O medo do vazio


O conta-gotas é um instrumento científico comprometido com a exatidão e o rigor. Com ele medimos, por exemplo, a dose do remédio que, se mais ou menos, não cumprirá direito a sua função. O conta-gotas é também um instrumento parcimonioso, que não lida com grandes volumes, e que opera melhor se manipulado com atenção e paciência. E talvez ainda esconda certo pendor contemplativo, ele que se dispõe a contar gotas num mundo possuído pelo espetáculo e pela catástrofe (tantas vezes coincidentes).

Neste livro, Pedro Meira Monteiro conta gotas em meio aos estilhaços de sentido desta nossa Babel. Falamos, falamos e continuamos falando, o que é o melhor modo de não ouvir, a nós mesmos inclusive. Nosso falatório compulsivo esconde o medo do silêncio e do vazio, e nos mediocrizamos para não correr o risco de habitar esses abismos. Hiperpovoamo-nos, tamanho o pavor que temos da solidão.

Porém, “a arte é o espaço próximo à dissolução,” Pedro escreve. Suas máximas (que são, nesse sentido, mínimas), estão atentas ao “terreno confessional ou moralizador” do gênero e optam, então, por se aproximar do espaço movediço e frágil da poesia. Sem medo de desconfiar inclusive do que afirmam. A sabedoria tem o direito de permanecer no horizonte, desde que não tenhamos a ilusão de alcançá-lo (“quanto mais sofregamente o buscamos, mais o sentido se afasta de nós”).

Que não criemos asas de papel crepom: “Não há um só esconderijo fora do mundo.” A vida se cumpre na vida e em suas contradições. E este Conta-gotas nos recorda que na pincelada de experiência do pequeno e do efêmero – que, como o haicai, sugere, sem enunciar – reside uma verdade tão mais poderosa quanto mais se assume ponto de interrogação.

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Conta-gotas: Máximas e reflexões

Pedro Meira Monteiro

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