Só os brancos podem


No prólogo de A nova segregação – racismo e encarceramento em massa, Cornel West diz que o trabalho de “Michelle Alexander é a bíblia laica de um movimento social nascente nos Estados Unidos do século XXI”. Recém lançado no Brasil pela Boitempo, o livro levanta uma enormidade de dados, estatísticas, estudos e observações para mostrar como a chamada “guerra contra as drogas” nos Estados Unidos nada mais é do que exclusivamente uma política de controle e aprisionamento da população negra.

Ainda na apresentação, a autora deixa claro que “estudos mostraram que pessoas de todas as cores usam e vendem drogas ilegais em taxas bastante similares”. No entanto, a prisão de negros é muito maior do que a de brancos. As razões que apresenta são inúmeras, mas convergentes. Na verdade, tudo não passa de uma nova política de segregação racial, agora disfarçada de repressão a narcóticos.

O livro mostra, por exemplo, como o encarceramento em massa é lucrativo para uma economia que gira ao redor do universo carcerário. Além das cadeias privadas, cujos ganhos para os proprietários crescem a cada novo preso que chega, há os funcionários que empregam, a comunidade que gira ao seu redor e, mais ainda, as demandas que o aparelho repressivo exige. Do emprego de policiais à fabricação de armamentos, é muito lucrativo que homens sejam presos continuamente.

Apenas o que resumi no parágrafo anterior já seria suficiente para uma revisão ampla da repressão às drogas. Mas Alexander continua apontando ainda outros motivos, como o controle político de uma parcela gigantesca da população. Homens e mulheres presos não podem votar, em muitos lugares mesmo depois de terem cumprido a pena. O trecho a seguir é de cair o queixo: “O voto de Drake, juntamente com os votos de milhões de outras pessoas rotuladas criminosas, poderia ter feito uma diferença real em 2004. Não há dúvida de que seus votos teriam mudado as coisas em 2000. Após a eleição foi amplamente divulgado que se os 600 mil ex-criminosos que cumpriram as suas sentenças na Flórida tivessem sido autorizados a votar, Al Gore, não George W. Bush, teria sido eleito presidente dos Estados Unidos.” Em resumo: prende-se apenas um grupo, entre os vários que estão relacionados às drogas, para controlar as urnas...

O final do livro é pungente e ecoa o clássico de James Baldwin, Da próxima vez, o fogo. Alexander declara a urgência do encerramento da guerra às drogas e da racialização das políticas de repressão. Um trabalho exclusivamente jurídico não é eficaz. É preciso que a sociedade inteira recuse qualquer tipo de política e ação discriminatória, em todas as instâncias da sociedade. A situação parece longe de se resolver, mas o sucesso de um livro como o dela (a autora é a principal voz do documentário A 13° Emenda), e no Brasil a circulação cada vez maior de nomes como o de Djamila Ribeiro, mostram que talvez o caminho seja realmente esse: uma militância com bases sólidas, segura, contínua e enfática.

A leitura de A nova segregação espanta também por outro detalhe. Apesar de lidar exclusivamente com a realidade norte-americana, com algum ajuste nos dados, o livro bem poderia estar falando do Brasil. O caso recente de uma mãe presa portando apenas 8,5 mg de maconha, que teve a prisão domiciliar negada apesar de ter um filho de um mês, deixou muita gente perplexa, sobretudo porque Adriana Ancelmo, esposa de Sergio Cabral, teve o mesmo benefício concedido sob argumento de precisar cuidar dos filhos menores. Ancelmo é branca e rica.

Os casos são muitos. Outro dia li sobre uma jovem mãe que tinha sido presa com 10 kg de cocaína, apesar de jamais ter qualquer contato com o tráfico e também não ser usuária de drogas. Moradora de uma comunidade no Rio de Janeiro, ela soube que o irmão, surdo e dependente de cocaína, estava sendo ameaçado de morte caso não pagasse uma dívida com traficantes. Ele seria executado em poucos dias. Como a família não tinha recursos para evitar o assassinato do irmão, ela fez um acordo: transportaria um pacote de cocaína em um táxi para outra comunidade e, então, a família estaria livre. Menos de dez minutos depois de entrar no carro, uma batida policial a prendeu. Os advogados não conseguem nenhum tipo de benefício, mesmo sendo ela também mãe com filhos menores. Pela quantidade de drogas que carregava, vai ficar muito tempo presa.

Sem falar de Raphael Braga, claro...

Enfim, tanto no Brasil quanto em qualquer outro lugar, a guerra às drogas só serve de fato para o controle social de uma grande camada da população: trata-se de uma política que desperdiça dinheiro, é racista, classista, discriminatória, obtusa, e com resultados bastante duvidosos. Ela precisa acabar.

PS: está para ser lançado no Brasil O que é encarceramento em massa? da pesquisadora Juliana Borges, dentro da coleção “Feminismos plurais”. Voltarei ao tema, portanto.

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