A vergonha de Juliano Garcia Pessanha


O romance Recusa do não-lugar tem alguns eixos narrativos mais ou menos explícitos: a passagem do fora para o dentro, a dor e a legitimação de um recomeço.

Gostaria de propor aqui uma outra leitura, que de forma alguma esgota o livro. A vergonha como elemento estruturador do romance, como justificativa para saídas formais tão engenhosas e um narrador bastante complexo.

Partir do fato mais ou menos dado de que o livro é um híbrido de ficção e não ficção (e pode até ser) pode provocar uma leitura compartimentada (e, no meu entender, reduzida) da obra; autoriza o entendimento de que há trechos não ficcionais (aula de filosofia) e ficcionais (dramas e dores pessoais), independentes.

Proponho uma leitura sem divisões desse tipo. Li o livro como um romance todo ele estruturado na forma de tese acadêmica (apresentação, capítulos que originalmente foram publicados como ensaios independentes em revistas científicas ou congressos, citações, notas, posfácio). Nesse andaime engessado Juliano desenvolve o narrador envergonhado. E aos poucos derrete as fundações formais da estrutura. O eu narrativo varia muito e diversas vezes: primeira pessoa na voz de Nietzsche, ensaio filosófico que no meio do caminho assume o testemunho mas antes avisa que vai passar para a terceira pessoa, relatos íntimos na primeira pessoa, memórias e aforismos. Mas o que ele quer contar afinal por meio de tantos desvios, recuos e solavancos formais? O que lhe causa vergonha? (fica aqui a sugestão para outra leitura: o saber do narrador é confiável? As citações são verdadeiras? As referências a congressos etc podem ser comprovadas? O posfácio foi de fato escrito por aquela que assina o texto?) Algo bastante sério no meio cultural ao qual pertence esse narrador. O abandono das escolas mais prestigiadas e críticas do pensamento no século XX. Saem Heidegger, Nietzsche e a filosofia francesa contemporânea e entram Winnicott e Sloterdijk.

Esse corte teórico representa uma opção de vida para o narrador que quer entrar no mundo. Se nos livros anteriores o não-lugar do personagem-autor foi construído por meio da filosofia, é também por ela que ele pode adquirir o bilhete para o bonde de volta. A palavra do saber é o seu corpo, é mais que justificativa, é o sangue, os ossos e os tecidos. Sem a palavra-saber não há sujeito, não há lugar nem livro. Mas entrar, aceitar o amparo e o amor envergonha o profeta falido, o iluminado sem luz. E é esse romance de formação, ou de bifurcação, ou ainda de reformação, que exigiu a forma descoberta por Juliano. A vergonha está na forma, empurrando o narrador para dentro. Aos poucos. Ou aos trancos. O discurso acadêmico pré-formatado vai cedendo terreno para aforismos e para um sujeito que vai colocando a cabeça para fora (ou para dentro).

Vale ainda notar que o abandono do não-lugar não significa o abandono da palavra-vida. Na obra de Juliano não há representação ou mediação. A literatura é corpo, esteja o narrador onde estiver. A potência poética de uma escola que tem Artaud como mestre, essa não é abandonada.

Se minha leitura não é equivocada, todo o aparato teórico-filosófico discutido no livro cria um ruído sob o qual o narrador vai tomando coragem para abrir o jogo. Alguns capítulos propositadamente repetitivos marcam a hesitação desse anti-herói.

Até que nas últimas páginas (impressionantes, diga-se de passagem) ele potencializa a prosa, entra com autoironia, autoderrisão e humor, e desvia a vergonha para o que ele foi e não para quem ele se tornou, ou quer se tornar. Eis o trecho decisivo da virada:

“É sentado no táxi que me lembro do anarca, do libertário e do utópico que dizia ser o mundo uma prisão. Eu me lembro dele agora como se lembrasse de um garoto tolo e enganado e, nessas horas, gosto de acelerar o carro e seguir adiante com o rosto cheio de vergonha.”

Juliano está no mundo. Isso não torna a vida mais fácil. Apenas trata-se de uma nova batalha. Sem heróis ou profetas, sem autoimolação, mas com stent cardíaco, contas, amor e literatura de alto nível.

***

Recusa do não-lugar

Juliano Garcia Pessanha

Ubu

R$42,00

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