Literatura de esquerda


Alguns livros são providenciais. Aparecem na nossa frente quando mais precisamos deles. Aconteceu comigo quando comecei a ler Literatura de esquerda, de Damián Tabarovsky, que a Relicário acaba de mandar para as livrarias. É uma coleção de quatro ensaios, com dimensão e enfoque diferentes, mas um rumo certo: procurar acertar o relógio da literatura contemporânea, observando as forças que fazem esse e aquele texto (ou autor) se destacarem diante de outros. As principais referências são evidentemente da literatura argentina, com algum salto pela Europa. Ainda assim, o texto interessa muito para o público brasileiro, já que não apenas traz uma forma arejada de crítica, mas também demonstra ser possível pensar a literatura de maneira livre e ousada.

Comecei a ler os ensaios de Tabarovsky no mesmo dia em que um grupo de pessoas que se considera de esquerda resolveu me agredir por conta de um livro que estava, no mesmo momento, incomodando políticos de direita. Até agora estou tentando compreender o nível de absurdo dessa situação, embora com cada vez menos seriedade.

Achei uma anotação me lembrando de um detalhe curioso: quando comecei a ler o ensaio “Estava surfando quando uma onda me engoliu”, recebi a notícia de que por causa do processo movido contra o romance Diário da cadeia, a justiça brasileira exigia a revelação do nome do autor. Os argentinos também têm seus processos judiciais bisonhos. Pablo Katchadjian teve semana passada uma reviravolta na ação que a viúva de Borges, cujo nome prefiro não repetir pois já tenho muito olho gordo atrás de mim, move contra ele, com a determinação de uma alta corte de arquivar o caso.

Chego então ao último ensaio do livro, sobre o processo movido contra Flaubert. Tabarovsky, a propósito, publicou um volume com os autos do caso. Ele defende que a maneira como o caso foi discutido pelos advogados do grande escritor ajudou bastante a moldar o narrador que o modernismo fixaria décadas depois. Outra ideia forte do livro é a de que a literatura não deve se preocupar com o mercado. Esse é o grande acerto de um volume cheio deles. Atenção, pois um mal entendido pode aparecer aqui. Não é que a literatura realmente relevante deve ser contra o mercado. Ora, resistir já é dar atenção a ele. Ela precisa ser indiferente ao mercado.

Não vou apontar nenhum trecho, para não correr o risco de estimular alguém a ler apenas uma citação. Mas Tabarovsky é claro ao dizer que muita gente se ilude ao achar que faz uma literatura de resistência, quando na verdade pratica apenas um discurso conservador. Aqui, eu bato palmas para ele. O saldo final da leitura é a constatação de que afastar-se do burburinho tolo do mercado ou de quem resiste a ele, do meio literário ou de quem resiste a ele, parece ser uma necessidade urgente. O outro saldo são algumas linhas da minha defesa jurídica. Eu preciso desse tipo de crítico até para não ser condenado a indenizar o ex-deputado federal Eduardo Cunha...

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Literatura de esquerda

Ed Relicário

Damián Tabarovsky

Tradução de Ciro Lubliner e Tiago Cfer

R$ 38,00

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