Famílias de livros


Nunca pensei muito nisso, mas acho que uma genealogia do romance norte-americano precisa necessariamente se voltar para as famílias disfuncionais. Há uma clara sucessão de tema e forma que, até onde posso enxergar (sem, como disse, ter ido a fundo) acaba se estabelecendo, como vemos hoje, com Saul Bellow. O mestre desse tipo de romance americano contemporâneo é Philip Roth. As longas digressões, o choque de gerações que esconde outro, mais grave, de ideologias, o papel ridículo que invariavelmente os políticos assumem e, contornando muitas outras invenções, uma forma romanesca inventiva, mas ainda um tanto tradicional e sempre clara, que aparecem em vários romances americanos parecem mesmo originárias em grandes livros como Pastoral americana, O teatro de Sabath, Operação Shylock e tantos outros assinados por Roth.

Não consegui suportar o excessivo convencionalismo de Jonathan Franzen. Recentemente, porém, resolvi mergulhar em dois lançamentos bastante volumosos que me agradaram muito: Cidade em chamas, o épico comovente de mais de mil páginas de Garth Risk Hallberg e Aqui estou, o último livro de Jonathan Safran Foer. Os dois livros descrevem famílias com filhos pequenos que vão se desintegrando em meio a um mundo igualmente desorganizado.

Cidade em chamas se passa em 1976, em um único dia. Alternando vários pontos de vista e planos narrativos, o livro reúne grupos diferentes da cidade de Nova York para compor um amplo painel humano. Além do mapa comum, as personagens se unem por uma espécie de forte carga emotiva: estão sempre lutando por companhia, compreensão e afeto. O autor não esconde a simpatia por um dos planos, porém: o que descreve um grupo de punks e sua ideologia bem intencionada mas cheia de desastres e superficialidades. O livro é entremeado por reproduções de fanzines da época, o que torna mais palatável a decadência das personagens yuppies. Evidentemente o desastre financeiro das próximas décadas já está aqui anunciado.

No início, achei que precisaria lançar mão do meu “plano para livros muito volumosos”: dividir o número de páginas por um mês e não deixar rigorosamente nenhum dia para trás. Logo, porém, a leitura engrena e a gente acaba com muita vontade de saber se aquelas pessoas vão conseguir se virar. Trata-se daqueles livros que recebem a torcida do leitor para que o final seja o melhor possível para as personagens que viram nossos amigos.

Acontece o mesmo com Aqui estou, aliás. O romance de Safran Foer troca os anos 1970 para um futuro muito próximo e se passa sobretudo entre a comunidade judaica dos Estados Unidos. Nova York dá lugar a Washington. De resto, aqui estão os homens de meia idade em crise, um casamento se dissolvendo e os filhos tentando se equilibrar no meio disso tudo. Foer deixa algumas marcas de contemporaneidade: o Uber e as mensagens de telefone celular parecem algumas das mais imediatas. Ocultas estão a dificuldade de assentar uma narrativa na forma tradicional do romance e a vontade (a necessidade já não existe...) de escrevê-lo.

Em Cidade em chamas um dos motores da narrativa eram os fanzines. No romance de Safran Foer, o leitor fica curioso pelo próximo recurso do mesmo jeito que quer saber se o rabino vai mesmo punir o filho mais velho do casal por aquele tipo de... Não vou adiantar! Enfim, é um livro que sempre vale a pena indicar para quem gosta muito de ler, e exige mais do que apenas uma boa história.

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Aqui estou, de Jonathan Safran Foer

Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

imagem: cena da adaptação para o cinema de Pastoral americana.

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