Para onde vamos?


Há algumas semanas a Editora Âyiné colocou no mercado uma coleção de doze livros de ensaios, alguns bastante impressionantes. Entre os autores, Paul Valéry, E. Cioran, Robert Musil, Gertrude Stein e Alfonso Berardinelli. Apresento aqui Sobre o exílio, um conjunto de três textos do poeta russo Joseph Brodsky, traduzidos por Denise Bottman. Tratam-se dos dois discursos proferidos em 1987, durante as cerimônias de entrega do Prêmio Nobel, e a conferência “A condição chamada exílio”, realizada por ele em Viena no final do ano seguinte.

Os textos se organizam basicamente em dois eixos, que sempre se entrecruzam: a difícil situação do exilado e a atração que Estados podem exercer em artistas e intelectuais (e portanto a política partidária e íntima do poder). Hoje, trinta anos depois, com a crise dos refugiados intensificada ainda mais com as tresloucadas decisões do governo Trump, e o retorno ao palco dos políticos de natureza conservadora e autoritária, o livro de Brodsky toma enorme fôlego.

Por falar em exílio, eu tinha decidido que se alguém como Jair Bolsonaro chegar ao poder em 2018 (ou antes...), meu novo país de residência seriam os Estados Unidos. Nesse momento, com a nova conformação política, perdi mais esse destino. De qualquer maneira, minha posição é confortável. Não vou fugir nadando, por exemplo. Assim, divido o mesmo constrangimento de Brodsky. Com o mundo tomado por pessoas que fogem para não perder a vida, é “muito difícil falar com honestidade sobre as dificuldades do escritor no exílio” (Pág. 15). Enfim, salvo situações bastante específicas, que parecem estar ocorrendo nos aeroportos internacionais dos Estados Unidos agora mesmo, os intelectuais não são os que enfrentam as maiores dificuldades na condição de fugitivos, embora sejam sempre escolhidos para falar dela.

Aqui, outra surpresa do livro: apesar de muito distante da questão, lateralmente Brodsky discute um dos conceitos mais importantes do nosso tempo, o de lugar de fala. Para ele, aliás, o lugar de privilégio do escritor exige cuidado. A política oferece muitos atrativos, chega inclusive a proteger a integridade física de muitos dos que se aproximam dela, embora talvez não para sempre, como Eike Batista e Sergio Cabral devem estar percebendo. O escritor, caso queira continuar com sua capacidade crítica afiada e eficaz, deve se afastar do poder.

Isso não quer dizer, evidentemente, que a atividade literária esteja distante da política. Ao lançar mão da linguagem, o escritor arma uma ponte em direção ao leitor. As duas pontas ocupam espaços equivalentes, com um lado criando mecanismos e o outro decodificando-os e oferecendo significados para eles.

Concordo inteiramente com Brodsky. Quando a ponte corre o risco de cair, é hora de mudar e se distanciar daqueles que ameaçam implodi-la. Não se trata, obviamente, de fuga ou covardia. O artista luta com as armas que tem, como inclusive qualquer outra pessoa. Como já fui parar na polícia por causa de literatura, claro que tenho uma lista de destinos para fugir. Ela vem ficando cada vez menor. Até por isso, Sobre o exílio de Joseph Brodsky me pareceu um livro fundamental.

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Mais informações sobre o livro podem ser encontradas aqui.

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