Fora da ordem


Entrevista com a psicanalista Alessandra Martins Parente, autora do livro Sublimação e Unheimliche (Pearson). Entrevistador: Tiago Ferro.

PEIXE-ELÉTRICO: Na introdução do livro, para justificar uma opção teórica da pesquisa você cita dois dos mais importantes críticos atuais ao chamado capitalismo tardio: Jameson e Zizek. Foi o historiador Marc Bloch quem tirou a pesquisa histórica do ambiente do “gabinete do erudito” e a trouxe para questões presentes, do tempo do pesquisador. Para além da hipótese e objetivo do seus trabalho, qual questão mais forte dos nossos dias te moveu a ir à Viena do fim do século XIX? O que a pesquisa ilumina desse possível ponto cego contemporâneo?

ALESSANDRA MARTINS PARENTE: A pergunta é muito interessante por remeter aos bastidores da pesquisa. E, na verdade, fui conduzida ao Império Austro-húngaro justamente por questões suscitadas na atualidade. Embora tenha esse viés histórico, gostaria que o livro fosse lido com os pés no presente. Mas talvez seja importante esclarecer, antes de mais nada, qual a relevância de um estudo psicanalítico dedicado ao conceito de sublimação. Eleger esse conceito significa pensar as maneiras pelas quais se dá a relação entre processos psíquicos e obras concretas da cultura, principalmente artísticas e intelectuais – estas resultam de processos psíquicos aos quais Freud denominou sublimação. Poderia, porém, perguntar aqui: se as obras da cultura contemporânea assumem formas tão distintas daquelas que eram contemporâneas de Freud, caberia insistir hoje no conceito de sublimação para falar dessa relação entre processos psíquicos e criação ou apreciação de obras?

Na época em que comecei o doutorado fazia parte, como convidada, de um grupo que discutia arte contemporânea e psicanálise. Nós visitávamos ateliês de diversos artistas e, com esse material, pensávamos nas questões clínicas e suas relações com as artes visuais. Tinham parte nesses estudos alguns encontros nos quais eram promovidos debates entre artistas, psicanalistas e críticos de arte. Estava muito envolvida com esse trabalho, que me levou também a fazer a curadoria de uma exposição que estabelecia uma interface entre artes visuais e psicanálise. O problema de minha pesquisa emergiu dessas duas experiências e de minhas leituras da época. O que constatava de forma cada vez mais incontornável era a insuficiência do conceito freudiano de sublimação para pensar a produção contemporânea. Por si só, isso não seria exatamente um problema – bastaria reconhecer que esse conceito estava circunscrito a um determinado momento sócio-histórico e que seu alcance era limitado para pensar formas atuais da cultura. Entretanto, o que se observa na literatura psicanalítica ainda hoje é uma fidelidade ao conceito, usado com pequenas retificações para manter Freud intacto e não poder dirigir a ele nenhuma crítica mais contundente. Essa adoção acrítica supõe, sem perceber, que nada mudou nos processos psíquicos que concedem forma à cultura desde a Viena fin-de-siècle. De outro lado, há também psicanalistas que transfiguram completamente o conceito – mas aí caberia ainda perguntar: procedendo assim continuamos a falar de sublimação? Minha suposição é que, se a forma da cultura apresenta novos contornos, é necessário repensar os processos psíquicos que a engendraram.

Sobre Zizek e Jameson: fiquei bastante indecisa se colocaria ou não essa passagem da obra A visão em paralaxe na introdução do livro, pois não a retomo em nenhum outro momento do livro e seu sentido pode ficar um tanto obscuro para o leitor desavisado. De todo modo, ela é extremamente importante por apresentar o modo pelo qual são formados os conceitos – Zizek trata esse aspecto no interior de uma perspectiva hegeliana. Não era meu interesse tratar detidamente esse ponto; apenas assinalar como tensões são inerentes ao conceito, único capaz de conceder efetividade ao que existe. Essas faces antagônicas imanentes ao conceito formam sempre limiares que podem assim permanecer ou exigir, pela própria expansão de algum, ou alguns antagonismos, o desdobrar de um novo conceito. Do meu ponto de vista, o conceito de Unheimliche freudiano foi justamente essa inflexão em relação ao de sublimação. Podemos, evidentemente, sobrepô-los – trata-se de uma escolha epistemológica que tem suas consequências. Tendo a acreditar que reconhecer tal inflexão oferece a nós, psicanalistas do século XXI, mais ganhos para análises clínicas, históricas e sociais do que perdas. Nem sempre conciliar ideias é a melhor saída.

PEIXE-ELÉTRICO: Ao estudar o chão histórico vienense onde a psicanálise nasceu, você nota o descompasso que havia entre a capital do Império e os centros mais avançados do capitalismo, que já enfrentavam dilemas ideológicos e conflitos decisivos da modernidade. Se havia esse desnível decisivo entre essas cidades europeias, o solavanco é abissal se compararmos com a situação de ex-colônias. Como podemos entender o salto universal conquistado pela teoria freudiana se, como qualquer outra produção da cultura, é tributária de um processo social bastante específico e não exatamente central?

ALESSANDRA: De fato, havia um descompasso entre cidades europeias do fim do século XIX, começo do XX, momento no qual nasce a psicanálise. Paris era uma cidade central em termos culturais, o principal polo das artes de vanguarda e da liberdade para experimentar sistemas políticos inusitados, até mesmo quando eles eram uma tentativa de reestabelecer uma ordem anterior. A Revolução Francesa deixou um vazio e estremeceu todas as bases da monarquia absolutista. Depois dela, os franceses estavam inevitavelmente às voltas com a questão da modernidade e de como desenhá-la em suas várias camadas (política, cultural e econômica). Em Londres, a importância se dava em razão das descobertas tecnológicas que promoveram reboliços econômicos e, consequentemente, da ordem jurídica e do sistema político até então vigentes. Quando falamos em Império Austro-húngaro, o cenário é um pouco diferente. Temos que lembrar que foi em Viena, entre 1814 e 1815, que aconteceu o Congresso de Viena, cujo objetivo era o de restaurar a ordem absolutista do Ancien Régime e reestabelecer as fronteiras europeias, alteradas após as conquistas napoleônicas. Esse evento, presidido pelo ultraconservador Metternich, simboliza bem o lugar que Viena ocupava no cenário europeu: a tentativa de manter a antiga ordem enquanto os ventos já tinham derrubado e alterado todas as linhas fixas anteriores. Isso não é um defeito ou uma qualidade – trata-se de certo espírito que foi se moldando talvez lá atrás, desde os sonhos conciliatórios e universais erasmianos. Não tenho certeza de onde vem esse pendor conservador em meio a essa atmosfera totalmente inusitada, mas, sem dúvida, os austríacos eram propensos a essa solução de compromisso com pouco espaço para dar contornos simbólicos a grandes ímpetos revolucionários. Existia, ainda, o medo de um horizonte tenebroso: embarcar na luta por outros modelos políticos, o que poderia dar vazão às forças pangermanistas claramente antissemitas. Tenho impressão de que a paralisia de parte da burguesia esclarecida, que se aferrava ao grande teatro da Casa dos Habsburgo, o fazia temendo algo pior – receio que, com o passar dos anos, não se mostrou infundado. É curioso, por outro lado, que o estopim da Primeira Guerra Mundial tenha surgido justamente dessa tendência de abafar conflitos e sublevações. Sufocando os apelos revolucionários ou reacionários desses pangermanistas, eslavos e, mais especificamente, dos húngaros, houve o que em psicanálise se denomina “retorno do recalcado” – o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando por um ativista servo, o Gravilo Princip, e o início de uma guerra que tomou proporções mundiais.

É importante, de todo modo, reconhecer o caráter fecundo e inigualável dos processos sublimatórios nesse cenário europeu pré-guerra. O Império Austro-húngaro é berço de um contingente absurdamente grande de “gênios” – não gosto muito desse termo, mas só para frisar a importância inegável de determinados personagens nessa paisagem da história moderna. A arquitetura de Otto Wagner ou Adolf Loos, o estilo cáustico da escrita de Karl Kraus, a música dodecafônica de Arnold Schöenberg, os sistemas jurídicos de Hans Kelsen, que desembocaram em modelos constitucionais internacionais como a ONU, filosofias que estremeceram a linguagem como a de Wittgenstein, a moda com Emilie Flöge – os exemplos são realmente incontáveis. Freud era apenas mais um grande nome desse caldo nutritivo. Se a sublimação tem limites, não foi na Viena pré-guerra que eles se apresentaram – só hoje é possível reconhecê-los.

Nesse contexto, é muito interessante você mencionar as ex-colônias; acho que é precisamente nesse horizonte, isto é, levando-as em conta, que o modelo sublimatório mostra mais nitidamente sua insuficiência. Pois, se é verdade que na Europa havia essa opulência cultural, não é possível vê-la descolada das ex-colônias. Para que a Europa existisse nos moldes como Freud a conheceu, isto é, em sua versão civilizada e, sobretudo iluminista, era necessário que houvessem terras disponíveis fora dela. Quem desenha esse mapa muito bem é Carl Schmitt em O nomos da terra. Para ele, a Europa só deixou de se matar dando lugar a modelos civilizados após a descoberta de terras no ultramar pelos europeus. Sabemos bem a desordem abismal causada em nossos territórios por esses seres “elevados” e “civilizados”.

Schmitt é muito claro ao dizer que o direito das gentes na Europa dependia de um reconhecimento mútuo entre as diferentes potências, fundando-se na circunscrição ordenada da guerra. Ou seja, as guerras que ocorriam na Europa eram o contrário de desordem. Desde o Tratado de Vestfália, o adversário passou a ser reconhecido como inimigo num horizonte de igualdade. Para Schmitt, se houve êxito no direito das gentes foi o de circunscrever a guerra, jamais extingui-la. Tomadas de terra, então, são parte do direito das gentes na Europa. Trata-se de direito análogo ao de um proprietário – o solo nunca é livremente ocupado, mas existem regras que permitem conquistá-lo de maneira legítima. Essa ordem espacial comum e reconhecida entre soberanos no território europeu encontra sua formulação na ideia de um certo equilíbrio. Aqui há, por conseguinte, esse reconhecimento entre imperium estatais como grandes potências cujas negociações e jurisdição têm seus parâmetros estabelecidos por determinadas formas específicas de tomadas de terra.

Do outro lado, em territórios que estavam além das linhas globais definidas pela Europa (Tratado de Tordesilhas e Linha de Amizade), a tomada de terra era ocupação livre, sem referência a nenhum modelo do direito europeu interestatal. Em síntese: o solo colonial, fora da Europa, não estava circunscrito nas mesmas leis – aliás, ali era, por definição, o lugar sem-lei. O poder dos chefes nativos de povos tidos como incivilizados não era reconhecido sob a insígnia do imperium e nem aquele solo configurava uma propriedade. No campo do direito das gentes europeu, não havia espaço para o direito dos nativos correspondente ao observado nos Estados europeus da era liberal.

Em suma, nas Américas configurava-se uma terra de ninguém a ser pilhada, devastada, roubada. Disso dependia, diz Schmitt, a Europa para se desenhar como território civilizado. Veja que interessante, não é uma figura de esquerda que está traçando uma análise geopolítica sobre os espaços pilhados da história. É um jurista que aderiu ao nazismo e que, desse lugar, reconhece a barbárie como sendo intrínseca à civilização europeia – sem exploração e selvageria do lado de cá, deixa de haver o lado de lá nos moldes civilizados que conhecemos. E, de fato, com o começo do reconhecimento de Estados-nação nos moldes iluministas do lado de cá passa a dissolver-se a Europa como centro civilizado do mundo. Não vou entrar em todos os detalhes desse livro impressionante de Schmitt, mas a Primeira Guerra Mundial sinaliza o fracasso total dessa ordem europeia que vigorou entre os séculos XVI e XX e da qual dependia a espoliação total e absoluta das colônias no Novo Mundo. O fim da Primeira Guerra selou, para Schmitt, o “fim da era europeia”.

Voltando à psicanálise e a Freud. Meu livro não trata de nada disso, vale dizer, mas questões como essas ecoam para a minha análise da sublimação. É visível como Freud era um iluminista relativamente convicto até a Primeira Guerra Mundial. Por mais que tratasse dos escombros dos processos civilizatórios, isto é, por mais que tratasse daquilo que restava do embate que permite ao sujeito inserir-se na cultura, seu esforço sempre foi o de traçar elos entre essa civilização iluminista eminentemente europeia e suas rebarbas que ficam no plano inconsciente. Ora, como brasileira e sabendo que daquela “superioridade” dependia o horror, não podia concordar que processos psíquicos, fundados sobre bases sublimatórias condizentes com traços formais desse modelo de cultura, fossem considerados a melhor saída para nossos conflitos psíquicos e culturais. O mais curioso, porém, é que, se Freud foi de certa forma iludido pelas promessas iluministas, apostando em processos sublimatórios coerentes com a cultura vigente em sua época, ele de modo algum foi insensível aos seus limites. Ao contrário, ele traça linhas para outras modalidades desses processos psíquicos que redundarão em obras da cultura. Essas outras categorias não são tão exploradas quanto o conceito de sublimação, mas estão muito bem estruturadas como possíveis substitutos do modelo sublimatório. São elas a categoria de Unheimliche, de que trato no livro, porém mais radicalmente ainda o conceito de estrangeiro [Fremd] tal como analisado em seu clássico Moisés e o monoteísmo, com qual estou trabalhando recentemente. Edward Said foi muito perspicaz em Freud e os não-europeus ao mostrar esses impasses na obra freudiana, enxergando na ideia de estrangeiro, apresentada em Moisés, uma saída profundamente promissora. Concordo inteiramente com Said. Falar dessa outra categoria, porém, significaria sair do eixo desta entrevista.

PEIXE-ELÉTRICO: No ensaio “As ideias fora do lugar” Roberto Schwarz chama de “comédia ideológica” a situação brasileira de convívio de ideias liberais com mão-de-obra escrava. Se trocarmos “ideias liberais” por “teoria freudiana”, como se daria esse ajuste ideológico em condições de sinal praticamente invertido? Ou seja, de que forma uma teoria vai moldar, ou tentar moldar, a produção de afetos que corriam até ali em uma estrada tão diferente?

ALESSANDRA: Não sei se seria possível comparar a “comédia ideológica” brasileira, na qual observa-se uma espécie de hiato entre ideias liberais e prática escravagista, e a questão que você formula a respeito do impacto da “teoria freudiana” na produção de afetos na sociedade burguesa moderna. Vale frisar que havia também na Viena fin-de-siècle um certo tipo de comédia – essa modernidade liberal era tingida com pincéis neobarrocos, uma espécie de contrarreforma ante a expansão dos valores burgueses pós-revolução. Havia ali uma solução de compromisso que evidentemente estava muito distante da fina descrição feita por Roberto Schwarz a respeito do Brasil, mas que, de todo modo, também era encobridora num certo sentido e reveladora em outro. É possível reconhecer em produções literárias, plásticas, científicas etc. não só de vienenses, mas de vários artistas e intelectuais do Império Austro-húngaro, certo descompasso entre o que efetivamente fazia a sociedade girar e o que a representava simbolicamente. Temos um rei ocupando o trono quando esse posto já era completamente artificial – as diferentes obras da cultura produzidas naquele contexto e que tive oportunidade de analisar mostram uma tentativa de manter ou até mesmo exaltar essa ordem artificial, mas com recursos estilísticos e linguísticos já distantes dessa antiga ordem.

Essa estratégia de velar e encobrir os conflitos do presente e, justamente assim e por essa razão, acabar por explicitá-los é, a meu ver, o que caracteriza o processo sublimatório. Nesse sentido, é que vou me permitir discordar de um ponto específico e periférico do texto de Roberto Schwarz a que você faz menção. Acho possível abrir um amplo debate sobre formas estilísticas partindo da simples afirmação que o crítico faz a propósito de Machado de Assis: “[sua] matéria (de Machado de Assis), que ordena como pode, [trata] questões da história mundial; [mas] [...] não as trata, se as tratar diretamente”. Nunca me detive na análise da obra machadiana e não saberia dizer, assim de pronto, a que ordem de fatores psíquicos-culturais ela obedece para ser composta. De qualquer maneira, não acho que tratar diretamente a matéria de uma obra seja algo impeditivo para que ela adquira valor universal. Tendo a pensar exatamente o oposto – acho que a obra ganha força ao carregar consigo o corpo da história que suscita sua criação, explicitando-o junto com outros elementos que a integram. Aliás, essa materialidade é que impulsiona a obra – por que, então, não explicitá-la diretamente? Esse impasse ganha expressão, por exemplo, nos debates sobre Kafka entre Walter Benjamin e Bertold Brecht. Ambos concordam que uma obra pertencente ao seu próprio tempo deve carregar, em sua forma, um modo de resistência a modelos claramente opressores. Se o artista apela para um caráter insondável ou mítico, deixando de lado componentes históricos propulsores da própria composição da obra, ela acaba por compactuar com o que tenta criticar ou denunciar. Para mim, é precisamente esse componente material visivelmente encravado na obra que confere um outro lugar às peças de arte criadas ou apreciadas a partir de uma experiência unheimlich. Tal experiência só ocorre por meio de uma sobreposição temporal na qual ao passado vem juntar-se algo inusitado. É a materialidade exposta do hoje que dará vazão às camadas de outros tempos e espaços. Acho extremamente importante quando Freud, por exemplo, escreve em seu Moisés que, sob impacto dos acontecimentos do presente – ele se refere evidentemente à ascensão do fascismo na Europa, que se deu junto à redação do texto sobre Moisés – não conseguiu evitar repetições de trechos e traços da gênese da obra. Isso teria dado um caráter precário ao trabalho que, alega, não foi capaz de evitar. Freud, muito claramente, queria expor esses rudimentos, fato que cria uma ruptura com as formas estilísticas adotadas por ele até então e reconhecidas pelos cânones acadêmicos da época – não podemos esquecer que ele ganhou o prêmio Goethe pela composição de suas obras. A escrita de Moisés o atormenta como um “fantasma não redimido” (são palavras dele) – sua composição traz as marcas de um movimento de resistência. São algumas pequenas passagens que fazem menção aos seus tormentos relativos ao presente que são capazes de mostrar como tratar de temas do Pentateuco, naquele momento, significava um gesto político intimamente atrelado aos acontecimentos terríveis da época na qual vive. Ao contrário de outras obras, essa traz em seu bojo as cicatrizes de sua confecção, deixando à mostra os caminhos seguidos pelas linhas de sua costura. E acho isso extremamente mais rico e importante estilisticamente do que a lapidação completa da obra a ponto de não ser mais possível reconhecer nela essa materialidade propulsora que fez parte de sua gênese.

Voltando agora ao ponto que você coloca sobre a “teoria freudiana” ter produzido certos afetos naquele período, acho que quem descreve muito bem isso é Foucault, num pequeno texto no qual aproxima Marx, Nietzsche e Freud – aproximação feita também, vale lembrar, por Paul Ricoeur. Ali vemos como esses autores nos colocam em uma posição investigativa a respeito de questões latentes que estariam alocadas atrás daquilo que se manifesta. Essa desconfiança epistemológica mexe com os afetos, pois fica claro como não somos senhores em nossas próprias casas – nem no plano político-econômico, nem subjetivo, nem cultural. Esses autores desestabilizam noções clássicas de autonomia e liberdade, a separação entre espírito e corpo ou do que é próprio e impróprio (no sentido do que é propriedade do sujeito ou não). Essas ideias, prezadas pelo pensamento ilustrado, perdem a nitidez que as perfila e seus contornos se dissolvem quase por completo. Em termos afetivos, isso gera impactos que se fazem sentir ainda hoje. Alguns sujeitos sentem-se mais livres após esse movimento de colocar em evidência aspectos velados que ensejam o conteúdo manifesto, outros defrontam-se com a angústia ante a revelação de componentes sexuais e agressivos indomáveis e lutam contra o que passa a ser visível. Contudo, vale acrescentar que, embora o impacto desses autores ainda se faça sentir nos dias atuais, o pensamento contemporâneo já não se situa mais nesse campo hermenêutico. Para Lacan, por exemplo, tudo o que existe é superfície – não há nada atrás do véu aparente. O véu já é a própria coisa. O problema é que todos estamos no presente, mas há anacronismos de toda ordem – vemos no consultório sujeitos às voltas com questões que são próprias do século XIX, por exemplo. Esses mesmos sujeitos anacrônicos também ocupam lugares de poder e produzem efeitos tenebrosos. Por isso, Freud ainda estremece decididamente nossas estruturas afetivas nos dias de hoje.

PEIXE-ELÉTRICO: Na canção “Fora da ordem”, Caetano Veloso cantou que “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Uma imagem do nosso fracasso em tentar copiar incessantemente modelos estrangeiros e fixar um projeto, mas também uma imagem bastante crítica da aceleração destruidora da ideia moderna de progresso. A psicanálise nasce justamente em um período de euforia com as possibilidades anunciadas pelo conhecimento científico e pela razão. A Primeira Guerra Mundial é também o primeiro banho de água fria e você estuda a mudança na obra freudiana também após o evento. É possível fazer o caminho inverso e procurar na própria forma literária (vocabulário, estrutura dos textos, estilo etc) da obra de Freud mudanças que apontem esse processo social convulsionado de alguma forma nova?

ALESSANDRA: Vou comentar antes algo sobre a música “Fora da ordem”. Minha questão é: será que não chegou um tempo no qual é necessário perceber que o Brasil é parte de uma engrenagem que o ultrapassa como Estado-nação? O projeto moderno é paradoxal exatamente por construir ruínas – o objetivo é sempre o novo, que deve se impor à tradição, fazer desta mera ruína. Se na terra brasilis isso fica claro em cada esquina, como canta Caetano, não podemos pensar o mesmo sobre o modo como os países considerados de primeiro mundo lidam com os subdesenvolvidos? Nesse caso, as ruínas são deixadas no além-fronteiras. Já foi-se o tempo em que é preciso declarar: estamos todos no mesmo barco – essas fronteiras são inteiramente artificiais e o que foi feito fora de um território nacional volta de maneira incontrolável. Guerras, colonização, pilhagem, devastação são traumas que tendem à repetição. Eles retornam – é o que vemos hoje, por exemplo, com os grandes volumes de massas migratórias pelo mundo. A Europa está sendo obrigada a olhar para as marcas traumáticas que deixou fora de suas demarcações. No Brasil, esse processo se dá predominantemente dentro das fronteiras que estabelecemos por aqui: periferia e centro, morro e o que o contorna, serviços públicos sucateados e os privados. O retorno do trauma emerge na nossa violência cotidiana. Não vou me estender sobre isso – acho que conhecemos bem esse diagnóstico.

Tendo a pensar que o fracasso do projeto iluminista europeu já estava declarado desde os resultados da Primeira Guerra Mundial, como você assinala na sua pergunta. Isso pode parecer, para alguns, uma afirmação um tanto irresponsável. Recentemente foi publicado um artigo chamado “A opacidade do Iluminismo: o racismo na filosofia moderna” do Érico Andrade que mostra bem o que ergueu os valores esclarecidos europeus. É evidente que se tais valores pudessem efetivamente abarcar o globo, não haveria o que ser discutido sobre sua validade. O problema concentra-se no fato de que a luta por liberdade, igualdade, conhecimento e direitos para todos não ocorre a partir de uma construção global, mas sim por atos impositivos e de dominação nos quais se observam processos de deslegitimização de tudo aquilo que não condiz com as formas ocidentais. Nelas, porém, não cabem todas as formas de vida do globo – não adianta, é burro insistir.

Agora voltando à questão que você levanta e retomando a pergunta anteriormente formulada: Acredito, como Roberto Schwarz no texto a que você se refere, que “a matéria do artista [...] não [..] [é] informe: é historicamente formada, e registra de algum modo o processo social a que deve sua existência”. Pensando que a obra freudiana é uma obra teórica e, portanto, uma obra cuja pretensão é alcançar planos universais, a pergunta concernente à sublimação talvez pudesse ser simplificada em algo como: “o que ocorre psiquicamente para que o artista ou o intelectual crie sua obra?” Sua pergunta talvez seja: como Freud cria sua obra? Ele sublima ao tratar, inclusive, do próprio conceito de sublimação? O estilo de escrita freudiano carrega, ele mesmo, essa inflexão que aponto teoricamente e que teria se dado após a Primeira Guerra Mundial? Pois então, diria que sim, que é possível reconhecer mudanças estilísticas em Freud após dois momentos históricos que são a Primeira e a Segunda Guerras.

Só para exemplificar, vou falar aqui de como analiso esse aspecto em meu livro. Há um texto escrito por Freud em 1899 chamado “Lembranças Encobridoras” no qual trata do caráter defensivo da memória. Imagens do passado que emergem intensamente e com grande valor afetivo no presente podem estar à serviço de encobrir imagens atuais que provocam intensa angústia. Quando jovem, lembra-se Freud nesse texto autobiográfico, mas que é contado em terceira pessoa, ele repentinamente foi invadido por uma imagem bucólica da infância na qual estava num campo com seus primos pequenos colhendo flores amarelas. Depois de uma certa desavença entre eles, a babá oferece-lhes um delicioso pão com manteiga. Quando jovem, Freud é assaltado pela lembrança do sabor insubstituível daquele pão e do amarelo vibrante das flores – esses dois aspectos se destacavam naquela imagem. Ele se pergunta por que não consegue se livrar dessa lembrança infantil e acaba por perceber que sua vida em Viena, na época de sua juventude, não estava boa. Ele apostara em sua vida intelectual e tinha ido de encontro aos ideais do pai – este o aconselhara que tivesse um mero ganha-pão no interior e se casasse com a prima (o amarelo remetia a esta prima e às flores amarelas, mas principalmente a outra prima por quem ele havia se encantado e que usava um vestido também amarelo). O que fica como questão é: o que o leva a escrever sobre sua lembrança juvenil dessa cena da infância naquele ano de 1899, já mais velho? E aí temos: Karl Lueger, um político extremamente conservador e antissemita, havia se tornado prefeito de Viena em 1897. Isso torna muito provável a seguinte hipótese: em 1899 Freud questiona mais uma vez sua escolha pela cidade de Viena. Essa outra camada relacionada com o momento no qual redige seu texto, porém, não aparece em seu trabalho. Há sempre um elemento histórico relativo ao presente que não é claramente apresentado nos textos de Freud. Esse elemento aparece em notas ou em pequenas alusões. Entretanto, Freud é definitivamente um homem de seu tempo e sua obra carrega essas marcas. O que muda com a Primeira Guerra é que ele explicita suas questões referentes aos acontecimentos do mundo com todas as letras. Isso, contudo, dura pouco. Ele escreve sobre a guerra, faz comentários, mas depois volta ao seu estilo convencional. Ainda que tenha sido obrigado a enxergar e nomear a pulsão de morte depois da guerra, suponho que, para Freud, ela tenha sido um desvio de rota, mas ainda era necessário insistir no percurso iluminista.

Sendo judeu, não é surpreendente essa escolha. Os judeus tiveram, de fato, uma mudança significativa nas suas condições de vida na era burguesa. Para Freud, não era o caso de bater de frente, nem mesmo contra o antissemitismo. Embora a Primeira Guerra tenha abalado esse raciocínio, acho que a mudança gritante mesmo só vem com a ascensão do nazismo. De todo modo, Freud articula um conceito decisivo com o fim da guerra que é o Unheimliche – esse conceito deve ser lido como resposta a essa experiência terrível que foi a barbárie da guerra. Esse tempo ainda não se dissipou...

PEIXE-ELÉTRICO: Você lança mão de um aparato marxista para organizar as relações entre (para generalizar os termos) ideia e sociedade. Para Sartre o marxismo era o “oxigênio mental” dos nossos tempos e toda e qualquer teoria deveria se colocar em relação a ele. Em Questão de método e depois na monumental biografia de Flaubert, Sartre buscou o cruzamento desses dois grandes modelos explicativos: a luta de classes e o divã. Após toda a onda desconstrucionista que toma corpo na década de 1970, ainda respiramos o mesmo “oxigênio mental” de todo o século XX? Ou seja, bem atualizados, Marx e Freud ainda fazem a nossa cabeça?

ALESSANDRA: Sim, todos que se colocam na contracorrente na cultura vigente – da ideologia burguesa, para dizer com todas as letras – são herdeiros de certo modo de Freud e Marx. Não há como escapar desse legado. Mas também acho que não é o caso de simplesmente desconsiderar a imensa produção contemporânea que se desdobrou da psicanálise freudiana e do materialismo-histórico-dialético, tal como pensado por Marx e Engels. Não dá para tratar a atualidade por meio de um salto direto em direção a esses dois autores, sem considerar os importantes percursos que foram feitos por autores contemporâneos – não vou citar nomes, pois seria uma lista realmente gigante.

PEIXE-ELÉTRICO: Lutas identitárias, politicamente correto, redes sociais, há hoje toda uma batalha por poder que passa pela linguagem e que reflete enquanto molda o processo social. O que a experiência clínica atual pode nos contar sobre a questão da mulher na sociedade contemporânea?

ALESSANDRA: Minha geração é justamente a geração que se iludiu de que as lutas feministas anteriores já haviam feito as conquistas necessárias e que o descompasso entre homens e mulheres era apenas uma questão de tempo e de ajustes. Ilusão talvez parecida com a de Freud em relação aos alcances do iluminismo... Estamos vivendo a terceira onda feminista e fica muito claro como essa luta é importante e ainda precisa ser travada no campo social. A internet abriu um espaço inédito de discursos e serviu para fazê-los circular, dando consistência e amplitude aos movimentos. Ao mesmo tempo, foi lá que a reação começou a se organizar em relação às mais diversas pautas progressistas. Acho que a internet tem seus limites hoje – é muito difícil prever como essas mudanças contínuas no campo tecnológico vão se desenvolver. Os limites não estão atrelados apenas aos discursos reacionários que circulam por ali – isso é parte da luta. Tem muito mais a ver com a maneira pela qual funcionam as grandes empresas onde essas lutas são pautadas e que têm base na cultura do algoritmo. São essas empresas que não oferecem, a meu ver, os melhores meios para expressar resistência ao sistema. Ali as lutas são cooptadas e viram quase novos nichos de mercado. Em geral, as pautas que se destacam e mais circulam são as que de algum modo fazem a engrenagem do Capital rodar. Feminismo deve trazer uma transformação profunda – é uma luta contra o patriarcado que na modernidade ficou desencarnado em instituições aparentemente neutras, mas que carregam essa estrutura moderna falida em seus modos de funcionamento e em sua lógica. O feminismo deve romper com esse modelo. Qualquer outro feminismo – digo mais precisamente, o liberal – não vale a pena para a mulher. O problema das lutas identitárias, favorecidas pela lógica do algoritmo, é que inevitavelmente as pautas discutidas, ou ao menos as que ganham repercussão, são aquelas que não focam em questões estruturais – elas servem, muitas vezes, para impulsionar tretas, linchamentos, polêmicas que alimentam as máquinas, fazendo de todos nós consumidores compulsivos dessas plataformas, que servem, na verdade, para vender espaços de anúncios e os nossos dados e perfis para outras empresas. Com isso, mesmo o mais ativo feminismo só cria novos produtos que fazem rodar a engrenagem. Batalhar pela inserção no mercado sem mexer no que ele é e no modo como sua lógica opera é uma luta inglória. A mulher burguesa vai delegar a tarefa doméstica e o cuidado dos filhos para outras mulheres mais pobres e fará um trabalho análogo ao do homem. É o que queremos?

Por isso, mais que pautas diversas, considero que feminismo no Brasil ainda significa pensar em creches e educação pública para todos, sem exceção. Nossos filhos têm que ter a oportunidade de encontrar todas as classes sociais na escola – lá os problemas emergirão e terão que ser pensados em conjunto. A tarefa doméstica, por sua vez, será facilitada quando dividida entre os familiares. Mas isso tem se tornado um sonho mais distante do que já era.

De qualquer maneira, as mulheres brasileiras ainda aderem muito naturalmente ao papel da mãe que deve desempenhar todas as funções de cuidado com as crianças, de conduzir a casa, de se sentir mal por questões estéticas sem muito nexo, simplesmente porque há o fantasma do padrão Vogue perseguindo-as. Os sintomas ainda são esses. Mulheres mais jovens, que estão muito mais familiarizadas com as lutas feministas, ainda se preocupam com questões dessa natureza, pois os problemas são muito mais entranhados do que nossos desejos de igualdade gostariam de admitir – o feminismo é uma luta árdua e longa.

***

Sublimação e Unheimliche

Alessandra Martins Parente

Editora Pearson

752 páginas

2017

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