Convivendo com nazistas e fascistas


Recém-lançado no Brasil pela editora Todavia, A questão da culpa – a Alemanha e o nazismo é um livro inquietante. Isolado por conta do casamento com uma judia durante o nazismo, Karl Jaspers publicou a obra nos meses seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo passou a tomar conhecimento com amplitude e detalhe de tudo o que Hitler e sua massa alucinada de apoiadores tinham causado. O assunto da reflexão, clara e bastante focada, é a forma como o povo alemão deveria lidar com a culpa que, inevitavelmente, estava recaindo em todos por causa dos atos de um governante eleito e dono de amplo apoio popular.

Jaspers também reflete sobre o Tribunal de Nuremberg que, à época de seu ensaio, estava ainda sendo montado e concebido. Ele mesmo, assim, assume que o livro é pontual e dirigido a uma época e uma sociedade bastante específicas. Em vários momentos, o filósofo admite isso. No posfácio de 1962, por exemplo, ele reivindica que a obra deve ser datada: “Este escrito foi esboçado em 1945, apresentado em janeiro e fevereiro de 1946 em palestras e depois publicado. Ao ler o texto, precisa-se ter em mente o tempo em que foi escrito”. Essa afirmação é do início dos anos 1960, momento em que o mundo fervia com a luta pelos direitos civis e a sombra do que havia acontecido décadas antes era quase imperceptível. O mundo iria caminhar para a frente. Peço desculpas pelo chavão, mas é isso mesmo.

O livro analisa quatro tipos de culpa: a criminal, a política, a moral e a metafísica. Todas dirigidas ao povo alemão (entendido às vezes como uma comunidade, caso das duas primeiras; e outras a partir de cada indivíduo, para as duas últimas) e especificamente, repito, ligadas ao nazismo. A culpa moral e a metafísica são baseadas em uma tradição filosófica reconhecível e como se dirigem a uma espécie de consciência particular, não são as que mais chamam atenção. Jaspers é enfático nesse ponto: se quiser viver com alguma paz, cada alemão precisa pensar muito bem no que fez. Como cada alemão fez uma coisa diferente, a particularidade das consciências vai aparecer, mas ninguém deve fugir delas.

Concordo, e concordo mais ainda com uma afirmação do início do livro: “Não há pergunta que não possa ser feita, não há obviedade cara, nem sentimento ou mentira que devam ser protegidos”. Devia ser um mantra.

A culpa criminal tratada por Jaspers é aquela que iria se instalar com Nuremberg. Ele coloca condições para que o julgamento fosse justo e tenta estabelecer alguns princípios básicos: cada indivíduo deve ser tratado pela Justiça a partir do que efetiva e concretamente fez. No posfácio final, Jaspers acredita que Nuremberg tenha sido um evento juridicamente consistente.

Inquietante no livro é realmente a culpa política. Desde o lançamento no Brasil há algumas semanas, muita gente tem chamado a atenção para a bastante incômoda coincidência do que Jaspers apresenta e da nossa atual realidade. Não vou poupar ninguém da leitura, mas é realmente isso: contra a própria previsão de estar fazendo um livro datado, A questão da culpa fala sim em muitos momentos do Brasil e do mundo contemporâneo.

Eu só gostaria de colocar uma discordância no debate. Li muita gente dizendo que Jaspers descreve atitudes e crenças que aos poucos foram dando condições para o nazismo surgir e tomar força. Acho que não: ele apresenta e analisa comportamentos nazistas mesmo, que iriam basicamente tomar conta do poder político. Portanto, não é que hoje muita gente se comporta como no início do nazismo, que estaria à espreita. Estamos convivendo na verdade com nazistas e fascistas de fato. Eles já chegaram, não estão sendo gestados.

Uma frase do livro, que é repetida três ou quatro vezes, deixou-me perplexo: “Todo cidadão é corresponsável e coatingido por aquilo que o próprio Estado faz e sofre”. Quanto à parte do que nos recai das ações do Estado, eu concordo. Mas não acho que sou responsável pelo que o Estado faz, nem sequer se eu tiver votado no dono eventual do poder. Na dinâmica contemporânea, a política já não oferece nenhum tipo de controle ao eleitor. Somos traídos, vilipendiados, roubados, ridicularizados, violentados e por aí vai pelas pessoas que vencem as eleições e também pelas que perdem. Temos sido vítimas do sistema político.

Olha eu me justificando diante da tragédia que está aí na frente...

***

A QUESTÃO DA CULPA

Karl Jaspers

editora Todavia

2018

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