O quase nada que sobrou


Entre os lançamentos ocorridos durante a última Festa Literária Internacional de Paraty, um dos mais impressionantes é sem dúvida Jamais o fogo nunca, da chilena Diamela Eltit. Com tradução primorosa de Julián Fuks, o livro traz para a literatura latino-americana o dilema beckettiano da narrativa em espaço diminuto e, ao mesmo tempo, importa algo da fricção afetiva de alguns dos melhores trabalhos de Willian Faulkner. Temos, portanto, uma espécie de conjunção de propostas literárias, que desemboca em um outro desafio: o Chile posterior à violenta repressão de Pinochet, que dizimou todo tipo de reflexão.

Qualquer obra literária realmente notável é, sempre e em primeiro lugar, uma questão de linguagem. A dupla negação presente no título serve como pista para o resto da narrativa. Se o “não” estará presente a cada linha, sabemos que quando dobrado ele se torna um sinal de positividade. O romance portanto vai falar sempre de perdas, ausências, negatividades, derrotas e falhas. Mas ele vai existir.

O livro é composto por pares que vão sempre se sobrepondo: a voz narrativa, a de uma mulher sobrevivente da repressão, dirige-se quase o tempo inteiro ao companheiro, também membro da luta contra a ditadura. Quando não, fala com pacientes de quem, ensimesmada, cuida. Outro par se dá entre o espaço fechado de um quarto e a rua, sempre com desproporção entre os dois: na maior parte das vezes a voz está trancada. Por isso o vocabulário é restrito. Ele acompanha a dificuldade de respirar que as frases, de entonação muitas vezes truncada, vão compondo.

Eltit sabe que não poderia ser diferente, já que precisava deixar a linguagem truncada para compor corpos destruídos. Os poucos sobreviventes da repressão acabaram com o corpo e a cabeça em migalhas. O vocábulo “célula” por exemplo serve tanto para designar os pontos de encontro dos resistentes, sempre massacrados, como a unidade física do organismo vivo à beira do colapso. Temos ao mesmo tempo então uma operação criativa que acompanha a tendência à criação de pares como o paradoxo de que essa dupla acaba reduzindo o vocabulário.

É possível construir um significado para Jamais o fogo nunca a partir dessas estranhas operações em que o dobro acaba subtraindo. A narrativa com quase nada vai se sustentando com os corpos em desesperada decomposição, aparentemente se equilibrando apenas na própria forma literária. É como dizer que o livro só existe para existir. Não é bem isso, evidentemente, porque há o outro ponto de qualquer obra literária: quem lê.

Para nós a autora propõe pequenos sinais de ar, como a criança que pode sair daqueles corpos muito machucados, o pãozinho que com certeza está na cozinha e, enfim, o mínimo fiapo de esperança que é o fato de a própria narrativa se fazer. Através da forma literária, Eltit compõe então seu outro duplo: o leitor lê esse livro onde? Tanto no Chile como no Brasil em democracias muito mal feitas, no geral dilaceradas e em estado de decomposição.

Vamos indo, não entendemos muito bem como, com pouco ar, o vocabulário cada vez mais reduzido e a dificuldade de saber se nossos corpos vão durar mais muito tempo. Mas vamos indo. E o final do livro é bem claro: nós que já perdemos tudo.

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Jamais o fogo nunca

Diamela Eltit

Editora Relicário

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