante diferente da típica dos romances históricos.

Há três personagens principais: Trótsky e o autor de À sombra do vulcão, Malcolm Lowry; e um país que amarra essas trajetórias, e tantas outras que aparecem pelo livro, o México.

Viva! é composto por capítulos curtos, sem uma conexão forte entre eles, em termos de sequência narrativa e desenvolvimento temporal. O tempo avança e recua por todo o livro e uma série de personagens surge rapidamente para nunca mais aparecer.

A escolha de Trótsky e Lowry, salvo engano, representa dois modelos, ou melhor, duas ideias de revolução: a social e a comportamental-estética. A primeira pensando em transformar a sociedade como um todo e assim englobar o indivíduo, e a segunda partindo de questões pessoais que se desdobrariam por setores da sociedade.

Aqui vale uma pausa. Deville entra numa questão quente do debate das esquerdas nos nossos tempos: o valor das revoluções comportamentais motivadas por minorias (jovens, mulheres, negros, gays etc). O autor não faz nenhuma distinção de valor entre as duas. Ou melhor, as apresenta sob o mesmo impulso utópico e com iguais consequências para os que embarcam nessas locomotivas revolucionárias. As revoluções sociais do século XX, inspiradas em ideais de esquerda, via de regra, ao não lidar com as questões comportamentais, foram incapazes de criar sociedades de fato igualitárias. Ou melhor, só conseguiram essa proeza massacrando aqueles que não se ajustavam ao projeto principal. Para exemplificar a atualidade do debate, uma das capas da revista TIME deste início de 2017 destaca a marcha das mulheres em protesto ao presidente Trump e como ela criou a fagulha para um movimento muito mais amplo. Não é uma receita, poderíamos citar exemplos desse tipo de movimento que foi incapaz de lidar com questões para além das identitárias e acabaram encontrando um fim nelas mesmas, mas certamente estamos falando da grande questão das esquerdas neste início de século XXI: um projeto de sociedade radicalmente igualitária.

Voltemos ao livro. Sim, é um romance. Mas o que seria um romance sem ficção? O que o autor encontra, as camadas profundas de ideias e emoções de toda uma geração, aproxima o livro da área da história das mentalidades. Aquela difícil pesquisa histórica que busca o que está soterrado por todas as estruturas possíveis, um certo inconsciente coletivo, mas historicamente localizável e socialmente definido. Uma área de estudos que é o horror de psicólogos e historiadores. Muito concreta para freudianos e muito etérea para marxistas...

Seguindo essa ideia, Deville, em seu romance, oferece uma narrativa extremamente leve e sofisticada, com enorme domínio dos fatos, que revela a mentalidade utópica do século XX que animou todo tipo de revolução à esquerda.

Confesso que para mim é ainda difícil equiparar Trótsky a Lowry, mas uma das sutilezas do livro é mostrar como a leitura constante e o desejo pelo tranquilo trabalho intelectual, foram motores decisivos na formação e no impulso revolucionário do herói perseguido e morto pelos capangas de Stálin no México. Ou seja, sem esse desejo estético, que no fundo é o impulso de criar outra forma (de vida), talvez os grandes gestos revolucionários nunca teriam surgido. (Não é mais possível ainda hoje pensar a cultura como reflexo da sociedade...). A única passagem em que a diferença entre os dois modelos de revolucionário ganha relevo é no encontro entre Breton (o grande articulador dos manifestos surrealistas) e Trótsky. Ao estar de frente com O revolucionário, Breton trava. Não consegue sequer redigir um manifesto! Mas aqui a anedota é muito mais individual do que exemplar.

O livro é complexo assim como os problemas levantados. Não há respostas fáceis. As revoluções (sociais ou comportamentais-estéticas) motivadas pelo paradigma civilizacional europeu valeram (valem?) a pena? Para tentar responder a essa questão surgem Artaud e o subcomandante Marcos. "Marcos é o nome de um colega que morreu, e sempre usamos os nomes daqueles que morreram nesta ideia de que um não morre, se a luta continuar", explica o subcomandante Marcos, que nasceu em Tampico em 1957, e se tornou o principal porta-voz do movimento revolucionário pós-moderno Zapatista. Marcos reafirma assim o mote principal de Trótsky: a revolução sem fim. Encontramos aí um grande fio condutor do desejo de reformar o projeto moderno por dentro e, dessa forma, incluir os excluídos na festa da modernidade. Já Artaud sugere que saltemos do trem revolucionário para nos sentarmos ao lado dos índios apenas observando calados a modernidade e sua civilização passar (É curioso que essa ideia de Artaud de que a modernidade vai passar, encontra ressonância no ultra-conservador papa Ratzinger, que afirmou que a Igreja não deveria tentar acompanhar a modernidade porque esta é passageira, aquela, não).

O fato é que não sabemos o meio correto para alcançarmos uma sociedade mais justa. Mas uma coisa é certa, há um enorme preço a se pagar pelo mergulho nas incertezas revolucionárias, sejam elas sociais ou estéticas. E Deville presta homenagem a esses grandes homens que seguem iluminando o nosso desejo de uma outra forma de vida, com um chamado à ação: VIVA!

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Viva!

Patrick Deville

Editora 34

Tradução de Marília Scalzo

Apresentação de Alberto Manguel

Coleção Fábula

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