A importância do silêncio


Em A cena interior, ao empreender um esforço narrativo minimalista, Marcel Cohen toca aqui e ali em várias questões fundamentais dos nossos tempos.

Enquanto vivemos soterrados por uma carga enorme de informação que nos assalta a todo instante e em qualquer lugar, Cohen sabe muito pouco sobre o assunto do seu livro: a vida de seus parentes mortos nos campos de extermínio nazista. O esforço de resgatar por meio da literatura a individualidade desses familiares esbarra justamente na quase absoluta falta de dados. Cohen não aceita completar essas vidas com clichês dos horrores nazistas. O que sobra para ser trabalhado no livro é a frágil memória de sua primeira infância, meia dúzia de objetos pertencentes aos pais, tios e avós, e uma ou outra frase solta de algum sobrevivente que havia conhecido os Cohen, nascidos na Turquia e sequestrados em Paris para a morte.

O resultado do empenho ético da escrita de Cohen tem como resultado contornos frágeis e silhuetas borradas de seus familiares. As grandes descobertas não contam quase nada. Que o perfume dos nazistas não era o mesmo usado pelos homens de sua família ou que seu pai teria de fato alguma destreza com o violino, são descobertas que no final importam pouco.

Mas ao falhar no empreendimento de resgate histórico, o autor nos entrega um material rico e farto.

A cena interior coloca em questão a chamada ética da leitura. Os horrores da Segunda Guerra Mundial foram pensados pela história social, cultural, econômica, por biografias e diários, psicologia social e, claro, pela literatura. Dessa forma o leitor está a todo instante transformando os parentes de Cohen em clichês cristalizados pela monumentalização da história do holocausto. Se o texto busca a todo custo o indivíduo, a história joga contra ao dissolvê-lo no tipo.

Aqui e ali Cohen mostra as fissuras desse processo. Em um evento público pela memória das vítimas o choro não é bem visto. Há uma atitude e um protocolo estabelecidos para esse tipo de situação. A banda que levanta o moral dos prisioneiros para que eles trabalhem com eficiência nos conta sobre a relação promíscua entre crime e capitalismo. A França que se quer ainda hoje símbolo da resistência fez muito pouco pelos judeus não franceses que viviam lá.

O “relevo humano” buscado pelo autor, salvo engano, não é obtido, diferentemente do que diz Michel Laub no texto de orelha. E não obtê-lo é a única forma de nos colocar novamente de frente com o horror da história moderna sem as proteções dos monumentos e das cerimônias públicas coreografadas. A falha aqui é a força do livro. Na forma da falha está a chave do processo social: a desumanização dos sujeitos.

Mas se há uma falha de fato no livro é, ao meu ver, o uso de imagens. Há fotos dos parentes e dos objetos mais importantes usados na tentativa de reconstrução histórica. As descrições tão belamente sofridas desses rostos e de um violino ou de uma bolsa, se revelam banais nas imagens; como todo rosto e qualquer objeto. O violino é apenas um violino velho, e não um documento histórico e afetivo que sustenta e amarra de forma frágil e desesperada a narrativa do livro. Mas esse é um detalhe que não tira o mérito da obra incomum de Marcel Cohen.

Vale a pena meditar a respeito da ideologia que nos é vendida hoje por meio do fluxo incessante de informações. Quem ganha afinal com ela? O que está nos escapando que não conseguimos entender sob o bombardeio de imagens da sociedade do espetáculo turbinada pela era digital?

Uma sobrevivente dos campos que afirma preferir viver num pequeno círculo com antigos deportados, justifica assim a decisão: "Não precisamos falar para nos entender".

É para se pensar... E, para isso, é preciso aceitar silêncios e lacunas como parte da história. Parte da vida.

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A cena interior

Marcel Cohen

tradução: Samuel Titan Jr.

Editora 34

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