A dança de Julia Wähmann


Encontrei Cravos de Julia Wähmann na prateleira de uma livraria montada especialmente para o Dia Internacional da Mulher. Li o começo durante o café e fiquei na mesma hora perplexo com o livro. É uma série de capítulos muito curtos que entrelaçam reflexões sobre o ato de dançar com a narrativa obscura e entrecortada de um relacionamento afetivo. Se eu estender um pouco o tempo do café, leio tudo em uma semana. Foi desse jeito que, aliás, percorri a antologia de poesia contemporânea recentemente lançada por Adriana Calcanhoto. Com exceção do prefácio, de fato muito ruim, a seleção é ótima e há ali bons nomes a serem descobertos. Quando dei essa opinião no Facebook, a livreira e ativista Lu Vilella reclamou da prioridade que eu estava dando ao café sobre o livro. Por isso, disse ela, minha livraria nunca vai vender espresso. É verdade. Não vou mais fazer isso. Resolvi levar Cravos para casa.

Não consegui concluir se o livro trata de um relacionamento emocionalmente abusivo. Um dos lados está bastante enredado no outro, buscando o tempo inteiro alguma justificativa para uma espécie de fluxo afetivo que não muda o curso. Tudo começa no milk-shake na praia, no cabelo sujo do dia seguinte e na percepção de que medo e satisfação se unem no início de algum tipo de relação amorosa.

Na mesma hora, um dos lados, no caso o do narrador, começa a sofrer: “É tempo também de alguns esbarrões em que você é glacial. A pele não gruda e não há resquício de fagulha, a gente se encontra e não parece fazer diferença, quando você dá as costas eu fico gritando à beira de um abismo que só devolve o meu próprio eco.”

O tempo do romance passa tão rápido como as próprias sensações. O brilho que pode haver no início de uma paixão logo entra em decadência, que é acompanhada pela derrocada dos corpos. Na metade, o livro deixa claro que o leitor está diante de um espetáculo de dança, o que complica um pouco as coisas: quem está no palco e quem ficou na plateia?

O mais normal seria estarmos nós sentados assistindo à dança que a narrativa compõe. Aqui uma sutileza encantadora e ao mesmo tempo terrível: o narrador o tempo inteiro não nos mostra a outra parte. O livro foge do clichê, hoje profundamente batido, que sustentou certa literatura por muito tempo, o de “representar o outro”. Cravos mostra que um narrador não pode extrapolar seu próprio espaço e só tem mesmo o seu ponto de vista. Quem dança no palco, junto a ele, somos nós.

Aqui, o livro também identifica a razão da perturbação do leitor. Estamos protagonizando um espetáculo de Pina Bausch. É aquela estranheza hipnotizadora e violenta. A decadência toma conta de todo o palco e o relacionamento explode em mágoa e separação. Tudo sempre jogado em fragmentos muito curtos. Não é aquela chuva de uma tarde inteira. Tudo isso foi feito por um temporal rápido e destruidor, cheio de relâmpagos.

Cravos sugere muita coisa. A gente sempre dança sozinho e o outro, afinal de contas, nunca passa de uma criação nossa. A literatura é exatamente isso.

***

Cravos

Julia Wähmann

Editora Record, 2016

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