“Escrever é um ato radical de liberdade”


João Gilberto Noll, morto no último dia 29 aos 70 anos, foi um dos maiores escritores gaúchos da contemporaneidade. Publicou 19 livros, entre romances e coletâneas de contos, e ganhou cinco prêmios Jabuti. No início de 2007, ele me recebeu em seu apartamento, no centro de Porto Alegre. Nesse período, eu trabalhava como jornalista em uma revista semanal e fazia uma reportagem sobre a literatura que florescia no Rio Grande do Sul. A entrevista com Noll nunca foi publicada – até hoje. Dez anos depois daquele encontro, ainda penso que foi uma das entrevistas mais marcantes da minha carreira. Lembro de que a sala de seu apartamento estava em uma penumbra solitária, distante do sol intenso lá fora. Noll passou a entrevista toda sentado numa poltrona, falando de olhos fechados, como se olhasse para dentro para tirar as respostas. Ele me falou sobre seu último trabalho na época, A Máquina de Ser (Nova Fronteira, 2006), que recebeu o prêmio de melhor livro de contos da Associação Paulista de Crítica de Arte (APCA). Noll comentou a literatura dos jovens autores gaúchos, falou sobre sua própria poética e seu processo de escrita. E deu os conselhos mais bonitos para quem quer se embrenhar na literatura. “Não se sonegue para a vida”; “vá para a selva da escrita” – ressoam mais do que nunca.

Por Gisela Anauate Bergonzoni, jornalista e doutoranda em literatura comparada pela Universidade de Rennes (França) e pela Universidade de São Paulo.

Existe uma literatura que pode ser chamada de gaúcha?

João Gilberto Noll: Existe, sim, e isso se deve a um passado cultuado, apesar de não ser o aspecto mais forte. Quando eu era criança, passava-se pela casa do Erico Verissimo com muito respeito e admiração. Mas não me considero um escritor amalgamado à estética literária do Verissimo. Não me considero um escritor gaúcho, se escritor gaúcho significa ter uma preocupação com o passado do Rio Grande do Sul, com os fatores que entraram na constituição desse estado. Isso não me emociona. Sou um escritor pressionado o tempo todo pelo presente, pelo aqui e o agora, pelas ruas.

O tema urbano está muito presente em seus trabalhos.

Noll: Sim. E estou feliz ultimamente porque tenho encontrado uma rapaziada que está surgindo com uma atmosfera ardentemente urbana, com as angústias que fazem parte do Brasil contemporâneo. A literatura brasileira está vivendo um renascimento, não tenho a menor dúvida. É gritante a qualidade do pessoal de 20, 30 anos que está aparecendo na literatura. Acho importante ter a disponibilidade que eles têm. Eu não tenho outra forma de ser – sou um sujeito disponível.

O que é ser disponível, para um escritor?

Noll: Gosto de que o presente me aguce na prática da literatura. É nesse sentido que contraponho a disponibilidade ao programa literário dos herdeiros de Erico Verissimo, que olham para o passado e fazem uma codificação histórica, independentemente se fazem bem ou mal. Essa literatura jovem é uma literatura que anda, que executa a ação da narrativa a partir dessa presentificação. Não estou atacando nada nem ninguém. Há uma preocupação dos novos escritores com um certo anonimato, que eu tenho, também. O fato de eu ter feito isso antes deles, por uma questão de idade, não quer dizer que eu não possa me identificar com eles.

O que marca a obra dessa turma de novos escritores?

Noll: O caótico está presente nesse tipo de ficção. Sou muito preocupado com o indivíduo. Acho a concretude do indivíduo o máximo que um autor pode pegar. Estou preocupado com a atrofia da identidade no mundo que corre, com a uniformização que é muito aguda. Tudo isso cai na ficção e na poesia jovem feita aqui. Além do Daniel Galera, outro grande escritor é o Daniel Pellizzari. Eles estão fazendo um trabalho que lembra uma literatura tipicamente plebeia norte-americana, da geração beat nos anos 50, que tenta reabilitar o indivíduo expondo essa coisa tão difícil de entender hoje, que é a unidade individual. Minha preocupação é com a cápsula do eu.

É verdade que o senhor escreve no computador há pouco tempo?

Noll: Desde o romance Berkeley em Bellagio (editado pela Objetiva, em 2002, e pela W11, em 2004). É ótimo escrever no computador, ficou mais breve. Antes escrevia à mão, em lugares públicos, cafés. Escrevi um livro inteiro, Harmada (editado em 1993 pela Companhia das Letras e em 2003 pela Francis) num restaurante, pegando a manhã e a tarde, quando não tinha muita gente. Era o restaurante Camaleão, à beira do rio Guaíba, aqui em Porto Alegre, um local de encontro de amantes. Chefes com suas secretárias e coisas assim. Demorei a aderir ao computador porque tenho aversão às máquinas. Sou um sujeito meio franciscano. É claro que comprei um laptop, para levar aonde quero. E de certa forma escrevo sobre esse problema com as máquinas para expressar um pouco essa baixa que existe nas identidades contemporâneas. Meus personagens são pessoas que não conseguem se relacionar muito com o real, estão num ritmo interno diferente. Daí a coisa dramática. É sempre um esforço se conectar ao real hoje.

O senhor definiria sua literatura como interna?

Noll: É interna, mas não intimista. O personagem dos meus livros representa tendências humanas deste momento. O ultraindividualismo que a gente presencia está ali. Não faço literatura politicamente correta e não estou dizendo que meus personagens são flor que se cheire, ou modelo para alguma coisa. Acho que, às vezes, a literatura precisa de vacina. Às vezes você inocula no corpo da escrita o veneno, o mal. É uma perversão, mas esse é que é o sal da literatura. Literatura não é “normatividade”. Às vezes se pode mostrar a deformidade.

Mesmo que poética, sua escrita é em prosa. Já tentou escrever versos?

Noll: Não tenho muita vontade. Acho que a poesia não está só no verso, pode e deve estar na prosa. O que faço é a exposição da voz de um eu lírico, em contraposição ao ambiente. É uma inadequação profunda. Há sempre essa rixa entre o eu e o outro. Se você dá uma exaltação a esse eu, tende a ser poético, lírico. Uma aparição monumental na poesia do Rio Grande do Sul é a do Paulo Scott, com versos avessos, oblíquos. Disse para o Scott: “Às vezes te vejo e tenho medo de ti, medo do que fazes na literatura”. De tão maldizer dizendo. De tão às vezes combinar as palavras e, nessa combinação, criar um rastilho de pólvora em vez de concatenação. É uma literatura bastante insólita na poesia. O discurso poético do Scott já é uma antilírica, até. Alguém usou esse termo “antilírica” para falar do João Cabral de Melo Neto, um autor que é assim, um cão sem plumas. Com poemas mais rígidos, cerebrais. Tem o Fabrício Carpinejar, também, um poeta muito feliz que apareceu nos últimos tempos. Carpinejar, Scott, Galera, Pellizzari. Só aí você tem quatro ficcionistas gaúchos da mais alta estirpe. Michel Laub, que, como Daniel Galera, vive em São Paulo, também é um belo ficcionista, tem estilo, gana, vigor.

É possível ensinar a escrever literatura?

Noll: Acho que não. Mas é possível instigar. Escrever é um ato radical de liberdade. Se você capacita as pessoas para o exercício da liberdade, você também está capacitando-as para escrever. Até para deixar que o acaso irrompa na literatura. Escrevo a partir de uma compulsão, não tenho um raciocínio muito iluminado sobre o que eu quero. Eu vou sem saber o que vai sair no computador, apenas com um impulso imbuído de uma necessidade. Era nesse sentido que eu incentivava meus alunos, quando dei oficinas literárias na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, nos anos 90, uma das épocas mais felizes da minha vida. Dei aula também na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Meu curso era de Literatura Brasileira, mas dentro da condição de escritor.

Como eram suas oficinas e suas aulas?

Noll: Apontava alguns livros essenciais para a vida e a prática literária, e, digamos, diferentes. Indicava A paixão segundo GH, da Clarice, um romance abstrato, poético, metafísico, em que não há ação concatenada. O aspecto de ação é rarefeito. Apontava também um escritor maravilhoso, o Sérgio Sant’Anna, que tem um lado plebeu e trata de questões urbanamente contemporâneas, gerando vulgaridade. Aliás, a combinação de uma certa erudição com uma dose de vulgaridade em literatura é uma coisa muito importante. É outro elemento que destoa da atividade regionalista e histórica, estética no Rio Grande do Sul. Aqui se faz muito romance histórico.

Há uma vertente que se costuma chamar de literatura pop, de uma juventude que produz uma ficção veloz, engraçada, às vezes autocrítica.

Noll: Acho que todos esses autores que citei não querem demonstrar malandragem urbana. São pessoas preocupadas com uma operação mais vertical, mais aguda sobre o real, não são apenas cronistas da barra citadina. Falei justamente que eles são universais. Acho que essa literatura pop é muito datada, daqui a alguns anos pode interessar a algum antropólogo, mas não em termos estéticos.

O meio literário de Porto Alegre dá a sensação de que todos os escritores se conhecem. Um escreve o prefácio, a orelha do livro do outro...

Noll: Estou meio distante dessa coisa. Não faço vida literária, mas geralmente amo profundamente os escritores que conheço. Não é uma coisa da amizade vindo da literatura, mas da literatura levando à amizade, um dos sentimentos mais maravilhosos que se pode ter quando se ama o ofício da gente. A possibilidade de criar grandes relações humanas a partir da literatura é um êxtase só. Mas a literatura aparece antes. E essa identificação literária gera realmente um afeto profundo. Ou não, também, pode não acontecer.

O senhor é procurado por escritores jovens, iniciantes? O que eles buscam?

Noll: Sim, através principalmente do e-mail. Há um certo frenesi, um sentimento de urgência, de premência, que é muito típico da civilização atual, pois nós vivemos com o poder dos meios midiáticos e internéticos, com um chamamento brutal para o imediato das coisas. Isso de alguma forma tem aparecido muito na produção dos escritores no Brasil. E gera uma identificação deles com a minha literatura, que é totalmente ansiosa. A brevidade da vida tem sido uma preocupação muito forte hoje, até entre os jovens. Eu tenho esse aspecto. Talvez nos contos de A Máquina de Ser nem tanto, mas nos meus romances a questão é as ruas, não é o que se vive em casa. São desfamiliaridades. As criaturas avulsas são uma marca dos meus livros, e acho que todo jovem se sente assim, rompido com o ranço doméstico da família. Aliás, acho que daí é que vem o preço da minha disponibilidade. Nas ruas não há passado, as pessoas passam por ali. A grande maioria você não verá mais. Essas coisas todas atraem os jovens. Nunca pensei nisso, estou pensando enquanto converso contigo, mas é uma certa reação à cultura gaúcha tão preocupada com as famílias do século XIX. É um povo muito fixado no século XIX, um século do qual eu não gosto. A não ser por figuras como os poetas Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire. Em geral a época do cientificismo e do historicismo não me agrada.

Que conselho o senhor daria para um jovem escritor que viesse procurá-lo, cheio de anseios?

Noll: Não se sonegue para vida, aceite a existência e toda a sua rotatividade, há muitas coisas para serem vividas, às vezes desconexas, mas tudo tem que ser abraçado. E se aproxime da escrita com espírito de aventura, não se programe demais para escrever, vá para a selva da escrita, se capacitando para um certo descontrole, às vezes. Primeiro é preciso deixar que a narrativa venha. Mas é necessário um certo controle na hora da labuta artesanal. Essa é a segunda fase da escrita. Para mim, o momento mais prazeroso é a hora do burilamento artesanal, em que se começa a pensar no leitor.

Como é esse burilamento? Ele vem depois das ideias, do jorro narrativo?

Noll: Sim. A última coisa que eu escrevo, por ser um escritor de linguagem, é o início. Quando começo um conto ou romance, deixo meus dedos livres no teclado. Mas essa fase é de aquecimento, de tatear. Chega um determinado momento em que você sente que pegou o ritmo, o personagem, e é por aí que você vai. Quando termino de escrever a narrativa, vou para o início para refazer aquilo que é exercício, puro aquecimento. Minha narrativa se faz pela linguagem, e ela é que vai abrindo caminho.

Não se sonegar à vida é se negar a ser uma “máquina de ser”, como o título de seu livro?

Noll: Sim. Não me considero um escritor de gabinete, se a ideia me vem no bar, eu apanho um caderno. Minhas ideias vêm das ruas, sou caminhante, e não consigo dirigir carro por isso: pelo medo de perder o melhor daquela tarde, daquela manhã. Tenho uma mística com o desconhecido, com o estranho. O livro que veio antes de A Máquina de Ser, o Lorde, tem muito disso, das ruas de Londres. É por isso que eu diria aos jovens: não se neguem às experiências. Não fiquem achando que é no próprio texto que as coisas se fazem. Essa coisa de tudo virar uma aspiração filológica... Acho que a aspiração tem que ser realmente existencial. Seria bom se a gente pudesse diluir essa fronteira entre a literatura e a vida. Mas ninguém é ingênuo de pensar que a literatura não é justamente a linguagem. Entre você e o outro tem a mediação da literatura – você não está dando para o leitor a sua experiência bruta.

crédito da foto: Fernando Gomes / Agência RBS

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