Humor e revolução


Publicado pela editora 34 agora no final de 2017, o Diário de Kóstia Riábtsev, de Nikolai Ognióv, é muito engraçado. A leitura começa sem muita pretensão e logo prende pelas anotações cheias de gozação, picardia e jocosidade de um adolescente esperto e meio amalucado. Um jovem normal, portanto. O livro cobre os meses de setembro de 1923 a novembro do ano seguinte, focando sobretudo o ambiente escolar. São os tempos de consolidação da revolução de outubro de 1917, com toda a energia e dificuldade que um movimento desse quilate carrega.

De cara aqui já está um acerto do autor: se tivesse optado por descrever o cotidiano de um adulto ou mesmo o de um idoso, por exemplo, ele teria perdido o aspecto de transitoriedade que a adolescência oferece. Claro, ninguém precisa argumentar que a minha idade é um lugar de trânsito entre a juventude (que já se vai distante) e a velhice, que a dentista mostra em toda consulta que está cada vez mais perto. A questão é que eu já sei o que meus anos de idoso vão ser e, pior ainda, o que vai encerrá-los. Definitivamente, não seria adequado colocar os anos imediatamente seguintes à revolução russa em um asilo. A adolescência é a fase do ânimo e, ao mesmo tempo, do receio pelo desconhecido que está por vir. É o tempo da ousadia e da curiosidade. Dessas combinações nasce a instabilidade que sustenta o romance.

A propósito, o diário é o gênero do movimento. Ele obrigatoriamente precisa transmitir a trepidação que simboliza a passagem do tempo, para quem não está letárgico. Nada mais adequado para o adolescente que na primeira entrada vai à polícia para tentar mudar de nome. Não consegue...

Incomodado com o novo programa pedagógico que estava sendo implementado pelo governo, o Daltan (nada a ver com o promotor de Curitiba, que, de soviético e bem humorado, não tem nada), nosso adolescente prefere observar os colegas fazendo suas atividades a realizar as dele. Disso saem páginas divertidíssimas, como as que descrevem a enquete de uma revista sobre o “sentido da vida”. Claro que a gozação corre solta.

Aos poucos, tudo vai sendo satirizado, da disciplina escolar à medicina, simbolizada no livro pelo doutor Iv Iv Imbecílov: “O professor Iv Iv Imbecílov encontrou um meio de curar a coceira na língua, que recentemente se alastrou ao ponto de tornar-se uma ameaça de epidemia. O respeitado astro do mundo da medicina, que por sinal recebeu outro dia um Prêmio Nobel do tamanho de dois pepinos salgados, dedicou a menor parte de sua vida à luta contra a referida doença”. (pág. 257) O livro termina com um incidente entre o patético e o tenebroso, que por fim deixa em aberto a filiação ideológica do jovem narrador. O que acontece depois com ele, não sabemos. Já com a literatura da União Soviética, claro que sim.

Ou melhor, acho que não...

Talvez saibamos pouquíssimo ainda da literatura russa do período soviético, o que aliás me deixou bastante intrigado durante a leitura. Nikolai Ognióv fez bastante sucesso durante um período, inclusive com esse romance. Depois, desapareceu. Formei-me lendo A geração que esbanjou seus poetas, de Roman Jakobson, irritando-me com o realismo socialista, provavelmente um dos piores estilos da história da arte, e por fim acreditando que quase nada havia sido produzido de bom depois que o regime de exceção se consolidou na União Soviética.

Nisso, parece que eu estava, como a nossa personagem, na adolescência. Não li os outros volumes da série Narrativas da revolução, todos organizados por Bruno Barreto Gomide, mas ela parece mostrar que muita coisa boa foi feita nos anos soviéticos, mas acabou escondida pela terrível máquina de controle stalinista. A coleção publica 5 livros da década de 1920. Fico imaginando o que não pode ainda estar escondido por aí das décadas seguintes. Pelas minhas contas, até 1989 são no mínimo 30 livros do nível do romance de Ognióv. Tomara que achem logo.

(imagem: william kentridge)

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