Além do muro


Régis Bonvicino teve sua produção poética mais recente selecionada e publicada nos EUA, vertida para o inglês por Charles Bernstein, Odile Cisneros e Thérèse Bachand. Aproveitamos a oportunidade e conversamos com o poeta sobre Bob Dylan, Trump, muros, mercado, gigantes e anões, e, claro, poesia. Aqui o material sem cortes:

Tiago Ferro: A escolha de Bob Dylan para o Nobel de Literatura reacendeu um debate que parecia já ultrapassado: a distinção entre alta e baixa cultura, pop e erudito, poesia e letras de música. Como você recebeu a notícia do Nobel e de que forma avalia toda essa discussão que voltou a dominar o campo cultural?

Régis Bonvicino: Bob Dylan é um caso à parte, especial, talvez único, mas o Nobel de Literatura deveria ter sido outorgado a um escritor tout court. No entanto, por exemplo, José Saramago é bastante tépido. Melhor Dylan do que ele, mil vezes. Dylan é letrado, ele ia às leituras de poesia do Village em Nova York. Leu muita poesia erudita, recupera em alto nível a figura do bardo crítico, dos trovares em geral, com textos elaboradíssimos, e é um cara que não se alinha aos estereótipos: é independente. Esse mix de erudito e popular (não pop) atingiu o seu pico nos anos 1960. Em Bob Dylan, a “viola” não atrapalha. É um caso à parte, sem igual. Além disso, os Estados Unidos possuem um circuito extenso de música erudita, diversamente do que ocorre no Brasil. Bob Dylan não “supre” carências, ele é.

Existe óbvio a distinção entre alta e baixa cultura, entretanto, a cultura popular é ou era rica – a pop é vazia e não deveria ser chamada de “cultura”. Afirmar que não há diferença entre alta e baixa cultura é preconceito contra a alta cultura, é ser anti-intelectual. No Brasil, persiste também essa discussão sobre letra de música e poema; a MPB foi pujante e visível nos anos 1960 e 1970 e há grupos interessados em perpetuar essa indistinção talvez para se valorizar no mercado. Poesia é um projeto de vida, de uma vida, que exige coisas diversas daquelas que são demandadas de um músico pop. É preciso distinguir sem estigmatizar.

TF: Pela segunda vez você tem sua obra poética publicada nos EUA. O título do livro, Beyond the wall [Além do muro], nos remete automaticamente à eleição de Trump com seus planos de fechar fronteiras, construir muros e culpar os estrangeiros por todos os problemas daquele país. Qual a sua expectativa ao ter sua poesia publicada por lá nesse momento bastante delicado?

RB: O título do livro foi dado pelo editor Douglas Messerli, de Los Angeles. As traduções que compõem o volume foram feitas de 2003 a 2016, de modo vagaroso e consistente, por uma excelente tradutora como Odile Cisneros e um grande poeta como Charles Bernstein. O contexto sempre foi adverso, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil. Você já assistiu ao filme O trovador Kerib, de Sergei Parajanov? O macarthismo foi uma espécie de ditadura feroz. Quando um poeta está bem traduzido para o inglês, seus leitores passam a ser leitores esparsos do e pelo mundo todo. Eu não tenho altas expectativas de “recepção crítica” mesmo quando eu lanço um livro aqui: tenho expectativa de ter leitores não escritores, puramente leitores. Mas Beyond the wall, além do muro, vale para cá, para os muros daqui também, onde os horizontes, mantidos fechados, servem a esses grupos meio mafiosos. O Brasil é meio autofágico e então me sinto bem com o livro. Nesta década, tive, em termos internacionais, um livro publicado na China obviamente com poemas vertidos (Blue Tile, 2011) e outro agora publicado nos Estados Unidos – um sinal de reconhecimento ao meu trabalho. Nos Estados Unidos ele teria que passar por resenhas em revistas como Harvard Review, Review: Literture and Arts of the Americas, Aufgabe, BOMB Magazine etc. É o que eu espero.

TF: Indústria cultural, pós-modernidade e sociedade do espetáculo não criam um panorama muito convidativo para um gênero artístico como a poesia. Ao mesmo tempo abre uma margem enorme ao deixá-la ainda mais livre do ritmo do mercado. Como você entende o local da poesia hoje?

RB: Creio que todas as artes, embora tenham espaço de mídia, passam por um certo escanteamento, por uma perda de centralidade. Não há mais um Luchino Visconti ou um Roberto Rosselini no cinema, por exemplo. A perda de centralidade – ao contrário do que ocorre hoje – poderia possibilitar respostas artísticas contundentes. O local da poesia é a estética, a crítica, a reflexão, a rua. O inédito. A utopia.

TF: Sua obra é essencialmente política. Política em seu sentido mais radical, porque formal e não panfletária. Nos últimos anos no Brasil as narrativas políticas congestionaram praticamente todos os canais de criação de significados. Com a dificuldade de se dar um sentido claro para essa enxurrada diária de novos eventos, como se mover politicamente com um mínimo de segurança pelo campo artístico?

RB: Não acho que minha poesia seja política. Acho que toda a arte é política. Uma certa poesia anódina que aí está é também política, em razão de sua opacidade. Por exemplo, quando um autor ou autora revela sua vida privada, em um poema confessional, está fazendo política, de forma conservadora, aderindo às subjetividades pobres da indústria cultural e do mundo pop. As biografias das pessoas hoje são todas mais ou menos iguais. Esses grupos que, a título de literatura, se organizam de maneira meio mafiosa, são políticos também, com interesses financeiros e de poder. Por exemplo, parte da literatura foi apropriada por milionários ou por yuppies, que são conservadores: a literatura se torna em consequência algo de salão. Isto é político também. Completando a resposta: não se transita com segurança em campo nenhum hoje e muito menos no campo da arte, aliás, ela pode crescer na incerteza.

TF: Quando Marx falou que Balzac era um romancista de direita, mas literariamente de esquerda, surgiu com bastante força a ideia de que o artista não controla completamente as posições ideológicas expressas formalmente em sua própria obra. Como você entende esse tipo de afirmação nos dias de hoje quando tantos autores tentam se manter em certa neutralidade ideológica para buscar algum consenso do mercado?

RB: Nada entendo de mercado! Acho que “ideologia” cega a arte e a crítica. Você menciona dois gigantes: Marx e Balzac. Hoje, experimenta-se a “era dos anões”. Há um colapso da crítica literária que afeta a todos, mas, frise-se, ela foi calada pelos grandes grupos editoriais e jornais – que, aqui, fazem colunismo social literário, o nível das resenhas, impressionistas, é baixo e quase sempre vigora o princípio da ação entre amigos. Isso é facilmente melhorável: trata-se de uma decisão política.

TF: Os meios digitais criaram uma enorme fragmentação nas mediações do campo cultural. No entanto, movimentos bastante radicais têm sido proporcionados por uma instituição clássica do campo literário: a Academia do Nobel. De alguma forma mantemos um pé na tradição e outro na mudança. Você, que além de poeta e editor, é também crítico, como entende o papel da crítica literária nesse cenário de deslocamentos, impasses, novidades e recuos?

RB: O papel da crítica seria o de vir a este mundo de modo desarmado, seria um papel iluminista. Ao contrário do que se imagina, o mundo digital dá voz e escuta aos poetas: a fragmentação é, no caso, um dado de deslocamento de poder, de deslocamento da “última palavra”; a fragmentação cria um contraditório livre. Eu vejo com simpatia a blogosfera poética, embora perceba que ela precise elevar seu nível. De fato, como eu já assinalei (centralidade), a poesia não pauta muito (embora possa pautar muito), quem pauta são os curadores, os prêmios, as bolsas etc, mas creio que isso pode e deve mudar. A outorga do Nobel a Dylan não foi um ato tão polêmico assim quanto se pensa: ele tem 75 anos e um trabalho extenso e sólido.

TF: Não seria exagerado dizer que você acompanha de perto a produção poética mundial. Quais as iniciativas mais importantes do momento e os nomes que merecem atenção?

RB: Eu mal consigo acompanhar a produção brasileira e então como poderia acompanhar a mundial? Eu ainda leio, lentamente, Drummond, João Cabral e Murilo Mendes. Fernando Pessoa, Cesário Verde. Agora, leio por exemplo alguns poetas franceses, de séculos passados! Tudo lentamente. Mas me relaciono bem com poetas do mundo todo, da América do Sul à China: há uma troca rica entre eles e eu. Um dos desafios de uma nova crítica é o de descrever em detalhes a cena poética expandida e então separar eventualmente o joio do trigo.

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