Com quantos Bob Dylans se faz um autor


Em 2004, num seminário sobre “As figurações da morte na literatura contemporânea” eu leria um ensaio sobre Guimarães Rosa que permanece para mim ainda hoje como um dos mais exemplares textos de crítica literária já escritos em língua portuguesa. Nele, a autora movimenta um referencial teórico variado, partindo da antropologia de Lévi-Strauss e remontando a um vasto repertório da mitologia indígena não apenas brasileira, mas sul-americana, para desentranhar daí o material de base magistralmente retrabalhado ficcionalmente por Rosa no conto “Meu tio o Iauaretê”. Publicado pela primeira vez em 1975, “O impossível Retorno” não é apenas um admirável exercício de leitura e erudição, mas aquele tipo de ensaio cuja leitura torna maior o objeto sobre o qual se debruça, ao desvendar nele a trama de elementos heteróclitos difíceis de identificar à primeira vista.

Por isso, ao ver que a sua autora, Walnice Nogueira Galvão, dedicara um ensaio a Bob Dylan no número especial da Peixe-elétrico sobre o artista, tive imensa curiosidade e interesse em saber o que ela teria a dizer, ainda que a chamada do texto anunciasse sua intenção em mostrar porque a concessão do Nobel a Dylan “não fazia o menor sentido”, algo que eu discordava a princípio, mas não sem reconhecer como um argumento válido.

No início de 2015, quando comecei a trabalhar em uma tese de doutorado em literatura comparada que tinha Dylan como tema principal, falei da ideia como quem não quer nada a alguns amigos e conhecidos do meio acadêmico. O projeto, aliás, não era centrado apenas em Dylan, mas propunha um estudo comparado entre suas canções e os poemas de Carlos Drummond de Andrade, o que o tornava ainda mais heterodoxo. As reações foram meio a meio; duas opiniões favoráveis, duas contrárias.

Fui em frente, tendo como um dos meus objetivos tornar a obra de Dylan mais bem conhecida no âmbito acadêmico brasileiro, onde o autor ainda é vítima de certos equívocos. A despeito das teses de doutorado sobre o seu trabalho nos EUA e em outros países de língua inglesa já se contarem na casa das centenas, no Brasil não há ainda sequer uma tese, ou mesmo dissertação de mestrado que tenha Dylan como tema principal. O que eu nunca poderia imaginar à época, é que um ano e meio mais tarde, a Academia Sueca concederia o Nobel de Literatura a Dylan, precipitando uma avalanche de artigos, ensaios, entrevistas e o diabo sobre o autor, inclusive no Brasil.

Apesar de certa divisão, a maioria do que se publicou nos Estados Unidos e na Inglaterra foi favorável à concessão do prêmio, sempre tentando chamar a atenção para as qualidades literárias da obra de Dylan; mais especificamente, para sua maestria no uso da linguagem, critério quase sempre decisivo para avaliar a “literariedade” de um texto.

Alguns foram além de apenas “aprovar” ou “reprovar” a escolha; uma voz insuspeita como a de Christopher Ricks, professor da Universidade de Boston e especialista em Dylan (com livros também sobre Eliot, Tennyson e Shakespeare) viu a oportunidade para uma advertência, num ensaio paradoxalmente intitulado “Bob Dylan é um gênio – mas reduzir suas canções a ‘literatura´ é perigoso”.[i] Afinal, a canção é um “triângulo” feito de palavras, música e voz, que não deve ser confundido com a “literatura” em termos estritos, que só conta com o primeiro termo. O que não impedira Ricks de reafirmar sua convicção de que Dylan é o maior artífice vivo da língua inglesa.

Voltando ao texto de Walnice, encontramos uma avaliação diferente, que apesar de assinalar o talento de Dylan, o faz numa adversativa que é preciso transcrever:

Que suas letras [de Dylan] visionárias e apocalípticas são superiores, basta compará-las às de dois dos maiores da época, Elvis Presley e os Beatles: perto das dele, parecem brincadeira de criança.

Mas isto se refere apenas a essa fase áurea, de compositor folk militante político. Em suas turnês atuais pelo mundo, a audiência fica fria até que ele cante uma dessas: então todos prorrompem em coro.

Foi assim que fez a transição do folk para o pop, desagradando fãs do mundo todo. (Peixe-elétrico, p. 24).

Walnice não deixa ainda de apontar como “ninguém duvida do talento de Bob Dylan como letrista e compositor de musica popular”, lembrando ainda a “forte influência da literatura” nas suas canções. O problema a princípio não estaria em conceder um prêmio de literatura a um letrista e compositor, desde que dotado de um talento extraordinário, mas sim no próprio Dylan, cuja trajetória a partir de certo momento descambaria, tornando-se de um compositor voltado à arte participante (ou política, ou engajada, ou quaisquer um dos nomes, todos problemáticos, que se lhe queira dar...), em um “artista pop, ou seja sem desobediência e sem dissidência, tacitamente aprovando o establishment que antes contestava”. (Peixe-elétrico)

O período a que Walnice se refere como “fase áurea” de Dylan, genericamente identificada em primeiro lugar pela canção “Blowin in the Wind”, durou aproximadamente dois anos (de meados de 1962 a meados de 1964), reduzido aos álbuns “The freewhelin Bob Dylan” e “The Times They Are a-changin”. Não é incomum, entretanto, que mesmo nos meios mais bem informados, sobretudo no Brasil, a figura de Bob Dylan seja ainda hoje mais identificada ao que ele realizou naquele curto período. Diga-se de passagem, a permanência dessa persona poética no imaginário coletivo atesta a força das canções da época, como “Blowin in the Wind”, “Masters of War” e “A Hard Rain is a-gonna fall”.

O fato, no entanto, é que em 1963 Dylan ainda não alcançara a velocidade de cruzeiro. Seria no biênio 1965-1966 que o artista daria ao mundo canções como “Desolation Row”, “It´s all right ma, (I´m only bleeding)”, “Like a Rolling Stone” e “Visions of Johanna”, dentre tantas outras em que a voz dissonante da lírica do século XX (apontada por Hugo Friedrich como uma de suas características fundamentais) entraria de vez no universo da canção popular. Em “It´s all right ma, (I´m only bleeding)”,

Darkness at the break of noon

Shadows even the silver spoon

The handmade blade, the child´s balloon

Eclipses both the sun and moon

To understand you know too soon

There is no sense in trying.

a ironia que comparece desde o título ainda não pressagia a linguagem poética densa, dominada por imagens crípticas, às vezes assustadoras, que tomaria o lugar das canções de protesto, e que “para entender, você sabe num átimo, que não adianta sequer tentar”, numa tradução livre dos últimos versos da estrofe acima.

Essa imagética que não há para entender, a linguagem poética que “desorienta a dianoia, o pensamento que encadeia e deduz” como diz Alan Badiou, era um dos materiais – mas não apenas o único – que Dylan incorporou ao seu cadinho profundamente heterogêneo, sem abrir mão do olhar agudo para o drama humano. “It´s all right Ma” não se reduz a um exercício do estilo críptico, mas adverte, não sem uma ponta de crueldade e sem nenhum sentimentalismo, para a solidão incontornável de todos nós (“you feel to moan but unlike before / you discover that you´d just be / One more person crying”).

Esse transbordamento da linguagem na obra de Dylan não poderia caber nos limites éticos impostos pela esquerda do Folk, e não foi sem um conflito profundo, que Dylan fez a transição, não do “folk para o pop”, como diz Walnice, mas do folk para algo que até então não existia na música popular (e ainda hoje conta com poucos similares). A mudança não o levaria a uma prática “sem dissidência e sem desobediência”, mas, ao contrário, a exercer justamente um dos mais importantes pressupostos da poesia que é o de ser “resistência”. Resistência contra a ideologia dominante, mas resistência também contra aqueles que tentavam impor ao artista um papel que ele não desejava mais exercer. Não por acaso, no Newport Folk Festival de 1965, em que Dylan se apresentou pela primeira vez com uma banda elétrica para escândalo dos puristas da velha esquerda, e sendo solenemente vaiado ao término de sua apresentação, a canção escolhida foi Maggie´s Farm: “I try my best / To be just like I am / But everybody wants you / to be just like them”.

Um ano mais tarde, “Visions of Johanna”, do período pós-folk, seria uma das canções mais emblemáticas do que o poeta-cantor podia alcançar:

Inside the museums, Infinity goes up on Trial

Voices echo this is what salvation must be like after a while

But Mona Lisa musta had the highway blues

You can tell by the way she smiles

Inescrutável ainda hoje como o sorriso da musa de Da Vinci, Dylan adotara então a “perplexidade como lícito efeito artístico” (ainda Friedrich), tão marcante na lírica moderna e contemporânea em línguas diversas. Ora, premiar um autor assim não me parece uma negação da literatura, ou uma “admissão de que a literatura de há muito patina no mesmo lugar”, como diz Walnice, mas precisamente o seu contrário; uma constatação de que ela é dotada de uma força tal, que lhe permite se expandir de modo a contaminar outras formas de expressão, capazes por sua vez de incorporar estéticas que lhe são intrínsecas para dar origem a algo novo.

O estranhamento não foi pequeno, e a reação, proporcional; de fato, Dylan fez sua transição “desagradando fãs de todo mundo”. Como fizera Stravinsky com sua “Sagração da Primavera”. Abandono dos companheiros da luta política ou afirmação da autonomia de um artista cuja marca seria a personificação de “todos os tipos de eu”, como ele diz num desabafo em 1964?[ii]. O uso das “Máscaras”, outro motivo típico da lírica do século XX (estudado por Michael Hamburger como uma das tensões da lírica moderna em mais um livro clássico sobre o tema, A verdade da poesia), seria desde então uma constante na obra do poeta-cantor.

Dylan sempre foi, e continua sendo, pura “dissidência e desobediência”; ao que os seus fãs demandam, ao que o mercado deseja, às tentativas de entendê-lo, e à tentação de permanecer no pedestal, para, ao invés disso, arriscar, abandonando inclusive o que já o consagrara, e experimentar e se reinventar, encarnando numa trajetória de mais de cinquenta anos, não apenas o trovador político, mas o poeta surrealista, o eremita country, o cigano apaixonado, o pregador religioso, o arqueólogo do passado...

Todas essas personae poéticas complexas estão esquadrinhadas na sua fortuna crítica, que passaria a se desenvolver a partir da década de 1970, inclusive nos meios acadêmicos. Para ficar apenas com três nomes, lembremos o já citado Christopher Ricks, professor da Universidade de Boston; Sean Wilentz, historiador da Universidade de Princeton; Neil Corcoran, autor da mais respeitada biografia do poeta irlandês Seamus Heaney; todos eles admiradores de Dylan e autores de livros importantes sobre sua obra. Nessa fortuna crítica, a idéia de um Bob Dylan que abandonou o folk para se vender aos interesses comerciais é um conceito totalmente superado a pelo menos quatro décadas.

Aliás, o que realmente faz a grandeza da obra de Dylan, é o fato de ela ter ultrapassado qualquer nostalgia passadista dos anos 1960. Ainda que (algumas) das canções do período folk resistam com louvor ao teste do tempo, e as peças do biênio 1965-1966 permaneçam dentre as mais significativas do seu repertório, nas últimas décadas Dylan continuaria a todo vapor, e outras obras se juntariam a essas no conjunto das mais importantes de sua carreira.

Para citar apenas os poucos exemplos que o espaço permite, em 1975, Blood on the tracks seria um estudo em profundidade do amor e seus fantasmas, em canções cuja limitação temática não impediu o uso de procedimentos estéticos sofisticados, como a alternância de sujeitos e tempos verbais em “Tangled up in Blue”, narrativa épico-lírica não linear que desafia os pressupostos de tempo e espaço.

Em 1997 e 2001, Time out of Mind e Love and Theft trariam canções centradas na reflexão desencantada sobre a morte, o envelhecimento, e a própria identidade esfumada, periclitante, de um sujeito que se fizera construir numa corajosa confluência entre vida e obra. “It´s not dark yet / but it´s getting there”, anuncia a sombria voz de um sobrevivente com “nervos adormecidos” mas que ainda não terminou sua travessia.

Seu repertório atual, que mistura canções das últimas cinco décadas, é a maior prova dessa capacidade de reinvenção, e de que sua aposta em sempre se renovar deu certo. Não é exato dizer que a “audiência fica fria” perante seu material mais recente; para ficarmos apenas com os concertos da última semana, “Love sick” de 1997, e “Pay in blood” de 2012 estão entre os pontos altos de sua temporada de apresentações em Londres[iii].

Por tudo isso, penso que a difícil decisão que tomei em 2015, de dedicar quatro anos e muitas páginas a um estudo arriscado como o que venho fazendo me parece ter sido acertada. Se o tema soa um tanto heterodoxo, meus métodos, ao contrário, não têm nada de mirabolantes. Além dos já muito conhecidos Friedrich e Hamburger citados aqui, figuram na minha bibliografia nomes como Hannah Arendt, Davi Arrigucci Jr. e Antonio Candido (a quem Walnice chamara de “para sempre, mestre e chefe” no prefácio ao seu As formas do falso, texto também decisivo sobre Grande sertão: veredas). Se isso puder servir como convite ao debate acadêmico sério da obra de Dylan, algo já absolutamente consagrado fora do Brasil, penso que terá valido a pena.

Um dos resultados inevitáveis em trabalhar com autores de línguas diferentes é comparar a sua fortuna crítica. Nossa melhor crítica literária não tem nada a dever aos autores de língua inglesa; é tão bem informada quanto os autores estrangeiros, e costuma ser mais ousada e criativa do que eles. Um autor como Bob Dylan, com cerca de setecentas canções publicadas em mais de cinquenta anos de uma carreira absolutamente diversificada, merece um olhar mais aprofundado da nossa academia. Como diz Walnice no encerramento de seu texto, “muita reflexão será necessária para entender essa novidade”. Conhecer melhor a extensa e complexa obra de Dylan me parece a maneira mais adequada de começar.

***

[i] O artigo de Ricks está disponível em: http://www.telegraph.co.uk/music/what-to-listen-to/bob-dylan-is-a-genius-but-reducing-his-songs-to-literature-is-d/

[ii] “away away be gone all you demons / an just let me be me / human me / ruthless me / wild me / gentle me / all kinds of me”. O desabafo é endereçado justamente àqueles que cobravam de Dylan o comprometimento político incompatível com a complexa subjetividade que ele começava a expressar nas canções mais recentes. A carta de Dylan foi publicada na Broadside Magazine, uma das principais vozes do folk novaiorquino de esquerda na década de 60. Edição fac-similar disponível em: http://singout.org/downloads/broadside/b038.pdf

[iii] Resenha da apresentação de Londres disponível em http://www.telegraph.co.uk/music/concerts/bob-dylan-london-palladium-worlds-inscrutable-performer-still/

Fernando Baião Viotti é doutorando em Literatura Comparada na UFMG, com tese sobre as tensões da lírica moderna na poesia de Carlos Drummond de Andrade e nas canções de Bob Dylan, a ser finalizada em 2018.

Destaques
Recentes
Arquivo
Tags
Siga-nos
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • w-facebook
  • White Instagram Icon
  • Twitter Clean