Sem escolha


O mais recente livro do chileno Alejandro Zambra, Múltipla escolha, é todo ele estruturado sobre o modelo de questões de múltipla escolha do equivalente chileno do vestibular brasileiro, aplicado naquele país entre os anos de 1966 e 2002.

Saber fazer as escolhas certas numa prova desse tipo é o que durante muito tempo representou a garantia de um futuro materialmente confortável e com certa distinção de classe.

Já o vestibular de Zambra não promete esse tipo de recompensa. Conforme seguimos tentando desconcertados escolher a resposta certa e, desde muito cedo, desconfiando que aqui não se trata de certo e errado, vamos descortinando aos poucos os traumas da história do último quarto do século 20 chileno. História que nunca se encerra.

Os deslocamentos de significado entre alternativas revelam uma memória esburacada e ainda repleta de dor e questões não resolvidas. Aqui o leitor deve escolher a alternativa que não se relaciona com o enunciado ou com as demais opções:

14) prometo

A) silêncio

B) total

C) prometo

D) silêncio

E) total

Em outra, com uma pitada de humor, surge o nome que não deve ser mencionado, que representa aquilo tudo que deve ser silenciado "Tenta ir do geral ao particular, mas vai do geral ao general: Pinochet."

As possíveis combinações entre as partes de um mesmo parágrafo revelam ressentimentos e recalques que gritam silenciosamente sob o ritmo da sociedade que se uniu por um novo país. Recombinar as partes gera sempre o mesmo resultado. É um exercício fadado ao fracasso. Enquanto não surgirem partes novas, nada muda.

28) Sua casa

1. Pertence a um banco, mas você prefere pensar que é sua.

2. Se tudo correr bem, vai terminar de pagá-la em 2033.

3. Mora nela há onze anos. Primeiro com uma família, depois com alguns fantasmas que também já se foram.

4. Não gosta do bairro; não há praças por perto, o ar é poluído.

5. Mas ama a casa, nunca vai abandoná-la.

A) 2-3-4-5-1

B) 3-4-5-1-2

C) 4-5-1-2-3

D) 3-1-2-4-5

E) 1-2-3-4-5

Qualquer que seja a combinação (certa?), o país modelo do neoliberalismo na América do Sul entrega um futuro em que os fantasmas da ditadura (carrascos e vítimas) seguem sendo uma questão forte e presente somados às dúvidas e dívidas capitalistas.

Tortura, torturadores, desaparecidos, crianças sequestradas, quem fala em nome de quem, igreja, moral, estudantes e negócios. Tudo está emaranhado de forma complexa, como na história real, nas questões apresentadas por Zambra. Cabe ao leitor enfrentar a forma proposta e encontrar o que não está dado.

No jogo literário do chileno nascido em 1975, o único acerto é que a literatura que capta, mesmo quando não quer, o processo social e histórico recente, vai vazar até mesmo na forma matemática da múltipla escolha os horrores políticos do século 20 e sua relação íntima com o capitalismo e a eficiência técnica. Está tudo lá esperando ser gabaritado pelo leitor atento.

O jogo histórico de Múltipla escolha nos entrega no final a única escolha honesta: enfrentar o passado de frente. Sem garantias.

***

Múltipla escolha

Alejandro Zambra

Tradução: Miguel Del Castillo

Editora Planeta

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