Mundo-Lama – impressões da Abralic 2017


A respeito da UERJ sei o que todos que estão distantes e acompanham atônitos o desmonte do Estado brasileiro sabem: aulas suspensas, professores sem receber o décimo terceiro de 2016 e os salários regulares há 4 meses. É com essas informações que entro no ônibus que levará os palestrantes do dia 10 de agosto para o XV Congresso da Abralic. No caminho leio um post do Ricardo no Facebook que diz que a UERJ foi a primeira universidade brasileira a implantar algum tipo de sistema de cotas.

Estranhamento Contornamos os prédios da universidade e, para quem nunca os viu, trata-se de uma imagem impactante. Vários blocos altos e cinzas com escadas e rampas de concreto ligando um ao outro. Penso na arquitetura do bloco soviético. Parece uma construção pensada como abrigo, refúgio. Uma fortaleza intransponível. Entro pela rampa principal e como as aulas estão suspensas está tudo vazio e silencioso. Na cabeça me vem a palavra “chernobyl”. A garoa fina e o tempo nublado, o elevador com as placas no teto soltas e os fios aparentes reforçam a sensação de uma tragédia invisível, mas presente.

Tudo muda quando desço no 11º andar. Alguns amigos, muita gente, um bandejão improvisado e uma certa excitação auto-imposta: menos para mostrar para o restante do país que ali se fará a diferença, muito mais como uma tentativa, no limite do desespero, de provar a nós mesmos que é possível resistir.

Um amigo me fala um pouco do quanto aquele prédio é simbólico. Está localizado no limite da Zona Sul. É uma universidade que se abre para a Zona Norte. Um projeto de integração da cidade por meio da escola pública. Ele me conta também que as telas de proteção instaladas nos andares são por causa dos suicídios de alunos. Vou para a minha mesa tratar de jornalismo literário digital com todo esse peso de informação nos ombros. Fico aliviado por ter incluído em minha fala inicial uma boa quantidade de reflexões políticas.

Após uma pergunta bastante complexa, comento que me parece que vivemos em uma espécie de lama histórica. Um período em que tudo está caindo, já não é possível tentar as soluções do século passado e o novo ainda não apareceu. Se não estou enganado, a minha geração vai ter que se virar nesse Mundo-Lama.

No dia seguinte tomo um café com o Fernando. Ele comenta que o famoso ensaio "Fim de século", do Roberto Schwarz, em algum momento pareceu ter errado feio, que o Brasil enfim conseguiria ser integrado ao bloco de países avançados. Hoje, ele me diz, o texto do crítico é certeiro. Comento com ele que não só perdemos o bonde desenvolvimentista como o próprio bonde, o trilho e o caminho desapareceram.

Tirando do contexto, funciona aqui um trecho de letra de uma canção do Caetano Veloso: “atrasado e aflito. E paramos no meio”.

Falar no congresso da Abralic foi uma experiência ainda não totalmente digerida por mim. E este texto é uma tentativa de compartilhar algumas impressões.

Qual é o meu papel nesse campo cultural em meio a uma crise do capitalismo sem precedentes? Qual o valor da cultura em uma sociedade conflagrada que carece de tudo o que é mais básico, incluindo os meios de sobrevivência dos próprios intelectuais e professores? Alguém além dos meus colegas está disposto a ouvir o que nós temos a dizer?

Sim, produzimos resistência e conhecimento durante os cinco dias de congresso e sou muito agradecido pelo convite e pela oportunidade. Trago comigo para São Paulo o orgulho e o peso de ter participado desse evento decisivo. Acredito que as coisas retornarão a uma certa normalidade na UERJ. Mas ali, mais do que em qualquer outra universidade do país, sempre haverá o incômodo de saber que o limite entre uma existência difícil e no final precária e a aniquilação completa, é tênue.

++

(texto lido durante o XV Congresso da Abralic)

Gostaria de iniciar minha breve fala com uma reflexão que surge do próprio nome desta mesa: "Jornalismo literário em tempos digitais". Nunca me entendi trabalhando como jornalista. Nosso desejo quando decidimos colocar mais uma revista de cultura no mercado foi, a princípio, resgatar a boa tradição da resenha. Publicar textos que buscassem não o que é determinado livro, mas sim, por que é. Um tipo de resenha já muito difícil de ser encontrada, salvo raras exceções, nos cadernos de cultura dos principais jornais que até ontem definiam o debate. Não caberia aqui buscar as causas, mas acredito não estar equivocado ao afirmar que em algum momento esses cadernos sucumbiram definitivamente à lógica do mercado, no caso, do mercado editorial, e passaram a funcionar como divulgadores de lançamentos, fomentar as vendas e não o debate, função essa que se torna a cada dia mais irrelevante frente a velocidade e eficiência imbatíveis das redes .

Quando criamos a Peixe-elétrico, além das revistas mais tradicionais como a New Left Review, estávamos muito interessados nas norte-americanas Jacobin e na n+1. Mas veio do sul nossa principal inspiração. Nos dedicamos a ler todas as edições dos 30 anos da Punto de Vista, revista argentina dirigida por Beatriz Sarlo. Já em seu primeiro editorial, uma frase da Sarlo expressou os nossos desejos e a repetimos em nosso primeiro editorial também, seus fundadores queriam uma revista "que não aspira à atitude conservadora de recompilar bons artigos, mas que eles se tornem os eixos do debate". De resenhas partimos para ensaios buscando um aprofundamento do debate. Procuramos não os grandes nomes, como outras revistas do establishment cultural brasileiro costumam fazer, mas os grandes textos. E assim publicamos Jameson, Eagleton e a própria Sarlo. Mas também jovens como o escritor Victor Heringer, entre outros. Ao selecionar o material para um determinada edição sempre tivemos o cuidado de colocar lado a lado ensaios que ao se aproximarem aumentassem o volume crítico. Tenho clareza a respeito dos mecanismos do mercado que oferece hoje obras críticas do passado como mera mercadoria. Nossa opção pelo e-book e não por um site, apesar de termos um blog para textos mais curtos e de ocasião, veio do desejo de selecionar o que deve estar reunido em cada edição da revista.

Sempre pensamos a publicação como uma plataforma contra-ideológica. Buscando a crítica cultural, principalmente literária mas não apenas, que ao desvendar e desconstruir a forma de objetos estéticos pudesse ajudar a esclarecer os processos de controle que barram o encaminhamento de sociedades mais justas e progressistas.

Aqui cabe uma consideração, em tempos de uso apaixonado do termo "pós-verdade", a minha preferência ainda é pelo conceito de ideologia, lá como formulou o velho Marx e foi sendo trabalhado por toda uma tradição de críticos culturais. Ideologia não como uma mentira contada várias vezes que se torna uma verdade, mas como projeção de ideais de sociedade que são falsos não exatamente pelo que oferecem ou prometem, mas por venderem a ideia de que está tudo dado e que esse suposto estado natural das coisas não pode ser alterado.

Mas voltando, entendo que nos distanciamos do que se entende como jornalismo ao não nos preocuparmos com as narrativas mais factuais do dia a dia ou mesmo com as expectativas e o timing impostos pelo mercado e pela indústria cultural. Mas de alguma forma nos aproximamos paradoxalmente da ideia de jornalismo se entendermos que nossa busca por interferir no debate do dia de hoje não deixa de estar mais próximo desse campo de atuação do que das ciências humanas e seu tempo mais lento de reflexão.

Após o golpe de Estado de 2016 temos observado atônitos a destruição do que havia de fato, ou de ideológico, de progressista no Estado brasileiro. Sem entrar em qualquer mérito de acerto ou erro, apenas tomando como exemplo, nos oito anos FHC fomos embalados pelo Plano Real e em seguida, no governo Lula, principalmente, pelo Bolsa Família. Ideologias poderosas de transformação ampla do país que se cumpriram em parte, de acordo com a visão e ponto de vista do observador. Desde que Temer assume o poder, a cada dia observamos mais e mais o funcionamento sórdido e mesquinho do aparato governamental brasileiro completamente despido de qualquer projeto ou mesmo vergonha na cara. Nenhuma crítica contra-ideológica foi capaz de operar tão rapidamente um retrato real do nosso país como os próprios bandidos fizeram em sua luta nua e crua pelo poder, sempre aliados com os interesses do capital internacional, que, há muitos anos, tem no Brasil a cara sinistra de Henrique Meirelles.

Especificamente em nosso âmbito de atuação é muito significativo que este evento ocorra nas dependências da UERJ, e agradeço ao João Cezar de Castro Rocha e a Abralic pelo convite. Acompanho de perto, mesmo que à distância, as notícias cada vez mais absurdas do que acontece por aqui, mas também a produção de resistência que se organiza e opera.

Nunca antes o horizonte de mudança rumo a sociedades mais justas e menos desiguais esteve tão limitado quanto em nossos dias. O ataque ao pensamento progressista acontece em diferentes frentes. Do corte de bolsas, do imoral e criminoso não pagamento de salários até o impedimento de grupos de estudo do marxismo.

Cabe agora refletirmos sobre o papel da crítica neste momento que, salvo engano, é de um caminho sem volta para os modelos de Estado do Bem-Estar Social existentes durante o século XX. Está tudo ruindo, no centro e na periferia do capital e, se é que se pode chamar de privilégio, nossa posição deslocada permite observar esse derretimento do capitalismo também nos países centrais com a fanfarronice nefasta de Donald Trump ou com a tentativa cheia de desfaçatez de resgatar certo liberalismo ilustrado na França.

Mais do que desconstruir, me parece que se impõe de forma urgente a tarefa da construção de novos significados, de projetar algo que ainda não está dado. A tarefa dura e ética, e de enorme responsabilidade de, enquanto busca-se as contradições da sociedade na forma artística, não deixar de ter um olhar para o presente e um desejo de estar de outra forma no futuro. Como exatamente fazer isso ou o que iremos ou não encontrar, eu realmente não sei. Mas esse impulso de construção me estimula, apesar de tudo, a seguir editando a Peixe-elétrico.

Obrigado.

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