Notas rápidas sobre No intenso agora


Escrevo estes fragmentos rápidos menos de 24 horas depois de assistir No intenso agora, mais recente filme de João Moreira Salles. Assumo derrapar aqui e ali no juízo crítico para não perder as impressões pessoais sobre o filme.

No intenso agora trata de três revoluções ocorridas na década de 1960: Maio de 68 em Paris; Revolução Cultural na China; Primavera de Praga. As imagens de Paris são provenientes de diversas e variadas fontes: filmes profissionais e amadores, programas de TV. De Praga temos trechos amadores e curtos. E da China cenas gravadas pela mãe do diretor, ou algum colega dela, durante uma excursão oficial patrocinada por uma revista de arte francesa que levou diletantes "industriais, banqueiros e gente de sociedade" para conhecer o país.

Distância

Uma vez que o Maio de 68 foi feito principalmente por estudantes universitários filhos da burguesia, a câmera está sempre ali no corpo a corpo das manifestações, sem medo da repressão ou da violência. Em Praga não há garantias: as filmagens são distantes e trêmulas, e os filmes não assinados; gravar pode custar a vida. Na China as imagens são leves, despreocupadas, feitas por turistas celebrando a vida.

Conteúdo versus Forma

Se o filme mostra imagens de momentos de extrema intensidade (revolucionários, convulsivos), a forma com seus quadros lentos e narrativa algo monótona, a trilha também sempre avisando que tudo está por desmoronar, busca entender justamente o que vem depois desses picos de grande excitação e possibilidades renovadas. O diretor dá forma ao conteúdo apontando nesse processo para a sua superação. Presente e futuro numa amálgama de cenas em preto e branco, coloridas desbotadas, e hipnotizantes com seu andamento fúnebre, mas carregado de vida.

A voz

O filme é todo narrado pelo diretor que assim amarra as imagens, as interpreta com muita inteligência, e dá sentido ao que vai sendo mostrado. A voz sempre com entonação descendente, algo fraca, cansada e praticamente sem intervalo. A voz melancólica de quem quer contar sobre o rebote pós-revolucionário sem talvez nunca ter vivido essa intensidade (publicamente e existencialmente).

História e indivíduo

Desde que os historiadores trouxeram a bagagem freudiana para os seus gabinetes, ótimos estudos mostraram como os grandes acontecimentos atravessam profundamente a psique individual (por exemplo, os surtos de loucura com imagens de guilhotinas durante a Revolução Francesa). João Moreira Salles vai além ao expor a vida íntima da própria família para sugerir como a história pode acertar um indivíduo na curva da esquina, sem aviso prévio, sem relação com aquele quadro específico. A mãe dele não tinha qualquer ligação com a China revolucionária. Ele mesmo diz que ela foi ver uma coisa e encontrou outra; ao procurar pela história de um país de cultura milenar, deu de cara com a revolução em marcha acelerada; com a história atropelando os indivíduos. E gostou.

Uma questão de classe

Menos do que em Santiago, ainda aqui o diretor deixa claro o seu local na sociedade, o que desarma críticas mais rasteiras e traz complexidade ao filme ao inserir uma classe específica na forma da obra: a aristocracia de um país desigual. É assim que o Brasil entra de viés nesse mundo convulsionado. Os Moreira Salles vivendo no exterior desde 1964 e retornando ao Rio em maio de 1968 temerosos com os desdobramentos das manifestações. Qual era afinal o lugar daquela família: o regime de direita brasileiro ou a revolução de costumes francesa? Entre os dois, a mãe do diretor encontra a vida em sua forma mais forte na China comunista.

Espetáculo

No calor dos acontecimentos o símbolo maior do Maio parisiense, Cohn-Bendit, aceita posar para uma revista em troca dos custos de uma viagem à Alemanha e com muita perspicácia e autocrítica nos conta da revolução que vira espetáculo, mercadoria.

2013

Só não vê quem não quer uma análise das jornadas de 2013 no Brasil. De Gaulle convoca a população (pelo rádio, como bem observa o narrador, para esconder a imagem de um homem velho e deixar no ar a voz do herói da Segunda Guerra) para restabelecer a ordem e o Maio é encerrado com uma manifestação da direita reunindo mais gente nas ruas que as dos jovens (a direita vai às ruas com mais frequência do que julgam nossos articulistas de esquerda). Assim como o famoso Roda Viva com os jovens do Movimento Passe Livre no auge das manifestações brasileiras, na França três dos expoentes do processo vão à TV discutir com comentaristas mais velhos para tentar explicar o que estava acontecendo.

Alegria alegria

Viver o Maio de 68 foi acima de tudo viver a alegria, a intensidade de um futuro que seria completamente diferente do que existira até ali. Quando o processo se encerra com a volta à ordem, é sensacional o longo trecho da operária que, se sentindo traída, se recusa a voltar ao chão da fábrica. É a birra de uma criança! E para as crianças tudo é possível. Um adulto infantil não seria então uma ideia positiva? O retorno ao não recalcado, ao espontâneo, ao que está fora da lógica do mercado?

África

A ausência de negros e imigrantes do norte da África no Maio parisiense revela o corte de classe mais cruel do processo. Os excluídos de sempre que depois da bagunça iriam aparecer para varrer as ruas. As colônias e ex-colônias eternamente fazendo o trabalho duro para que o centro opere suas mudanças e saltos para frente.

Cohn-Bendit e a mãe

Quando perguntado por ninguém menos que Sartre sobre a revolução não ter projeto, o jovem símbolo diz que pouco importa. O que vale é aquele momento criador, de alta voltagem, que anuncia o novo como um brilho e que sempre retornará. Em uma das anotações da mãe do diretor, ela vai na mesma linha: dar de cara com o inesperado abre no inefável da vida a possibilidade de outras formas de existência (aqui entram fotos da mãe em intervalos de cerca de dez anos e a crueldade da passagem do tempo em ponto morto nos atinge em cheio).

Mao

O poema do jovem Mao sobre o desejo de reter o momento, de interromper o fluxo do tempo, articulado com tudo que o filme nos mostra da energia jovem revolucionária e do que nós sabemos que acabou sendo a Revolução Cultural, é de uma força atroz. Os dilemas atravessam jovens revoltados filhos da burguesia, operários, uma senhora da aristocracia brasileira e o grande líder da revolução chinesa. Compreender não é perdoar. É alargar a própria experiência.

A tinta negra da melancolia

Você pode assistir ao filme como um documento a respeito de um período especialmente revolucionário no mundo. Você pode assistir ao filme como uma profunda investigação a respeito das potências existenciais da vida e suas frustrações. O grande feito da obra foi articular esses dois aspectos. No intenso agora diz respeito a todos nós. Ficou para mim a questão dura: se a ordem sempre vence e restabelece a normalidade da rotina, é melhor ter vivido alguns poucos dias intensos para passar o resto da vida os procurando e lutando contra o tempo, ou sortudos são os burocratas do espírito?

Há muito tempo uma obra de arte não me acertava de forma tão contundente!

Falta muito

Escrevi sem freio e falta muito a ser dito sobre esse importante filme. Aos poucos vou acrescentando novos fragmentos.

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